Piaui em Pauta

Bia Doria diz que não se deve doar marmitas a moradores de rua porque eles 'gostam de ficar nas ruas

Publicada em 03 de Julho de 2020 às 21h57


Bia Doria, mulher do governador de S?o Paulo Jo?o Doria (PSDB), declarou em entrevista ? socialite Val Marchiori que n?o se deve doar marmitas para moradores de rua porque "as pessoas gostam de ficar na rua" e elas "t?m que se conscientizar e sair dessa situa??o.

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Gravado no Pal?cio dos Bandeirantes, sede do governo estadual, o v?deo da entrevista foi publicado em uma rede social na noite de quinta-feira (2), e se tornou um dos assuntos mais comentados do Twitter nesta sexta-feira (3). In?meras institui?es, como a pastoral do povo da rua, divulgaram notas de rep?dio contra a fala da primeira-dama (veja abaixo).

Mas olha, falando dos projetos sociais, algo muito importante ? assim: as pessoas que est?o na rua, n?o ? correto voc? chegar l? na rua e dar marmita e dar porque a pessoa tem que se conscientizar que ela tem que sair da rua. Porque a rua hoje ? um atrativo, a pessoa gosta de ficar na rua", afirma Bia Doria.
Uma pesquisa da Prefeitura de janeiro deste ano revelou que a popula??o de rua cresceu 53% nos ?ltimos quatro anos, chegando a 24 mil pessoas. Bia cita esse n?mero, que diz ser "muito grande". Ela ? presidente do Conselho do Fundo Social de S?o Paulo e est? ? frente do Fundo Social de Solidariedade com projetos como Alimento Solid?rio e Inverno Solid?rio.

Segundo a Prefeitura, a pandemia de coronav?rus j? matou 28 sem-teto na capital paulista. Conforme o G1 mostrou, um projeto da Prefeitura para oferecer vagas em hot?is a sem-teto idosos n?o saiu do papel. As propostas recebidas n?o atendiam aos requisitos de editais. A terceira convoca??o p?blica sequer teve donos de hot?is interessados.

No v?deo, Val e Bia falam que moradores de rua resistem a procurar abrigos porque "n?o querem ter responsabilidades."

Voc? estava me explicando e eu fiquei passada. Eles n?o querem sair da rua porque em um abrigo eles t?m hor?rio para entrar, eles t?m responsabilidades, limpeza, e eles n?o querem, n?, diz Val.

N?o querem", responde Bia. "A pessoa quer, ela quer receber, ela quer a comida, ela quer roupa, ela quer uma ajuda e n?o quer ter responsabilidade. Ent?o isso t? muito errado, porque se a gente quer viver num pa?s...", continua Bia.

?, todo mundo tem suas responsabilidades, todo mundo", interrompe Val. "N?s temos, se a gente n?o pagar nossas contas..., completa Bia.

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Durante a conversa, Val elogia o trabalho de Bia, reclama de ter de usar m?scara e conta que "gra?as a Deus j? teve Covid-19. Bia diz que, ent?o, ela pode tirar a m?scara e s? voltar a usar ao sair do local.

E a Bia Doria est? fazendo um trabalho maravilhoso, de consci?ncia mesmo, as pessoas que vivem na rua tentar levar para os abrigos, eu tenho acompanhado a? e esse ? o trabalho da primeira-dama, gente, n?o ? s? fazer foto n?o, hello, acha que primeira dama s? fica com o cabelinho arrumado? N?o, n?o, a Bia ?, a Bia ? m?o na massa aqui, a loca. Ai gente, eu detesto falar de m?scara, mas enfim, diz Val.

Em nota, a Secretaria Especial de Comunica??o do governo estadual esclarece que a fala de Bia foi tirada do contexto e diz que a inten??o dela "? que as pessoas em situa??o de rua tenham acesso aos abrigos p?blicos, onde ter?o alimenta??o de qualidade dentro das normas de higiene da Vigil?ncia Sanit?ria, e uma condi??o de vida mais digna. Ou mesmo nos Restaurantes Bom Prato, que recentemente decretaram gratuidade aos moradores de rua.

Horas depois, Bia usou suas redes sociais para pedir desculpas. Pe?o desculpas se a maneira como falei deu a entender que n?o devemos amparar quem vive na vulnerabilidade. Eu tenho a consci?ncia tranquila, porque sei o que fa?o todos os dias pelos mais carentes.

Rep?dio
Ap?s a repercuss?o do caso, a deputada estadual Beth Sah?o (PT) convidou Bia Doria a prestar esclarecimentos na Comiss?o de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de S?o Paulo (Alesp) por causa da entrevista, "cujo teor revela atitude preconceituosa e discriminat?ria com rela??o a popula??o em situa??o de rua, e portanto n?o condizente com os cargos de primeira-dama do estado de S?o Paulo e presidente do Fundo Social, acarretando imensa m?cula ? imagem do estado de S?o Paulo e ?s institui?es republicanas."

In?meras institui?es divulgaram notas de rep?dio contra a fala de Bia Doria.

A pastoral de rua de S?o Paulo, representada pelo Padre J?lio Lancellotti, da Arquidiocese de S?o Paulo, disse que v? com indigna??o e perplexidade o v?deo em que a senhora primeira-dama do estado e presidente do Conselho do Fundo Social de S?o Paulo declara que a popula??o de rua 'gosta' de estar na rua e que se acomoda por receber alimentos e roupas.

Opini?es desta natureza refor?am a viol?ncia, discrimina??o e preconceito que diariamente fere e humilha os que s?o relegados ao abandono e omiss?o do Estado. Tais declara?es ferem a dignidade humana e s?o mais uma agress?o aos que nas ruas n?o tem como se defender", diz a nota.

Levi Araujo, pastor batista da Comunidade Caverna, disse que o v?deo ? "repugnante" e "revela a feiura de alma e a ignor?ncia vergonhosa da maioria abastada classe social brasileira."

Esses meritocratas realmente acreditam nessa l?gica tosca e inculta. Nada sabem sobre as pessoas em situa??o de rua, as condi?es que as levaram a esse estado e, principalmente, como a compreens?o dessa realidade ? complexa e mais profunda."
"Ultimamente, todo dia ? dia de ficar indignado, hoje essas madames, representantes da maioria de sua classe, ofenderam os meus irm?os e irm?s de rua, desrespeitaram os profissionais e amigos que entregam a vida diariamente para servir essas pessoas e, principalmente, a Jesus de Nazar?, a quem sigo e sirvo. Quando estou respeitando a dignidade dessas pessoas, buscando pol?ticas p?blicas abalizadas pela ci?ncia, enfim, quando eu as sirvo com amor eu estou servindo ao pr?prio Jesus Cristo.

Ariel de Castro Alves, advogado e conselheiro do Conselho Estadual de Direitos Humanos (Condepe), disse em nota que a decis?o de entregar ou n?o comida, roupas e dinheiro para as pessoas que est?o nas ruas pedindo ? individual e pessoal e que n?o cabe ao estado interferir.

O estado (governos) precisa oferecer v?rios servi?os p?blicos, de sa?de mental, moradia, gera??o de renda, qualifica??o para o mercado de trabalho, educa??o, assist?ncia social, inclusive albergues e servi?os de acolhimento que recebam as pessoas com seus animais (c?es e gatos) e bens pessoais, que incluem os carrinhos dos catadores de materiais recicl?veis. Essas a?es evitariam que tantas pessoas estivessem nas ruas.
"Agora com a pandemia e aumento do desemprego e da falta de renda o n?mero de pessoas nas ruas tem aumentado e o estado n?o tem tomado as a?es necess?rias, como conv?nios com hot?is de baixo custo para manter as pessoas hospedadas. Se n?o fossem as ONGs, igrejas e iniciativas individuais, com o fechamento dos com?rcios na quarentena, as pessoas em situa??o de rua estariam passando fome.

Nota completa

Leia abaixo a nota completa enviada ao G1 pela Secretaria Especial de Comunica??o do governo estadual.
Em rela??o aos coment?rios sobre pessoas em situa??o de rua, a presidente do Conselho do Fundo Social de S?o Paulo, Bia Doria, esclarece que sua fala foi tirada do contexto e enfatiza que a sua inten??o ? que as pessoas em situa??o de rua tenham acesso aos abrigos p?blicos, onde ter?o alimenta??o de qualidade dentro das normas de higiene da Vigil?ncia Sanit?ria, e uma condi??o de vida mais digna. Ou mesmo nos Restaurantes Bom Prato, que recentemente decretaram gratuidade aos moradores de rua.

? frente do Fundo Social de Solidariedade, Bia Doria desenvolve uma s?rie de a?es em benef?cio dos mais necessitados, participando ativamente na execu??o das a?es em campo, como a campanha Inverno Solid?rio, que j? distribuiu milhares de cobertores, e a distribui??o de cestas b?sicas em comunidades carentes.

Tags: Bia Doria - Bia Doria, mulher

Fonte: globo  |  Publicado por: Da Redação
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