Ex-modelo e atriz com carreira consolidada, Alinne Moraes, 28, como se preparou para viver Lili, a encantadora personagem de "O Astro", a novela das 23h da Globo.
Lili est? em um momento crucial: o empres?rio Salom?o Hayalla (Daniel Filho) acaba de descobrir que a caixa do seu supermercado --por quem est? apaixonado-- caiu de amores pelo seu pr?prio filho, M?rcio (Thiago Fragoso).
Nas cenas dos pr?ximos cap?tulos, Lili vai ser demitida do supermercado de Salom?o e se tornar? taxista.
Leia a seguir a ?ntegra da entrevista exclusiva com Alinne Moraes, que recebeu a reportagem do F5 em um atribulado dia de grava?es no Projac.

A atriz Alinne Moraes, que interpreta a personagem Lili na nova vers?o de "O Astro", exibida ?s 23h na TV Globo
F5 - Seu nome mesmo ? com um ene apenas. Quando voc? colocou dois enes?
Alinne Moraes - Dois enes eu acabei colocando com 17 para 18 anos, eu tinha feito apenas uma novela e foi uma brincadeira. Eu tinha feito uma capa da revista "Capricho" para falar um pouco da personagem e a? comentei na entrevista que havia consultado uma numer?loga, que era amiga de uma colega, e ela havia dito que se eu acrescentasse um ene minha vida ia mudar e s? iam acontecer coisas positivas. Eles colocaram na revista "Alinne, agora com dois enes". Eu acabei assumindo tamb?m porque eu era nova e n?o ia fazer muita diferen?a. Eu trabalhei como modelo com um ene e sempre trabalhei bastante. Foi mais uma brincadeira. Continuei com essa brincadeira porque eu n?o tenho tatuagem, mas eu costumo dizer que na vida as coisas que v?o acontecendo v?o tatuando a nossa vida.
Mas voc? ? ligada nesse tipo de coisa?
Com 17 para 18 anos voc? ? muito mais curiosa. J? fui muito mais. J? fiz mapa astral, j? consultei tar?loga... Mas eu vejo muito mais como autoconhecimento do que como premoni??o. Hoje em dia, n?o ? que eu n?o creio --eu n?o costumo afirmar nada--, mas eu sou menos curiosa e sigo muito mais o meu cora??o. Se est? tudo certo hoje, ? porque eu estou no caminho certo. E gosto muito das surpresas que acontecem. N?o tenho muitas d?vidas para tirar.
Tem-se falado que voc? est? vivendo a sua primeira suburbana. Isso muda alguma coisa para voc??
? a primeira numa obra longa. A Rosana, de "Cora??o de Estudante", foi um pouquinho mais pr?ximo, que era mais batalhadora, uma m?e solteira que estava trabalhando e vivendo numa rep?blica. Fiz "As Cariocas" tamb?m, que era o epis?dio do Catete, e "Amor em 4 Atos", em que eu era uma prostituta da rua Augusta. Sem querer, eu fui pisando um pouquinho nesse universo e acho que no pr?prio texto j? fica muito expl?cito, no hist?rico dela de fam?lia. N?o precisei pesquisar muito, mesmo porque eu sou de Sorocaba, no interior de S?o Paulo, ent?o acabo encontrando muito das coisas de bairro, sabe? Churrasquinho de rua, cadeira na frente da rua vendo a galera jogar v?lei, amarelinha, pedindo a?car para a vizinha. Logo que eu cheguei no Rio eu morei seis meses no M?ier tamb?m. Ent?o d? para relembrar um pouquinho do que eu j? vivi e emprestar para a Lili.
Ent?o era um pouco do seu universo antes da fama?
Um pouquinho. Eu morava em um condom?nio de apartamentos, meio que todo mundo era uma grande fam?lia. Eu estava sempre no meio da rua, minha av? gritava para eu entrar. Era um universo muito mais pr?ximo da Lili do que a minha realidade atual. Minha m?e ? m?e solteira, ent?o saia para trabalhar, estudava ? noite e chegava ? meia-noite, ent?o fui criada pela minha av?.
E essa hist?ria de Angelina Jolie da Penha?
As personagens costumam chamar a Lili de Angelina Jolie da Penha. Eu ri para caramba da cena. Tem a ver com a Lili, talvez. Acho que essa coisa do cabelo mais solto, a gente n?o quis ligar muito nas roupas mais coloridas, demos uma fechadas nas roupas dela, ent?o ? cal?a jeans, blusinha mais escura, uma coisa mais forte, uma boca mais forte em evid?ncia. A gente tentou mesmo fazer uma Angelina Jolie da Penha.
Voc? acha que a sua boca tem a ver com a dela?
Acho que sim, um pouco.
A Lili est? se envolvendo com o Salom?o (Daniel Filho) e vai se envolver com o M?rcio (Thiago Fragoso). Qual vai ser a diferen?a entre esses dois relacionamentos?
Com o Salom?o, como ela n?o teve uma figura paterna muito presente, nem um irm?o --a ?nica presen?a masculina que ela teve foi o Neco (Humberto Martins)--, ela se sente muito desprotegida, sem carinho, ela n?o entende mesmo esse afeto, n?o consegue separar muito o que ? o amor de um homem ou de um pai. Ela sai de toda aquela bagun?a que ? a casa dela, ? colocada para fora de casa e do trabalho, ent?o ela v? no Salom?o um porto-seguro. Ela n?o assume de fato nada com o Salom?o, mas ? presen?a constante com ele porque ela se sente bem, se sente protegida, ela v? que ele ? uma pessoa inteligente, culta, que faz ela rir. Ele ? leve com ela. N?o tem porque nesse momento de vazio em que ambos precisam de colo, eles n?o se encontrarem para dividir essa coisa mais fraternal. Agora, com o M?rcio ? paix?o, ? amor ? primeira vista, ? liga??o, ? uma coisa muito mais calorosa, uma rela??o de homem-mulher mesmo. Acho que pela primeira vez ela vai conhecer uma rela??o decente.
? mais uma personagem pol?mica para a sua lista...
S?o v?rias coisas que v?o acontecendo na vida dela e que v?o pegando ela de sopet?o. Cenas de meia p?gina que voc? acha que v?o ser uma passagem, voc? tem que reavaliar, porque nunca ? uma passagem. S?o cenas muitas importantes. ? uma mocinha que tem humor, mas ? muito forte, ela d? a cara a tapa, ela se emociona, mas mais com raiva, principalmente quando duvidam da verdade dela, ela n?o tem muita piedade, ? uma sobrevivente.
Como Lili, voc? passou por v?rias atividades. Era manicure, passou pelo caixa de supermercado e vai ser taxista. Teve alguma prepara??o para isso?
Como no sal?o ela fazia um pouco de tudo, m?scara, escova, m?o, p?, e a passagem da personagem pelo sal?o ? muito r?pida e eu j? trabalhei com moda desde os 12 anos --onde querendo ou n?o voc? coloca a m?o na massa--, eu deixei por conta do que a pr?pria vida me ensinou. Eu mesmo fa?o a minha unha. Como caixa, tamb?m n?o precisei fazer laborat?rio porque a pr?pria personagem na primeira cena est? toda atrapalhada. A minha inexperi?ncia ia ajudar a personagem nesse momento. Como taxista, eu acho que depois que eu j? entendi a personalidade da personagem ficou mais f?cil, deixar a hist?ria se desenrolar por si s?. Essas cenas que v?o vir agora est?o sendo mais f?ceis porque ? a personalidade dela, ela com os passageiros. E eu amo dirigir, n?o largo m?o do meu carro desde que tirei carteira. Vou para Sorocaba sempre dirigindo, seis horas e meia, sete horas de viagem. Adoro, o que facilita.
Voc? assistiu ? primeira vers?o de "O Astro"?
N?o assisti. Assisti a algumas cenas que eu pesquei, mas muito pouco. Como a novela ? atual e mudou muita coisa, eu preferi deixar as coisas se desenrolarem, conhecer a hist?ria com a minha verdade e criar a minha Lili, do meu jeito, sem muitas influ?ncias.
Est? preparada para as cenas de nudez?
S?o cenas muito mais delicadas, onde todo muito tem muito cuidado, deixam o m?nimo de pessoas na sala, ? muito conversado antes, ? muito t?cnica, ? muito um bal?, para expor o m?nimo poss?vel do ator. ? uma cena de muita exposi??o. A gente se sente meio estranho na cena. Ent?o, tem que ser o mais cuidada poss?vel, o mais conversada poss?vel, o mais coreografado poss?vel, porque a gente trabalha muito com a c?mera, at? para esconder adesivo, tapa-sexo e tudo mais. A? tem o computador e d? uma ajudinha. A gente tenta chegar o mais pr?ximo do real poss?vel. S?o cenas mais delicadas, eu costumo sofrer um pouquinho.
Mas tem problema de fazer?
N?o tenho problema de fazer, mas sempre acho que s?o mais delicadas.
No per?odo em que foi modelo, passou por muitos perrengues no exterior?
?ramos eu, a minha m?e e a minha av?. A minha m?e n?o estava mais estudando, mas era funcion?ria p?blica. Quando eu fui para S?o Paulo para a primeira ag?ncia, eles pagaram o primeiro book e eu fiquei devendo. Meu primeiro trabalho foi uma campanha da Ellus, o segundo j? foi uma capa da "Vogue". Comecei a trabalhar muito, ent?o a gente mudou para S?o Paulo. Eu comecei a ver que a realidade de modelo era outra, que eu tinha que aproveitar o m?ximo poss?vel. Ent?o, com 14 anos eu j? estava no Jap?o. Minha m?e n?o falava ingl?s nem eu. A ?nica bota que eu tinha era de Sorocaba, enfrentando neve, fazendo teste para baixo e para cima. Minha m?e me acompanhou sempre at? os 17. Na ?poca, as m?es acompanhavam todas as modelos. Giane [Albertoni], Gisele [B?ndchen], Alessandra Ambr?sio, Beatriz Barros, eram todas da mesma gera??o. Todas as m?es ficavam juntas. S?bado e domingo a gente se reunia, fazia feijoada em Nova York, em Paris, em Mil?o... sempre juntas. Perto de todas as novidades que foram apresentadas para mim --meu mundo era muito pequeno--, n?o passei por tantas dificuldades. Ficaram muito pequenas.
Como voc? fez a transi??o do mundo da moda para a televis?o?
Com 17 anos, eu estava voltando de Paris, em uma das viagens que eu fiz para l?. Voltei, comprei a minha casa --j? tinha comprado a casa da minha fam?lia--, e estava montando, quando cheguei estava tendo um teste na minha ag?ncia para "Presen?a de Anita". O Avancini Filho, que estava procurando um rosto novo, esbarrou comigo na porta e eu tinha acabado de chegar, foi aquele alvoro?o todo, chamou a aten??o dele. A? ele me perguntou se eu era atriz tamb?m e eu disse que n?o. Ele disse que eu era muito expressiva e perguntou se eu n?o queria fazer um curso de teatro mais para a frente. Eu falei que n?o estava nos meus planos, mesmo porque eu estava pensando em fazer arquitetura, ficar um pouco mais no Brasil, e a? passou. Ele levou um composite meu e passou. Quatro meses depois, quando j? tinha terminado "Presen?a de Anita", ligaram para a minha ag?ncia e fomos eu, o Guilherme Berenguer, Michele Birkheuer, Paulinho Vilhena, que j? tinha feito "Sandy e J?nior", mas estava na ag?ncia, para uma reuni?o com o Ricardo Waddington sobre "Cora??o de Estudante", porque eles queriam seis novos rostos para lan?ar. E pessoas que tivessem vivido em rep?blica, que tivessem um pouco dessa experi?ncia. A ?nica experi?ncia que eu tinha era de morar com outras modelos em apartamentos. Fui meio no susto como se estivesse fazendo um teste de modelo. Eu nem fiz teste, na verdade. A gente sentou na frente dele, ele pediu para todo mundo falar um pouco sobre a sua vida e a minha vida era muito pr?xima da vida da minha personagem. A vida da minha m?e, na verdade. Ele se interessou muito e disse que achava que o papel era meu. Eu comecei a chorar, falei que eu n?o sabia fazer, que n?o tinha no??o... Com 17 anos me mudei para c?, foi a primeira vez que a minha m?e ficou, e foi onde tudo come?ou. E era uma bagun?a. Todos de 17, 18 anos em uma rep?blica, todos aprendendo a decorar texto. Foi a primeira vez de muita gente. Dessa gera??o, alguns ainda est?o a? e eu n?o parei mais.
Em "Mulheres Apaixonadas" voc? viveu uma adolescente que era l?sbica. No ?ltimo cap?tulo voc?s deram um selinho. O que voc? acha de esse assunto ainda ser um tabu hoje em dia?
Naquela ?poca, n?s demos um grande passo. Eu lembro que todas as personagens l?sbicas que eram apresentadas eram explodidas, ou matavam, n?o deixavam acontecer de fato o relacionamento. Foi a primeira vez que foi assumido e que o p?blico gostou e aprovou e queriam que ficassem juntas. ? engra?ado ainda ser um tabu. Eu n?o sei quando vai deixar de ser. A gente sempre precisa de temas. Sempre vai existir o tabu. Porque depois que se esclareceu a coisa do gay, vai ser o transexual, depois a travesti... A gente sempre vai ter coisas para explicar. E a gente sempre quer quase o imposs?vel, depois a gente quer outra coisa. Hoje, o mais atual ? o homem que vira h?tero, porque n?o tem mais o que explorar. Sempre vamos estar atr?s dos tabus, dos limites do que superar.
Quando voc? acha que ocorreu na sua carreira a transi??o dos personagens adolescentes para os personagens adultos?
A primeira vez que eu entendi a fun??o do meu trabalho foi em "Mulheres Apaixonadas", que eu entendi que a gente podia transformar a cabe?a das pessoas. Eu acho que "Da Cor do Pecado" foi um pouco mais maduro porque ela j? era um pouco mais mulher, n?o era t?o menina. "Como uma Onda", como atriz, tentei levar de uma forma mais madura, porque era a minha primeira protagonista e era uma personagem que estava saindo de casa, mais independente, por mais que j? tivesse toda uma estrutura familiar. Eu testei mais. Mas "Duas Caras" foi onde eu me joguei. Eu estava tentando tudo o que eu levava para as minhas outras personagens, que era s? intui??o, e comecei a jogar um pouco com a t?cnica que eu havia aprendido com elas. Ao misturar a t?cnica com a intui??o, ? claro que eu errei muito. Em algumas cenas eu entrava gritando e saia gritando. Hoje, revendo algumas cenas eu faria completamente diferente, daria outras nuances. Mas ? muito bom errar e se jogar, para saber o limite e poder amadurecer para fazer um trabalho como a Luciana, de "Viver a Vida", em que eu fiquei um m?s e meio trabalhando s? com o olhar. Foi um grande exerc?cio como atriz.
A Luciana, al?m da carga dram?tica da personagem, tinha toda uma quest?o de apresentar para a sociedade o problema por que passavam as pessoas como ela. Isso foi um peso tamb?m?
Todas as personagens acabam que sempre t?m uma coisa. Primeiro teve a m?e solteira, a segunda era uma homossexual, depois teve uma com um tumor no c?rebro, depois a psicopata e a Luciana... Acho que talvez eu tenha uma certa voca??o. Eu me envolvo, me jogo. Quando eu vi eu j? estava tomada pela hist?ria dela, da pr?pria Fl?via Cintra [consultora da novela, que ? parapl?gica], que me ajudou muito. Eu fui para a casa dela, pude acompanhar ela tomando banho, alimentando os filhos, indo ao banheiro. Quando eu vi j? estava muito mergulhada nisso tudo. Naturalmente, eu j? fazia essa parte social com as pessoas com quem eu conversava. Eu aprendi muito e me sinto muito honrada de ter pego esse papel que, al?m de contar uma hist?ria, vem para ensinar muito. O retorno do p?blico foi muito diferente. ? um agradecimento muito profundo. ? uma outra energia. Muitas pessoas ligavam agradecendo, porque n?o sabiam que podiam ter uma rela??o normal.
Levou um tempo at? voc? "despressurizar"?
Um pouquinho. Foram nove meses no ar, a personagem foi muito presente durante a novela toda. Eu me preparei dois, tr?s meses antes de a novela estrear, quer dizer, foi um projeto de um ano. Logo depois eu emendei no "Heleno", que ? um longa com o Rodrigo Santoro, que era totalmente diferente. A novela terminou na sexta, no s?bado eu j? estava filmando. A primeira semana eu acordei torta, na posi??o da personagem. E ao levar isso para a terapeuta, comecei a entender que o corpo tem um delay, ele n?o sabe muito distinguir o que voc? est? passando de verdade e o que ? brincadeira. N?o ? igual ? cabe?a. Por exemplo, voc? est? fazendo uma cena de discuss?o e sai no corredor e j? pergunta como est? a m?e da pessoa, mas a m?o est? l? tremendo. Porque voc? colocou adrenalina. Tem um tempo para poder abaixar. Um ano trabalhando nessa posi??o, naturalmente o corpo n?o entende. Fiquei seis dias internada com crise nos rins, que eu acho que foi uma somatiza??o. Foi uma personagem para quem eu tive que doar um pouco mais.
Voc? consegue manter uma vida longe dos holofotes?
Eu moro em Itanhang? [zona oeste do Rio], que j? fica um pouco mais distante de tudo. ? como se fosse uma casa no interior. Tenho meus cachorros, meus gatos, pomar, acerola, lim?o, banana... ? o meu santu?rio. Recebo os meus amigos, a gente toma um vinho, joga baralho. Gosto muito de dan?ar, fa?o bal? h? sete anos. E gosto de sair com os amigos para dan?ar ? noite e fico at? clarear. Acho que tamb?m n?o estou muito ligada nisso. Como eu trabalhei sempre com moda, com c?mera, ? quase um trabalho estar no Leblon almo?ando e tomando um vinho e sendo clicada. Eu n?o me sinto muito ? vontade. N?o consigo fingir que uma c?mera n?o existe, que n?o est? apontada para mim. Eu prefiro ficar ? vontade onde eu sei que vai estar tranquilo. Eu gosto de sair com os meus amigos para Santa Tereza, Lapa... Gosto de dan?ar forr? e adoro tomar um chope na Lapa... E fico na rua com todo mundo, tomando na cal?ada. ? disso que eu gosto.