
?Na semana em que a telenovela completa 60 anos no Brasil, o UOL Televis?o preparou uma cobertura especial sobre o tema. Al?m de um quiz de 60 perguntas, distribu?das em cinco categorias, preparadas pelo mais novo blogueiro do portal, o estudioso e pesquisador da telenovela Nilson Xavier, ser? publicada uma s?rie de entrevistas especiais. A primeira, no ar nesta segunda (19), ? com a atriz Regina Duarte. Gravado no MIS (Museu da Imagem e do Som) de S?o Paulo, o material abrange desde o in?cio de sua carreira na TV Excelsior at? conjecturas sobre o papel social da novela no Brasil. “[Novela] aliena... So...?”, questiona a atriz. Leia mais abaixo:
UOL – O que foi que mudou no processo de produ??o da telenovela desde a sua primeira novela at? esta ?ltima que voc? fez?
Regina Duarte – Eu me lembro que as grava?es na Excelsior, onde eu comecei, eram feitas nos est?dios da Vera Cruz em S?o Bernardo do Campo. E gravava-se de uma maneira muito inusitada. Hoje se grava de maneira "clipada". O que antes era uma cena, hoje s?o 20 cenas, porque a c?mera muda de posi??o, porque a luz muda tamb?m, ent?o voc? tem uma cena de uma p?gina e meia que se torna oito ou nove cenas. Isso porque o diretor quer em cada momento da cena mostr?-la de um ?ngulo, que ? uma linguagem cinematogr?fica que a televis?o absorveu. Ent?o, quando eu comecei, os cen?rios de uma novela eram todos montados, n?o sei se havia uma ordem, mas o fato ? que eles estavam todos l?. Voc? imagina um ret?ngulo, com os cen?rios montados nas paredes desse ret?ngulo, com o interior cheio de c?meras, ilumina??o. E a c?mera ia percorrendo esses cen?rios. Era louqu?ssimo, porque ? como se fosse ao vivo...
UOL – Mais ou menos como o filme “Festim Diab?lico”, de Alfred Hitchcock [que foi todo filmado em tomadas ininterruptas]?
Regina Duarte – Exato. E havia um desafio proposto pelo [Walter] Avancini [diretor] de ningu?m errar. De correr de um cen?rio para o outro, de uma c?mera focalizar em um ator e a outra j? correr para outro cen?rio enquanto o outro ator sa?a do primeiro... E se era o mesmo ator que aparecia na cena seguinte, a c?mera focalizava num detalhe do cen?rio, por exemplo. Isso tudo, claro, quando tinha continuidade da a??o. E era genial! Porque, para a gente, era uma gincana. Era uma coisa muito estimulante. E havia um orgulho de n?o errar, de conseguir, de participar, de fazer at? cinco cenas direto. Sem corte e sem interrup??o...
UOL – Conforme a produ??o da novela ficou mais industrial, come?aram a surgir dois tipos de problema, segundo ouvimos relatos de alguns atores. Um ? a diverg?ncia de orienta??o de personagem entre diretores. O outro ? a falta de tempo dos diretores para orientar os atores. Acontece isso contigo?
Regina Duarte – Acho que para os veteranos, grupo no qual eu me incluo, a gente j? sabe que o tempo ? ex?guo, que os diretores n?o v?o dar conta de te dar aten??o o tempo todo ao longo da novela. Ent?o, voc? tem que aproveitar muito as reuni?es que antecedem o in?cio das grava?es, que ? ali que as coisas t?m de ser esclarecidas. E mesmo assim isso muda. Eu vejo muito, bem menos comigo, colegas que come?am um papel com uma imposta??o que os autores e diretores orientaram e, no meio da novela, eles pedem para mudar a trama, o texto, a proposta e pedem para o ator realmente esquecer o que foi combinado l? atr?s. Principalmente os que est?o iniciando ficam mais atrapalhados ainda. N?o ? f?cil, porque ? uma obra aberta, que sofre influ?ncias de todos os tipos. Nesse ponto, tamb?m quando eu comecei na Globo, tinha “El Brujo”, o Homero Icaza Sanchez, que era uma baliza que evitava exatamente esses "achismos", porque ele vinha com uma pesquisa de p?blico, de mercado e de audi?ncia e definia os padr?es.
UOL – Voc? j? sentiu essa influ?ncia externa em algum de seus personagens?
Regina Duarte – Antes de citar esse exemplo, eu lembro que a gente dizia: “Gosto de TV por isso, isso e isso. E de teatro eu gosto porque a resposta ? imediata.” Hoje, na TV, a resposta tamb?m imediata. Eu n?o tenho, mas se voc? tiver Twitter, Facebook e todas essas comunidades da internet, voc? imediatamente fica sabendo se a tua cena bateu. Na hora at?. Ent?o, olha como mudou...
Citando o exemplo, agora. Quando o Maneco me convidou para fazer “Por Amor”, ele me contou que a minha personagem doava o filho. Eu disse: “Nossa, que forte!” E aquilo ficou. Fomos para Veneza, gravamos, e quando chegou o momento da doa??o, que o neto morria, entrou uma coisa na qual eu n?o tinha pensando e que eu n?o sei at? que ponto o Maneco tinha pensado, que era o marido... Uuuuuuui, at? me arrepia! (esfrega os bra?os) Entrou um pai, louco para ser pai! Tra?do em sua paternidade! Cujo filho tinha morrido entre aspas... Eu me lembro de uma cena que me deixa arrasada! E o Maneco n?o maneirou. Poderia ter maneirado, mas n?o maneirou. O Maneco p?s uma cena do At?lio chegando ao hospital com um ramalhete de flores, saltitante! Ai, gente! N?o ? horr?vel isso?... (p?e um bra?o sobre o rosto com riso de afli??o) ? de chorar, n?? E ela pegou o filho e deu para a filha! Esqueceu o marido! Esqueceu esse cara que ela amava! Quando cai a ficha e ela o abra?a e fala “Perdemos! Perdemos!” Era um horror! E a? ela vai pra capela, chora feito uma condenada ao sofrimento! (risos) Coisa tr?gica, n?? E grandiosa, linda, eu adoro essa novela! Eu acho essa novela um cl?ssico, antol?gica! E pra mim foi muito duro fazer. Eu estava trabalhando com a minha filha. Eu estava vendo a minha filha, que n?o era casada, n?o tinha namorado nem nada, amamentando um beb? que entre aspas era meu! Eu n?o sei como a minha cabe?a n?o fundiu! Profiss?o maluca, essa nossa!
UOL – Falando em cl?ssicos, fala um pouco da Porcina...
Regina Duarte – Quando eu fui chamada, me deram a sinopse, alguns cap?tulos, eu n?o sabia nada da novela. Ent?o eu pedi alguma orienta??o. Eles me disseram assim: “Ela ? oper?stica, Regina. Pensa nela como se ela estivesse sempre em cena cantando uma opera!” Eu fui por a?... Mas a personagem era exagerada mesmo... Porcina n?o era uma mulher normal...
UOL – E a Maria do Carmo de “Rainha da Sucata”?
Regina Duarte – Ent?o... Sei l?... Eu gosto dessas mulheres acima do tom da realidade. Porque, se for pra mostrar realidade, faz um document?rio. P?e l? uma mulher de verdade pra fazer... J? que estamos falando de fic??o, vamos dar uma apimentada nessas mulheres! Eu gosto de subir o tom...
OL – Quando voc? percebeu que o seu trabalho como atriz tinha um reflexo importante na vida cotidiana das pessoas que te assistiam?
Regina Duarte – Para esse exemplo o que me vem ? cabe?a ? “Vale Tudo”. O fato de a Raquel ter ficado zerada com todas as trai?es da Maria de F?tima e come?ar do nada. De alguns trocados ela comprar algumas coisas na padaria e fazer os primeiros sandu?ches e da? para a frente se reerguer e se tornar uma pessoa vitoriosa na vida, eu acho que ali a gente transp?s a quarta parede e passou a ser um est?mulo de for?a, de resist?ncia para algumas pessoas da sociedade que estavam precisando desse estimulo para resistir sem medo. D? para fazer, d? para superar, d? para parar de olhar para as derrotas do passado e acreditar numa vit?ria futura! Vira e mexe algu?m me para e me diz: “Ah, o teu personagem me ajudou tanto a superar um momento dif?cil...” ? lindo de ouvir...
UOL – Voc? fica emocionada?
Regina Duarte – Fico, fico muito.
UOL – J? chorou vendo alguma cena sua?
Regina Duarte – Cena minha n?o, mas j? me emocionei muito com alguns relatos de gente que estava na pior, no fundo do po?o, que estava sofrendo por levar a vida sem pai, sem m?e e sem marido e que por causa de “Malu Mulher” viram que dava para seguir em frente. Ent?o, isso me emociona...
UOL – Muita gente diz, principalmente os mais jovens e mais revolucion?rios, que a novela aliena. O que voc? acha disso?
Regina Duarte – Aliena... So...? Tanta coisa aliena...
UOL – Voc? n?o v? problema?
Regina Duarte – N?o. O Twitter aliena, o cinema aliena... Tudo que n?o ? engajado [aliena]? Eu acho que esse pensamento ? t?o decadente, retr?grado. ? um racioc?nio que n?o acompanhou o mundo em suas transforma?es. O que aliena ?s vezes ? a religi?o. Tudo aquilo que te d? prazer? ? uma coisa que te aliena em detrimento de outra, n?o ?? Ent?o, que elei??o vamos fazer hoje? O que n?o deve ser alienado? Acho que tem que dar mais liberdade para as pessoas escolherem e serem respons?veis pelas suas escolhas...