Piaui em Pauta

Após 15 dias internada no HUT, morre menina que teria sido usada em ritual

Publicada em 28 de Abril de 2016 às 12h40


A diretoria do Hospital de Urg?ncia de Teresina (HUT) confirmou na manh? desta quinta-feira (28) a morte da menina de 10 anos, v?tima de um poss?vel ritual. Ela estava internada em estado grave desde o dia 14, quando deu entrada na unidade de sa?de com intoxica??o, com o corpo cheio de cicatrizes em forma de cruz e o cabelo raspado.

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O diretor do hospital, Gilberto Albuquerque, informou que a crian?a havia entrado em um quadro de insufici?ncia renal com posterior fal?ncia m?ltipla dos ?rg?os. Por volta de 9h30 desta quinta-feira (28) ela teria tido uma parada card?aca que culminou na morte da menina. Segundo o diretor, familiares da crian?a foram avisados e se encontram na unidade de sa?de.



Albuquerque disse ainda que o corpo de menina ser? encaminhado para o Instituto M?dico Legal (IML), onde ser? investigada a causa da morte.

"Caso seja comprovado que a menina faleceu ap?s ter sido envenenada o corpo ser? transferido para o Instituto M?dico Legal (IML), mas se ela tiver sido v?tima de morte natural, o corpo ser? liberado para o vel?rio" declarou.

A dire??o do HUT j? tinha informado que a menina apresentava fal?ncia dos sistemas nervoso e renal. Disse tamb?m que os m?dicos aguardavam o laudo de exame pericial feito no l?quido ingerido por ela para poder abrir protocolo e investigar a morte cerebral.

A Delegacia de Prote??o ? Crian?a e ao Adolescente passou a investigar o caso. Para a pol?cia, os pais da v?tima relataram que frequentavam um sal?o de umbanda em Timon, no Maranh?o, para tratar a asma da filha e pagariam R$ 3 mil pelo tratamento. A m?e prestou depoimento na segunda-feira (25) e confessou ter dado a bebida com ervas e a?car para a filha.

Abuso Sexual
A menina passou por exame de corpo de delito e o liquido foi encaminhado para per?cia. Na ter?a-feira (27), a unidade de sa?de solicitou uma nova per?cia para investigar a suspeita de abuso sexual na menina.

Segundo o diretor da unidade, Gilberto Albuquerque, a paciente apresenta papilomas (verugas) nas cordas vocais, que podem ser transmitidas sexualmente atrav?s do v?rus HPV.

"? um procedimento da unidade solicitar este tipo de exame a toda paciente em estado de coma, especialmente do sexo feminino. Como a menina apresentava les?es sugestivas de maus tratos, entre eles se incluem a prov?vel viol?ncia sexual, decidimos solicitar esta nova per?cia feita pela Samvis [Servi?o de Aten??o ?s Mulheres V?timas de Viol?ncia Sexual]", explicou Gilberto Albuquerque.
Ainda de acordo com o diretor, a menina passou dois processos cir?rgicos para retirada de papilomas nas cordas vocais em 2014, no Hospital Infantil, e em 2015, no HUT. Na ?poca em que a crian?a esteve na mesma unidade, a dire??o comunicou o caso ao conselho para investiga??o.
"Como o problema ? recorrente na paciente, isso ? sugestivo do papilomas v?rus, que pode ser transmitido sexualmente. Vamos esperar o resultado da per?cia t?cnica para confirmar se houve abuso", informou o diretor.
A conselheira Socorro Arrais alegou que o IV Conselho Tutelar, por ter sido criado recentemente, n?o recebeu as den?ncias sobre as suspeitas de abuso da crian?a. Ela informou que vai procurar em outros conselhos para saber detalhes do caso.

Investiga??o
A promotora Vera L?cia, da 1? Vara da Inf?ncia e Juventude de Teresina, contou ao G1 ter solicitado instaura??o de inqu?rito para apurar os maus tratos e outros tipos de viol?ncia na menina internada. Segundo ela, a m?e prestou depoimento na segunda-feira (25) e confessou ter dado a bebida com ervas e a?car para a filha.
"A m?e ser? responsabilizada pela indu??o da crian?a at? a morte ao tomar esta bebida, sem nenhum tipo de recomenda??o m?dica. Por isso, ela deve responder por tentativa de homic?dio qualificado, por motivo f?til, que tem pena de 12 a 30 anos de reclus?o. Al?m disso, temos a den?ncia de maus tratos com pena de dois meses a um ano", comentou Vera L?cia.
O delegado geral Riedel Batista reiterou que o caso da menina de 10 anos ? acompanhado pela DPCA e os demais registros de tortura que tenham sido praticados no sal?o de umbanda em Timon ser?o investigados pela Pol?cia Civil do Maranh?o.
Mais den?ncias
A m?e de uma crian?a de Teresina submetida ao ritual de purifica??o em um sal?o de umbanda que fica a 20 km da cidade de Timon, no Maranh?o, revelou ter sido convencida de que o filho precisava passar por um tratamento espiritual para n?o “virar criminoso”. O Juizado da 1? Vara da Inf?ncia e Juventude de Teresina recebeu do Conselho Tutelar a den?ncia de que mais de 20 crian?as teriam sido submetidas a torturas nesses rituais.

Os casos vieram ? tona ap?s uma menina de 10 anos ser internada em estado grave apresentando sintomas de intoxica??o, cicatrizes pelo corpo em formato de cruz e a cabe?a raspada. As filhas da dona do sal?o religioso negaram que exista qualquer tipo de tortura.

“Eu sabia que l? funcionava um terreiro, mas n?o sabia o que realmente acontecia por l?. A mulher de l? conversou com a av? dele dizendo que ele precisava fazer um servi?o. Ela (dona do sal?o) disse que ele no futuro iria virar um marginal, um criminoso, e qual ? a m?e que n?o tem medo n??”, disse a m?e do garoto, que ter? a identidade preservada.

O menino, que tem 10 anos, tamb?m descreveu o ritual ao qual foi submetido. “Passamos sete dias. Era seis al?m de mim. Quando chegamos l? ele (pessoa do sal?o) passou alguma coisa na gente, mandou a gente banhar e se vestir de roupa branca. A gente comia inhame, arroz, feij?o e carne e tomamos muito ch? tamb?m. A mulher falava que era para a gente fazer as coisas tudo direitinho, porque se n?o a gente ficava mal”, falou.


Ju?za Maria Luiza de Moura Melo Freitas


Vara da Inf?cia
A ju?za da 1? Vara da Inf?ncia e Juventude de Teresina, Maria Luiza de Moura Melo, disse que autorizou o Conselho Tutelar a recolher qualquer crian?a desacompanhada que apare?a com as mesmas caracter?sticas dessa v?tima (cabelo raspado e cicatrizes em forma de cruz).
"Elas ser?o levadas para um abrigo, podendo os pais ter a suspens?o da guarda ou at? mesmo a destitui??o do poder familiar. O Conselho tem 24 horas para informar esses casos”, falou a ju?za.
Na avalia??o da ju?za Maria Luiza, nesse caso, as crian?as est?o em situa??o de risco, sendo obrigadas a tomarem ch?s ou bebidas t?xicas, e cortadas com l?minas ou objetos pontiagudos. “N?o acredito que isso seja religi?o, mas sim crime de tortura", declarou a ju?za.
Maria Luiza de Moura Melo disse tamb?m que ir? comunicar o juiz da comarca de Timon para punir os respons?veis pelo sal?o de umbanda. Segundo ela, essas pessoas podem ser punidas por les?o corporal e crime de tortura. "Cabe ao Minist?rio P?blico tipificar a responsabilidade criminal e pedir o fechamento do local onde os rituais s?o feitos", falou.
Filhas de dona de sal?o negam tortura
Em entrevista ao G1 na semana passada, duas filhas da propriet?ria do sal?o de umbanda, onde os pais levavam a menina, negaram que as pessoas que frequentam o local sejam torturadas. Sem quererem se identificar, as mulheres afirmaram que os cortes nos praticantes de umbanda s?o superficiais e feitos com o consentimento dos respons?veis.
“S?o pequenos cortes feitos no corpo, como se fossem uma raladura qualquer. A retirada de sangue do corpo da pessoa simboliza a vida. Do mesmo modo, as pessoas t?m a cabe?a raspada para simbolizar o renascimento, j? que todos os seres nascem sem cabelos. N?o praticamos tortura com ningu?m, at? mesmo porque quem deita santo [termo usado para quem passa pelo ritual] sabe o que est? sendo feito, no caso da crian?a os respons?veis aceitam tudo”, relatou uma das mulheres.

Uma das filhas da propriet?ria do sal?o de umbanda afirmou que ela e seus filhos passaram pelos procedimentos v?rias vezes e nunca sentiram nada e negou o uso de bebidas nos rituais. De acordo com a mulher, o ritual acontece da seguinte forma: a pessoa doente fica recolhida no quarto durante sete dias, recebendo apenas ora?es.
“N?s temos algumas cicatrizes pelo corpo, mas quase impercept?veis e nunca sentimos efeitos colaterais. Sempre passamos por isso quando sentimos algum problema de sa?de ou de qualquer outra coisa. Al?m disso, n?o existe o uso de garrafada [mistura de ervas] para os praticantes de umbanda”, afirmou a mulher.
Sem deixar fazer o registro de foto ou v?deo, as mulheres mostraram algumas marcas pelo corpo e apresentaram os filhos com a cabe?a raspada, informando que eles passaram pelos mesmos rituais. “Eu tenho marcas nos bra?os e no pesco?o e meus filhos tamb?m. Eles tamb?m tiveram as cabe?as raspadas. Isso para n?s ? normal, como qualquer outra religi?o”, disse uma das filhas.
Tags: Após 15 dias interna - A diretoria

Fonte: globo  |  Publicado por: Da Redação
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