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Desligo os respiradores e os ajudo a morrer em paz': relatos de uma UTI com pacientes de Covid-19.

Publicada em 20 de Abril de 2020 às 14h29


O acesso a um respirador pode ser a diferen?a entre a vida e a morte de alguns pacientes mais graves com Covid-19.

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Os respiradores os ajudam a obter oxig?nio para os pulm?es e liberar o di?xido de carbono quando j? n?o conseguem fazer isso sozinhos.

Mas quando essas m?quinas respirat?rias n?o podem salv?-los, as equipes m?dicas de todo o mundo enfrentam algumas decis?es dif?ceis quanto ? interrup??o do tratamento de pacientes.

"Desligar o respirador ? um momento muito traum?tico e doloroso. ?s vezes, sinto que sou um pouco respons?vel pela morte de algu?m", diz Juanita Nittla.
Ela ? a enfermeira-chefe da UTI (unidade de terapia intensiva) do hospital Royal Free, em Londres.

Nascida no sul da ?ndia, Nittla trabalha no NHS (o servi?o p?blico de sa?de do Reino Unido) h? 16 anos, como enfermeira especialista em terapia intensiva.

"O desligamento dos respiradores faz parte do meu trabalho", disse a enfermeira de 42 anos ? BBC durante seu dia de folga.

?ltimo desejo
Durante a segunda semana de abril, assim que Nittla entrou no trabalho em seu turno da manh?, o assistente da UTI disse que ela teria que interromper o tratamento para uma paciente com Covid-19.

Essa paciente tamb?m era enfermeira, na casa dos 50 anos. Nittla falou com a filha da paciente sobre o processo.


"Eu assegurei a ela que sua m?e n?o estava sofrendo e parecia muito confort?vel. Tamb?m perguntei sobre os desejos e necessidades religiosas de sua m?e."
Na UTI, os leitos s?o colocados um ao lado do outro. Sua paciente terminal estava cercada por outros que tamb?m estavam inconscientes.


"Ela estava em um compartimento com 8 camas. Todos os pacientes estavam muito doentes. Fechei as cortinas e desliguei os alarmes dos equipamentos.

A equipe m?dica tamb?m ficou em sil?ncio.

"As enfermeiras pararam de falar. A dignidade e o conforto de nossos pacientes ? nossa prioridade", diz Nittla.
Ela ent?o colocou o telefone ao lado do ouvido da paciente e pediu para a filha dela falar.

"Para mim, foi apenas um telefonema, mas fez uma enorme diferen?a para a fam?lia. Eles queriam uma videochamada, mas infelizmente os celulares n?o s?o permitidos dentro da UTI".

Desligar
Ap?s o pedido da fam?lia da paciente, Nittla reproduziu um v?deo de um computador. Ent?o ela desligou o respirador.

"Sentei-me ao lado dela segurando as m?os dela at? que ela faleceu."

A decis?o de interromper todo aux?lio e tratamento respirat?rio ? tomada somente pelas equipes m?dicas ap?s uma an?lise cuidadosa, que leva em considera??o fatores como a idade do paciente, condi?es de sa?de subjacentes, resposta e chances de recupera??o.

A paciente morreu cinco minutos ap?s Nittla desligar o suporte do respirador.

"Vi luzes piscando no monitor e a frequ?ncia card?aca atingir zero. Linha plana na tela".

Morrendo sozinho
Ela ent?o desconectou os tubos que forneciam medicamentos para seda??o.

Sem saber disso, a filha da paciente ainda estava conversando com a m?e e fazendo algumas ora?es por telefone. Com o cora??o pesado, Nittla pegou o telefone para dizer que a m?e dela tinha partido.

Como enfermeira, diz ela, seu dever de cuidado n?o para quando um paciente morre.

"Com a ajuda de uma colega, dei-lhe um banho na cama e a envolvi em uma mortalha branca, depois a coloquei em uma bolsa para corpos. Fiz um sinal da cruz na testa antes de fechar a bolsa", disse ela ? BBC.
Nos dias pr?-coronav?rus, a fam?lia conversava cara a cara com os m?dicos sobre o t?rmino do tratamento.

Parentes pr?ximos tamb?m eram permitidos dentro de uma UTI antes de desligar equipamentos que mantinham as pessoas vivas. Mas isso n?o tem mais acontecido na maior parte do mundo.

"? triste ver algu?m morrer sozinho assim", diz Nittla, que acha que ajudar aqueles que morrem sob seu cuidado ? a melhor forma de lidar com o peso disso.
Ela chegou a ver pacientes ofegando e agonizando, o que foi "muito estressante de testemunhar".

Sem leitos
Devido a um aumento maci?o no n?mero de interna?es, a UTI do hospital foi ampliada de 34 para 60 leitos. Todos eles est?o agora ocupados.

A UTI tem um ex?rcito de 175 enfermeiros trabalhando constantemente.

"Normalmente, nos cuidados intensivos, mantemos uma propor??o de um para um (uma enfermeira por paciente). Agora ? uma enfermeira para cada tr?s. Se a situa??o continuar a piorar, ser? uma para cada seis pacientes."
Algumas enfermeiras de sua equipe estavam apresentando sintomas e agora est?o em isolamento. O hospital est? treinando outros enfermeiros de apoio para trabalhar em cuidados intensivos.

"Antes do in?cio do turno, mantemos as m?os juntas e dizemos 'se proteja'. Ficamos um de olho no outro. Garantimos que todos usem luvas, m?scaras e equipamentos de prote??o adequadamente", diz Nittla.
Faltam respiradores, cilindros de oxig?nio e muitos medicamentos. Mas o hospital dela possui equipamentos de prote??o individual suficientes para toda a equipe.

A UTI registra uma morte por dia, bem acima da m?dia que tinham antes da pandemia.

"? assustador."

Como enfermeira-chefe, ?s vezes ela precisa reprimir seus pr?prios medos.

"Tenho pesadelos. N?o consigo dormir. Me preocupo com o v?rus. Converso com meus colegas e todos est?o assustados."

No ano passado, Nittla ficou longe do trabalho por meses devido ? tuberculose. Ela sabe que sua capacidade pulmonar est? comprometida.

"As pessoas me dizem que eu n?o deveria estar trabalhando. Mas ? uma pandemia; deixo tudo de lado e fa?o o meu trabalho", afirma.
"No final do meu turno, penso nos pacientes que morreram sob meus cuidados. Mas tento desligar quando saio do hospital."
Tags: Desligo respirador - UTI

Fonte: GLOBO  |  Publicado por: Da Redação
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