Piaui em Pauta

Advogado diz que Fernanda Lages pode ter sido vítima de assassinos profissionai

Publicada em 09 de Janeiro de 2012 às 23h49


?Intencionalmente afastado de entrevistas desde quando a Pol?cia Civil apresentou seu relat?rio sem esclarecer a morte da estudante Fernanda Lages Veras, o advogado da fam?lia, Lucas Villa, depois de duas tentativas, concordou em receber este rep?rter na manh? desta segunda-feira (9) em seu escrit?rio Cord?o, Said e Villa Sociedade de Advogados, na rua Manoel Nogueira Lima, no bairro Jockey Clube para uma entrevista exclusiva que come?ou ?s 11 horas da manh? e s? terminou ?s 14h30min.

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Ao quebrar o sil?ncio quatro meses e 15 dias depois da morte de Fernanda, Villa afirmou n?o ter d?vidas de que a garota foi assassinada no interior da obra do pr?dio que sediar? o Minist?rio P?blico Federal no Piau?, na avenida Jo?o XXIII, n?o descartou a possibilidade do envolvimento de “gente poderosa” e admitiu que o crime pode ter sido cometido profissionais.

Lucas Villa ? um jovem advogado de 29 anos, formado pela Universidade Federal do Piau? em 2005, especialista em ci?ncias criminais, mestre em filosofia e doutorando em ci?ncias jur?dicas. Apesar da pouca idade, a bagagem profissional de Villa ? vasta e inclui, al?m da advocacia, a atividade de professor de direito penal das faculdades FAP e Novafapi, pesquisador e autor de livros.

Como se n?o bastasse ? um amante do Xadrez e na sua sala observa-se pelos objetos dispostos, um respeito grande pela hist?ria oriental. Duas Katanas (espadas de samurais) sobre um aparador d?o a dimens?o de suas incurs?es e interesse pela cultura do oriente.

- Dr. Lucas ainda h? muita gente que diz que Fernanda se matou. O que o sr. acha disso?

-Lucas Villa: As pessoas t?m o direito de achar o que bem entendem, por?m, felizmente o direito penal ? uma ci?ncia, portanto, n?o se baseia em achismos. Continuo afirmando, como o fa?o desde o in?cio das investiga?es em torno da morte de Fernanda, que n?o h? a menor razoabilidade em supor que a mesma tenha se suicidado. Isto por v?rios motivos que poderiam ser objeto de um dia inteiro de conversa?es, por?m vale ressaltar alguns que saltam ? vista: 1) Fernanda n?o possu?a perfil suicida; 2) Foram encontrados vest?gios de sangue masculino no local da morte de Fernanda, o que demonstra a exist?ncia de ao menos uma segunda pessoa no cen?rio; 3) A impossibilidade de Fernanda escolher local t?o inusitado para praticar um ato desta natureza, vez que os suicidas s?o demovidos de seu intento ao menor obst?culo que encontram (o impulso suicida, segundo a psican?lise, parte do id e basta a menor resist?ncia do meio para que o superego se reestabele?a, demovendo esta puls?o inconsciente); 4) a inexist?ncia de motiva??o; 5) o comportamento normal de Fernanda durante os ?ltimos dias de sua vida, inclusive na noite de sua morte; 6) a quantidade de ferimentos existentes em seu corpo que s?o incompat?veis com a queda; etc...
Esta convic??o torna-se ainda maior quando analisamos o material produzido nos exames periciais e nas reconstitui?es, nas quais ficou comprovada a impossibilidade, pela dist?ncia em que o corpo de Fernanda foi encontrado em rela??o ao perfil do pr?dio, de que ela tivesse se posto de p? sobre o parapeito e se lan?ado voluntariamente, uma vez que assim o fosse, seu corpo teria sido projetado a dist?ncia bem maior. A hip?tese mais razo?vel nos parece a de que ela tenha sido empurrada enquanto sentada no parapeito ou lan?ada sobre o mesmo por mais de uma pessoa.
N?o ? preciso, entretanto, ser um especialista para perceber o que aqui afirmamos. Toda a sociedade piauiense est? convencida de que estamos diante de um homic?dio e afirmar o contr?rio seria duvidar de forma ris?vel da intelig?ncia do povo do Piau?.

- E a quem pertence o perfil gen?tico masculino encontrado no local?

- Lucas Villa: H? pelo menos dois perfis gen?ticos masculinos distintos encontrados em locais cruciais para a elucida??o dos fatos (por exemplo, na mureta do parapeito no exato local de onde Fernanda caiu e na cordoalha que cobre o mesmo parapeito). A Pol?cia Civil colheu material gen?tico de v?rios suspeitos e de oper?rios que trabalhavam naquela obra, para eliminar a hip?tese de que algum deles tenha se ferido no local em momento anterior ou posterior ao fato. Nenhuma das amostras colhidas conferiu com os perfis encontrados, o que deixa claro que os autores materiais do fato, ao menos os que l? deixaram amostras gen?ticas, n?o est?o entre aquelas pessoas cuja saliva foi colhida pela CICO. O material gen?tico n?o pertence, tamb?m, a nenhum dos oper?rios da obra, denunciando a presen?a de figura estranha ao contexto no local da morte de Fernanda. Aguardamos, ent?o, ansiosamente, da Pol?cia Federal, a resposta para esta quest?o, que ? fundamental para a elucida??o do crime.

- E de quem seriam esses perfis?

- Lucas Villa: Provavelmente dos autores materiais do delito, que, esperamos todos, ser?o anunciados pela Pol?cia Federal. Um fato curioso a respeito destas provas colhidas foi que a cobertura do pr?dio do MPF, de onde Fernanda teria sido lan?ada, n?o foi isolada pela autoridade policial quando da ocorr?ncia do crime. Somente mais de uma semana depois do ocorrido, ap?s o local ter sido devassado por quem assim pretendesse, o piso superior foi isolado e as amostras colhidas. Neste entretempo houve chuva, que pode ter apagado muitos vest?gios, bem como poderia perfeitamente haver a??o de terceiros que tivessem por objetivo ocultar provas. ? at? de se admirar, dado o patente profissionalismo dos executores deste delito, que estas amostras gen?ticas ainda tenham sido encontradas. Tivesse o local sido isolado corretamente e a per?cia agido de imediato, certamente outras mais teriam sido localizadas.

- Ent?o o sr. acredita que ela foi v?tima de assassinos profissionais?

- Lucas Villa: Sim. Dada a meticulosidade do trabalho e a cria??o de um cen?rio que tenta sugerir uma possibilidade de suic?dio, hoje me parece razo?vel crer nisto. A princ?pio cogitei a hip?tese de um crime passional e de que o fato tivesse ocorrido no calor do momento, sem premedita??o. Entretanto, depois de avan?ados tantos meses de investiga??o, tivesse este assassino agido por impulso e de inopino, certamente j? teria sido localizado. O simples fato de n?o termos, at? ent?o, autoria identificada j? denuncia um trabalho de um ou mais criminosos experientes.

- O sr. tem ideia de quem teria interesse na morte de Fernanda?

- Lucas Villa: Infelizmente, da investiga??o realizada pela CICO, n?o se pode concluir sobre a exist?ncia de quem quer que seja que pudesse desejar a morte de Fernanda. O fato de que esta motiva??o ainda n?o tenha sido encontrada, no entanto, est? longe de significar que ela n?o exista. Esperamos que a Pol?cia Federal nos responda tamb?m esta quest?o. ? ?bvio que a n?s, que acompanhamos o deslinde dos fatos desde o in?cio, surgem v?rias suspeitas. Prefiro, por?m, n?o conjectur?-las publicamente. S? afirmo aquilo que tenho certeza, justamente por esse motivo, em meio a este caso em que tantas coisas foram ditas e desditas, tenho a tranquilidade de dizer que n?o retrocedo em uma s? palavra do que afirmei at? ent?o. Continuo seguindo a mesma linha e aconselhando a fam?lia de Fernanda a fazer o mesmo: n?o indicar nomes. A indica??o dos criminosos cabe t?o somente ? Autoridade Policial e ao Minist?rio P?blico, titular da a??o penal, quando denunciar os acusados ? Justi?a.

- o sr. pode explicar o epis?dio do carro que o sr. viu na entrada da CICO?

- Lucas Villa: Ainda no in?cio das investiga?es da CICO, tomei ci?ncia da exist?ncia de filmagens produzidas por c?meras de seguran?a que possibilitavam a identifica??o do ve?culo de Fernanda na Av. Frei Serafim e em suas imedia?es. Duas destas filmagens mostravam outro autom?vel que, em um primeiro momento, passava logo ap?s o carro de Fernanda e, em outro momento, emparelhava-se com ela na avenida. Posteriormente pude tamb?m assistir a estas filmagens. Este autom?vel era um Fox de cor prata, sem nenhuma calota nas rodas e com frisos de teto para bagagem, um ve?culo, portanto, de descri??o bem peculiar. Setores da pol?cia estavam muito interessados na busca deste carro, entendendo que ele poderia ser crucial para a elucida??o do crime, j? que parecia seguir Fernanda rumo ? obra do MPF.
Certa feita, chegando ? CICO para acompanhar alguns depoimentos, encontrei carro com id?ntica descri??o deixando aquele local. Imaginei, com muita alegria, que a pol?cia teria encontrado o ve?culo e que seu dono dali estava saindo ap?s prestar esclarecimentos. Por via das d?vidas, entretanto, e meio que de relance, fixei a placa do autom?vel. Chegando ? CICO, fiquei surpreso ao saber que nenhum dos delegados conhecia o fato de que aquele autom?vel, com descri??o id?ntica ao buscado pela pol?cia, se encontra ali, debaixo de nossos narizes. Repassei a placa, que, consultada, indicou como sendo de uma motocicleta de cidade do interior do Maranh?o, portanto, se a placa est? correta, era clonada.
Fiz pedido por escrito ao delegado que presidia o inqu?rito, relatando todos estes fatos e requerendo provid?ncias no que tange ? localiza??o daquele autom?vel. Infelizmente, o mesmo nunca foi encontrado. Estes mesmos fatos, entretanto, j? foram tamb?m narrados ? Pol?cia Federal, de quem, agora, nos resta esperar resposta.

- E nem a moto?
- Lucas Villa: e nem a moto.

- Recordo que, ainda bem no in?cio das investiga?es e antes da entradas dos promotores Ubiraci Rocha e Eliardo Cabral, o sr. j? pedia a federaliza??o das investiga?es. Por que?

- Lucas Villa: De fato, assim que comecei a tomar p? das investiga?es e senti em certos setores dos profissionais envolvidos no caso uma tend?ncia ? hip?tese do suic?dio de Fernanda, como uma forma de prote??o, conversei com a fam?lia da estudante sobre a possibilidade de um pedido de federaliza??o da investiga??o, caso necess?rio fosse. Na mesma esteira e com a inten??o de demonstrar nossa indigna??o com rela??o ? hip?teses do suic?dio, me manifestei em v?rios meios de comunica??o deixando clara a possibilidade de pedido de interven??o da Pol?cia Federal caso as investiga?es tomassem rumos n?o razo?veis. Neste sentido, e sabendo de qu?o fundamental seria o apoio do Minist?rio P?blico Federal para este fim, estive, junto com Paulo Lages, pai de Fernanda, e Cassandra Lages, sua madrinha, junto ao Procurador Chefe da Rep?blica no Piau?, dr. Marco T?lio Caminha, naquela ocasi?o tamb?m acompanhado do Procurador da Rep?blica Kelston Lages. Expusemos nosso receio no que tangia ? possibilidade de que fosse atestado um surreal suic?dio de Fernanda e pedimos o apoio o Minist?rio P?blico Federal no sentido de que, caso se tornasse necess?rio, fosse pedida a federaliza??o do caso. Lembro bem que, ? ?poca, muita gente duvidou desta possibilidade. A? est? o resultado.
No dia seguinte a esta visita ao Minist?rio P?blico Federal, os Procuradores da Rep?blica, encabe?ados pelo Procurador Chefe, dr. Marco T?lio Caminha, fizeram visita ? Procuradora Geral de Justi?a, dra. Z?lia Saraiva, a quem transmitiram as inquieta?es da fam?lia de Fernanda. Desta visita resultou a nomea??o dos promotores Ubiraci Rocha e Eliardo Cabral para acompanhar o feito. A entrada destes dois grandes profissionais impulsionou as investiga?es e foi important?ssima para que n?o prosperasse aquele resultado que sempre temi: um relat?rio final que atestasse pelo suic?dio de Ferndanda.
A entrada da Pol?cia Federal, entretanto, se deu somente ap?s a apresenta??o do relat?rio (que de relat?rio nada tinha, posto que absolutamente inconclusivo) da Pol?cia Civil e foi provocada por pedido dos Promotores Ubiraci Rocha e Eliardo Cabral, que encamparam ?rdua batalha para que esta interven??o se tornasse poss?vel, recebendo tamb?m apoio do Minist?rio P?blico Federal no Piau? e do pr?prio Procurador Geral da Rep?blica, em Bras?lia. Esta, ent?o, ? hoje a ?ltima esperan?a ? qual nos agarramos com unhas e dentes: a de que o relat?rio final do Inqu?rito Policial em curso na Pol?cia Federal, presidido e tocado por profissionais de fora do Piau?, portanto sem pr?-compreens?es, isentos e competentes, indicie o(s) culpado(s) pela morte de Fernanda, apresentando provas de materialidade e de autoria.

- O sr. acredita na exist?ncia de for?as poderosas relacionadas ? morte de Fernanda?
- Lucas Villa: N?o descarto, de forma alguma, esta hip?tese.

- Ent?o, por que o sr. aceitou patrocinar esta causa, que poderia ser problem?tica?

- Lucas Villa: Primeiro por minha total independ?ncia como advogado. Nem eu nem meu escrit?rio temos rabo preso a ningu?m. ? bom lembrar que, embora eu esteja na linha de frente do caso por ter experi?ncia e forma??o na ?rea das ci?ncias criminais, n?o estou sozinho: meus dois s?cios, ?fren Cord?o e Fernando Said, t?m dado todo suporte para o trabalho que temos realizado.
Fui procurado pela fam?lia de Fernanda, que eu at? ent?o n?o conhecia, e me sensibilizei por sua dor. Nosso escrit?rio entrou no caso com uma ?nica inten??o, que permanece a mesma at? o presente momento: atender aos interesses de nossos constituintes, ou seja, da fam?lia de Fernanda Lages. N?o estamos aqui, ent?o, para agradar a ningu?m al?m deles nem para tirar onda de her?is (parafraseando o velho Raul Seixas). Certa vez me perguntaram, quando do in?cio das discuss?es entre Pol?cia Civil e Minist?rio P?blico, de que lado eu estava. Eu disse que estava do lado da fam?lia de Fernanda e que, para mim, s? existiam dois lados nesse caso, sendo bem manique?sta: o lado do bem e o lado do mal. O lado do bem, no qual nos encontramos, ? aquele composto por todos que querem ver esse crime elucidado e seus culpados punidos; o lado do mal ? o lado dos assassinos e de todos que porventura colaborem para a sua impunidade.
O advogado ? um profissional que exerce um mister complexo, j? que vive de administrar problemas alheios. Ningu?m procura um advogado para dizer como est? feliz, como o sol est? belo e os p?ssaros cantando de forma singela. Quem busca o advogado quer entregar em suas m?os um problema por resolver. A? o desafio: como o advogado tem, tamb?m, seus problemas de ordem pessoal, ele n?o pode trazer para si o problema do cliente como se dele fosse, pois assim sendo, n?o lhe seria poss?vel viver uma vida saud?vel ou analisar o problema com a tranquilidade que lhe ? exigida. N?o pode, entretanto, tratar o problema do cliente com indiferen?a, como se n?o fosse de modo algum problema seu. A dificuldade est? a?: encontrar a justa medida do distanciamento, n?o se envolvendo nem deixando de se envolver de forma pessoal com os casos que patrocina, para que seja capaz de importar-se, por?m mantendo sempre a serenidade e racionalidade que lhe s?o necess?rias para um trabalho reto.
Confesso que no caso de Fernanda este distanciamento, por vezes, se torna mesmo imposs?vel. N?o h? como n?o se deixar envolver pela dor desta fam?lia, principalmente do pai de Fernanda, diante da morte violenta e cruel da filha amada, cheia de vida pela frente. N?o h? como n?o se deixar tomar por ira diante da n?o elucida??o, at? ent?o, do caso. N?o h? como n?o se deixar tomar pelo pior de todos os sentimentos que o ser humano pode experimentar: o sentimento de absurdo diante de todo este teatro tr?gico que foi armado sobre o cad?ver de uma jovem que n?o queria outra coisa sen?o viver. Este caso foi, provavelmente, o que mais mexeu com minhas emo?es durante minha carreira e se tornou, sim, para mim, al?m de quest?o profissional, tamb?m quest?o pessoal e de honra: lutar at? o fim e fazer tudo o que estiver ao alcance para que esse crime seja trazido ? luz e o(s) culpado(s) punido(s).
Tags: Advogado de Fernand - Fernanda Lages Veras

Fonte: GP1  |  Publicado por: Da Redação
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