Piaui em Pauta

Força, fé e foco nos estudos: a vida das vítimas um ano após a barbárie.

Publicada em 20 de Maio de 2016 às 07h52


A vida pacata no interior do Piau?, quebrada pelo corre-corre e agita??o da capital. Foi esse o rumo que o destino reservou ?s tr?s sobreviventes da s?rie de atrocidades no estupro coletivo em Castelo do Piau?, crime que completa um ano neste m?s. As adolescentes hoje moram em Teresina e t?m tentado dia ap?s dia recolocar os sonhos nos trilhos.

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Nenhuma delas imaginaria que o passeio naquela tarde ensolarada do dia 27 de maio terminaria com a morte de uma das amigas e interromperia os projetos de estudar para o Exame Nacional do Ensino M?dio (Enem) e galgar uma vaga na universidade. Foi o apoio da fam?lia e dos amigos, a f? e necessidade de passar por cima de todas as dores – f?sicas e emocionais -, os pilares que as sustentaram e as mant?m firmes para tocar a vida.

As quatro garotas fotografavam no alto do Morro do Garrote, ponto tur?stico da cidade, quando foram surpreendidas, amarradas, estupradas e arremessadas do alto do penhasco de cerca de 10 metros de altura. Uma elas n?o resistiu aos graves ferimentos e morreu.

Quatro adolescentes e um adulto, identificado como Ad?o Jos? da Silva Sousa, foram apontados pelo Minist?rio P?blico Estadual e pela pol?cia como autores da s?rie de atrocidades. O G1 ouviu os adolescentes com exclusividade. Confira aqui a reportagem.

For?a e f?
Nesse um ano ap?s o crime, a reportagem fez novamente contato com as fam?lias das garotas. Duas delas toparam falar. As demais, entre elas, a da adolescente qe morreu, preferem n?o comentar mais sobre o fato e, de forma breve, apenas dizem que “? preciso ter for?a e f? para superar”.
A m?e de uma das adolescentes aceitou falar, mas n?o permitiu nenhum tipo de imagem. Os nomes marcados por asteriscos s?o fict?cios e foram usados para preservar a identidade das v?timas e seus familiares.

Cristiana* ? m?e de Gabriela*, hoje com 16 anos. Ela foi uma das quatro garotas a n?o apresentar quadro mais grave, mas chegou a passar 18 dias internada no Hospital de Urg?ncia de Teresina (HUT). A garota sofreu fraturas em um dos tornozelos e no punho, al?m de ter sido atingida na coxa por uma facada. Ela foi submetida ? cirurgia e at? o pr?ximo m?s far? novo procedimento para retirar uma esp?cie de n?dulo que se formou na perna por conta do corte.

Gabriela est? morando em Teresina com o irm?o em um apartamento alugado pelos pais. Na capital, ela conquistou novos amigos e j? est? praticamente acostumada com a nova rotina. A fam?lia pediu transfer?ncia da escola em que ela estudava em Castelo ainda no ano passado e a menina conseguiu concluir o 1? ano do ensino m?dio em Teresina.

Hoje, cursado o 2? ano, ela pretende fazer o Exame do Ensino M?dico em novembro como treineira e, caso n?o mude de ideia, os seus planos ? disputar no pr?ximo ano uma vaga para o curso de arquitetura.

“Minha filha ? muito forte, se mostrou muito forte desde sempre. Naquele momento como m?e, era eu quem deveria dar for?a pra ela, mas ela ? quem me passava essa fortaleza. Aos poucos fomos enfrentando todas as dificuldades e hoje ela t? bem. Vi Deus se manifestar numa inje??o que a minha filha tomou. Era ela mostrando vida, dia ap?s dia dentro daquele hospital”, relembra a m?e.

Quando o crime aconteceu, Cristina teve que se mudar para a capital para acompanhar Gabriela. Foram sete meses longe da casa em Castelo, dos outros dois filhos e do marido.
“Tudo era diferente pra ela. Quando estava aqui em Castelo o pai ia deixar e pegar na escola. Em Teresina ela teve que aprender a pegar ?nibus, estava longe dos amigos. Ela n?o chorou muito e sempre fez quest?o de dizer que n?o ia se trancar, deixar de viver a vida dela. Em alguns momentos eu quis esmorecer, mas via a for?a dela e levantava”, fala a m?e.

Gabriela continua fazendo acompanhamento com psic?logo. “Como m?e ?s vezes me sinto dividida porque quando viajo pra visitar eles na capital deixo aqui a minha outra filha, que ? a mais velha. A gente sempre planejou mandar eles pra estudar em Teresina, mas acabou acontecendo antes e da forma que foi”, conta.

Cristina disse n?o guardar nenhum rancor. “? um sentimento que n?o mudaria nada, n?o me faria bem. Prefiro olhar para minha filha e v? que gra?as a Deus ela est? bem, viva”, falou.

Foco nos estudos e na futura carreira
Renata*, 17 anos, entre as tr?s sobreviventes, foi a que ficou em estado mais grave e passou 36 dias internada no HUT, alguns destes na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ela teve traumatismo craniano e chegou a ser submetida ? cirurgia pl?stica para reconstru??o das orelhas.

Vaidosa como toda menina da sua idade, ela viu seu longo cabelo ser raspado por conta do procedimento cir?rgico na cabe?a para retirar mais de 20 fragmentos de ossos, quebrados durante as agress?es.

20/05/2016 07h30 - Atualizado em 20/05/2016 07h30
For?a, f? e foco nos estudos: a vida das v?timas um ano ap?s a barb?rie
Tr?s adolescentes que sobreviveram ?s agress?es moram hoje em Teresina.
Familiares de duas delas aceitaram conversar com a reportagem do G1.
Patr?cia Andrade
Do G1 PI
FACEBOOK
Garotas mant?m foco nos estudos e buscam na f? for?a para superar traumas (Foto: Reprodu??o/TV Clube)
Garotas mant?m foco nos estudos e buscam na f? for?a para superar traumas (Foto: Reprodu??o/TV Clube)
A vida pacata no interior do Piau?, quebrada pelo corre-corre e agita??o da capital. Foi esse o rumo que o destino reservou ?s tr?s sobreviventes da s?rie de atrocidades no estupro coletivo em Castelo do Piau?, crime que completa um ano neste m?s. As adolescentes hoje moram em Teresina e t?m tentado dia ap?s dia recolocar os sonhos nos trilhos.
Nenhuma delas imaginaria que o passeio naquela tarde ensolarada do dia 27 de maio terminaria com a morte de uma das amigas e interromperia os projetos de estudar para o Exame Nacional do Ensino M?dio (Enem) e galgar uma vaga na universidade. Foi o apoio da fam?lia e dos amigos, a f? e necessidade de passar por cima de todas as dores – f?sicas e emocionais -, os pilares que as sustentaram e as mant?m firmes para tocar a vida.


TRAG?DIA NO PIAU?
Estupro de 4 adolescentes choca cidade
o crime
perfil dos suspeitos
morre uma das v?timas
a saudade de um pai
garota relembra crime
col?gio altera rotina
As quatro garotas fotografavam no alto do Morro do Garrote, ponto tur?stico da cidade, quando foram surpreendidas, amarradas, estupradas e arremessadas do alto do penhasco de cerca de 10 metros de altura. Uma elas n?o resistiu aos graves ferimentos e morreu.

Quatro adolescentes e um adulto, identificado como Ad?o Jos? da Silva Sousa, foram apontados pelo Minist?rio P?blico Estadual e pela pol?cia como autores da s?rie de atrocidades. O G1 ouviu os adolescentes com exclusividade. Confira aqui a reportagem.

For?a e f?
Nesse um ano ap?s o crime, a reportagem fez novamente contato com as fam?lias das garotas. Duas delas toparam falar. As demais, entre elas, a da adolescente qe morreu, preferem n?o comentar mais sobre o fato e, de forma breve, apenas dizem que “? preciso ter for?a e f? para superar”.
A m?e de uma das adolescentes aceitou falar, mas n?o permitiu nenhum tipo de imagem. Os nomes marcados por asteriscos s?o fict?cios e foram usados para preservar a identidade das v?timas e seus familiares.
T?mulo de Danielly Rodrigues, que morreu ap?s 10 dias internada, ainda recebe homenagens (Foto: Patr?cia Andrade/G1)
T?mulo de Danielly Rodrigues, que morreu ap?s 10 dias ap?s o crime (Foto: Patr?cia Andrade/G1)
Cristiana* ? m?e de Gabriela*, hoje com 16 anos. Ela foi uma das quatro garotas a n?o apresentar quadro mais grave, mas chegou a passar 18 dias internada no Hospital de Urg?ncia de Teresina (HUT). A garota sofreu fraturas em um dos tornozelos e no punho, al?m de ter sido atingida na coxa por uma facada. Ela foi submetida ? cirurgia e at? o pr?ximo m?s far? novo procedimento para retirar uma esp?cie de n?dulo que se formou na perna por conta do corte.
Vi Deus se manifestar numa inje??o que a minha filha tomou. Era ela mostrando vida, dia ap?s dia dentro daquele hospital"
Cristina*, m?e de Gabriela*, v?tima do crime em Castelo
Gabriela est? morando em Teresina com o irm?o em um apartamento alugado pelos pais. Na capital, ela conquistou novos amigos e j? est? praticamente acostumada com a nova rotina. A fam?lia pediu transfer?ncia da escola em que ela estudava em Castelo ainda no ano passado e a menina conseguiu concluir o 1? ano do ensino m?dio em Teresina.

Hoje, cursado o 2? ano, ela pretende fazer o Exame do Ensino M?dico em novembro como treineira e, caso n?o mude de ideia, os seus planos ? disputar no pr?ximo ano uma vaga para o curso de arquitetura.

“Minha filha ? muito forte, se mostrou muito forte desde sempre. Naquele momento como m?e, era eu quem deveria dar for?a pra ela, mas ela ? quem me passava essa fortaleza. Aos poucos fomos enfrentando todas as dificuldades e hoje ela t? bem. Vi Deus se manifestar numa inje??o que a minha filha tomou. Era ela mostrando vida, dia ap?s dia dentro daquele hospital”, relembra a m?e.

Quando o crime aconteceu, Cristina teve que se mudar para a capital para acompanhar Gabriela. Foram sete meses longe da casa em Castelo, dos outros dois filhos e do marido.
“Tudo era diferente pra ela. Quando estava aqui em Castelo o pai ia deixar e pegar na escola. Em Teresina ela teve que aprender a pegar ?nibus, estava longe dos amigos. Ela n?o chorou muito e sempre fez quest?o de dizer que n?o ia se trancar, deixar de viver a vida dela. Em alguns momentos eu quis esmorecer, mas via a for?a dela e levantava”, fala a m?e.

Gabriela continua fazendo acompanhamento com psic?logo. “Como m?e ?s vezes me sinto dividida porque quando viajo pra visitar eles na capital deixo aqui a minha outra filha, que ? a mais velha. A gente sempre planejou mandar eles pra estudar em Teresina, mas acabou acontecendo antes e da forma que foi”, conta.

Cristina disse n?o guardar nenhum rancor. “? um sentimento que n?o mudaria nada, n?o me faria bem. Prefiro olhar para minha filha e v? que gra?as a Deus ela est? bem, viva”, falou.

Foco nos estudos e na futura carreira
Renata*, 17 anos, entre as tr?s sobreviventes, foi a que ficou em estado mais grave e passou 36 dias internada no HUT, alguns destes na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ela teve traumatismo craniano e chegou a ser submetida ? cirurgia pl?stica para reconstru??o das orelhas.

Vaidosa como toda menina da sua idade, ela viu seu longo cabelo ser raspado por conta do procedimento cir?rgico na cabe?a para retirar mais de 20 fragmentos de ossos, quebrados durante as agress?es.
Jovem escreve no peda?o de papel qualidade das amigas (Foto: Gilcilene Ara?jo/G1)
Amiga de escola lista qualidades das adolescentes (Foto: Gilcilene Ara?jo/G1)
Madalena*, madrinha, cunhada e confidente de Renata, foi quem recebeu o G1. Coube a ela a dif?cil miss?o de contar para os pais da garota tudo que havia acontecido no Morro do Garrote. Coube a ela tamb?m acompanhar Renata na ambul?ncia quando foi transferida de Castelo para Teresina. At? hoje ela se emociona ao lembrar-se da afilhada se contorcendo de dores e gemendo na maca.

“Foi um dia terr?vel. Ningu?m nunca imagina que isso vai acontecer na vida de algu?m. Mas Deus ? t?o poderoso que ela est? viva, t? bem e tem seguido a vida dela”, falou a madrinha.
Renata vai concluir o ensino m?dio esse ano e quer ingressar na universidade no curso de medicina veterin?ria. Mesmo durante a sua recupera??o n?o deixou os estudos. A dire??o da escola em que estudava em Castelo fez um esfor?o intenso para que a garota conseguisse acompanhar os conte?dos mesmo em Teresina e Renata, sempre que poss?vel, ia ao col?gio para fazer as avalia?es.

A madrinha diz que o acompanhamento psicol?gico continua. “?s vezes ela esquece das coisas, mas acho que isso ? normal para quem passou pelo que ela passou. No geral ela t? bem. O cabelo cresceu e ela j? quer at? cortar”, disse.

Na casa de Danielly Rodrigues, ?nica das quatro meninas a morrer em consequ?ncia das graves les?es, o quarto permanece fechado desde o dia em que tudo aconteceu. A m?e, que teve uma parte de si levada, prefere manter o sil?ncio, pois diz que “nada, nada do que ela venha dizer trar? sua filha de volta”.



Esfor?os para esquecer
Desde que o crime ocorreu em Castelo do Piau?, escolas e demais institui?es tem realizado diversas a?es voltadas ao fortalecimento de prote??o ?s crian?as e adolescentes.
As atividades s?o promovidas pela Prefeitura Municipal de Castelo do Piau? atrav?s da Secretaria Municipal de Assist?ncia Social (Smas), e contam a participa??o de diversos setores da administra??o municipal e sociedade civil organizada, como a Associa??o da Juventude de Castelo do Piau? (Ajuca), Conselho Tutelar, Conselho Municipal dos Direitos da Crian?a e do Adolescente.

Durante toda a semana, uma vasta programa??o foi realizada em alus?o ao Dia Nacional de Combate ao Abuso e ? Explora??o de Crian?as e Adolescentes, celebrado na quarta-feira (18).

“Todos os nossos esfor?os t?m sido no sentido de alertar e sensibilizar a sociedade. Estamos tentando desmistificar essa imagem negativa da cidade. O mais importante ? conscientizar essas crian?as e esses adolescentes dos seus direitos e garantias e mostrar quem eles devem procurar”, falou a psic?loga Enilda Alves.? a primeira vez que os meninos falam com a imprensa desde o fato. O acesso aos menores, recolhidos no Centro Educacional Masculino (CEM), em Teresina, foi autorizado pelo juiz Ant?nio Lopes, da 2? Vara da Inf?ncia e da Juventude.
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Fonte: globo  |  Publicado por: Da Redação
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