?Um projeto de leitura rec?m implantado dentro da Penitenci?ria Irm?o Guido, em Teresina, vem transformando a rotina em pelo menos cinco dos sete pavilh?es. Em um ambiente onde grades e algemas limitam os movimentos, os livros t?m sido uma ferramenta capaz de promover viagens que ampliam o conhecimento e diminuem o ?cio do dia a dia na pris?o. A iniciativa partiu da psic?loga Vanessa Moura, ap?s pedido dos pr?prios detentos.
Vanessa colocou ? disposi??o dos presos livros do seu acervo, mas j? conseguiu atrair v?rias doa?es, desde t?tulos de uma editora esp?rita a livros que foram dados pela prefeitura e at? mesmo por um dos agentes penitenci?rios.
A atividade consiste no empr?stimo de um exemplar por um per?odo de 30 dias e durante esse tempo o detento tem que ler e apresentar uma resenha da hist?ria. Desde que a a??o come?ou - em fevereiro deste ano - pelo menos 200 presos j? mostraram interesse pela leitura, visto que h? 129 na lista de espera por um livro.
“Foi uma demanda apresentada pelos pr?prios presos nos atendimentos individuais. Foi um grito de socorro! Uns falavam: ‘doutora traz um livro pra mim’ e isso fez com que eu tivesse a ideia de iniciar essa atividade. Tamb?m vi a? uma maneira de fazer o atendimento de forma coletiva por achar mais eficiente diante do n?mero de presos que temos aqui”, explicou Vanessa Moura.
Atualmente, a Penitenci?ria Irm?o Guido tem uma popula??o carcer?ria de 428 presos, quando sua capacidade ? para 324 vagas. Do total, 172 s?o presos do regime provis?rio e tamb?m n?o deveriam estar entre os detentos j? sentenciados pela justi?a. O pres?dio ? apenas uma das unidades prisionais do Piau? que apresentam superlota??o e estrutura f?sica prec?ria.
Algumas experi?ncias
Em meio a tantos problemas e limita?es da vida em c?rcere, apresentar aos presos a brasilidade presente na obras de Jos? de Alencar, contos, romances e poesias de Machado de Assis ou at? mesmo f?bulas cl?ssicas da literatura infanto-juvenil, de Monteiro Lobato, por exemplo, chega a ser um alento e os livros t?m diminu?do a ansiedade e ins?nia relatada por muitos deles.
O G1 teve acesso ao pres?dio e conversou com alguns detentos que j? participam das atividades de leitura. Os nomes marcados com asteriscos foram trocados para preservar as identidades dos presos.
Leonardo da Cruz*, 32 anos, cumpre pena por ter facilitado a fuga de um assaltante. Com 1 anos e 3 meses na cadeia, Leonardo ? um dos leitores mais ass?duos e at? coordena o grupo de leitura em uma das celas do pavilh?o lateral. Ele conta que j? leu Garibaldi e Manoela (Josu? Guimar?es); As aventuras de Pedro Malasartes (adapta??o de um filme de Mazzaropi) e Morro dos Ventos Uivantes (Emily Bront?).
“Encontrei na leitura uma forma de ocupar a mente, fugir das turbul?ncias. Cada livro ? uma hist?ria diferente, ? uma forma de viajar. Quando come?o a ler um livro e gosto de cara na primeira p?gina, leio em um dia. Isso tem mudado a rotina no pavilh?o”, relata Leonardo.
Marcelo Silva*, 22 anos, cumpre pena por latroc?nio, roubo seguido de morte. Ele prefere n?o tocar no passado e apenas falar nos dias que ter? pela frente, dias que para Marcelo passam mais r?pido tendo os livros como companhia. Escrava Isaura, de Bernardo Guimar?es, foi o que mais chamou sua aten??o at? agora.
“Acho uma hist?ria parecida com a minha porque ela era uma escrava que queria ser tratada da mesma forma que as outras. Aqui a gente tem uma vida atribulada e s? queria ter mais oportunidade. Eu quero ser outra pessoa e n?o vou baixar a minha cabe?a”, revela.
“Aqui estamos ? merc? do ?cio, ang?stia e sofrimento. Qualquer projeto que vise reeducar e ressocializar ? edificante. Eu precisava do c?rcere para aprender a valorizar a vida, crescer como sofrimento. Na leitura eu vejo esperan?a”, ralata Jo?o Francisco*, 42 anos, seis deles na pris?o cumprindo pena por tr?fico de drogas.
Apoio da dire??o
O diretor da penitenci?ria F?bio Keyller disse que resolveu apostar no projeto apresentado pela psic?loga e avalia os primeiros meses de atividade como positivos. “? uma forma de inclus?o e ocupa??o para o detento. Vamos reativar outros projetos que est?o parados como o de panifica??o e montagem de calhas de bicicletas que temos em parceria com uma empresa local porque tamb?m s?o atividades voltadas para a humaniza??o”, falou.
Para Marcos Furtado que ? agente penitenci?rio e professor de espanhol, a leitura ? importante para um ambiente ocioso e sem as condi?es m?nimas para ressocializa??o e forma??o do indiv?duo enquanto cidad?o. Ele doou v?rias f?bulas para o projeto.
“Trouxe algumas f?bulas de linguagem mais acess?vel porque muitos deles est?o tendo o primeiro contato com os livros agora, ent?o n?o adianta apresentar uma obra rebuscada que eles n?o v?o conseguir interpretar”, disse.
A Secretaria Estadual de Justi?a (Sejus) informou que pretende ampliar o projeto e levar para outras penitenci?rias do estado. Por enquanto, n?o h? uma lei estadual que garanta a remiss?o de pena por cada livro lido ou resenha apresentada pelo detento.