Piaui em Pauta

'Minha caneta foi a enxada', diz sanfoneira que anima no sertão do PI.

Publicada em 03 de Julho de 2016 às 10h54


Ela ? uma das figuras mais conhecidas e carism?ticas da cidade de S?o Raimundo Nonato, no sert?o do Piau?. O sorriso largo e constante no rosto ? a principal marca de Maria Sebastiana Torres da Silva, 55 anos, considerada um ?cone da cultura popular da regi?o. A mulher de corpo franzino aprendeu tocar sanfona aos 7 anos de idade em uma comunidade rural de um munic?pio vizinho onde foi criada com muitas dificuldades.
Sem ningu?m ensin?-la, ela pegou uma sanfona velha e empoeirada deixada pelos irm?os em um quarto bagun?ado e resolveu mexer no instrumento. No in?cio, Sebastiana sequer conseguia levantar o aparelho e precisava da ajuda do pai. Quando ouvia as m?sicas tocadas no radinho de pilha da fam?lia ela tentava fazer igual e pouco a pouco foi conseguindo tocar o acordeon.

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Mas quem v? o sorriso f?cil e a alegria da sanfoneira Sebastiana n?o imagina as tantas dificuldades que ela j? enfrentou e ainda hoje enfrenta. A paix?o pelo instrumento musical cresceu junto com o trabalho pesado que ela teve que enfrentar desde menina. Ainda crian?a, a piauiense tinha que trabalhar na ro?a para ajudar no sustento da fam?lia. Devido a isso, ela n?o frequentou escola e n?o sabe ler e nem escrever.
"Se colocar uma plaquinha nessa porta dizendo 'se voc? passar a? voc? morre' eu vou passar e vou morrer porque n?o sei o que est? escrito. Minha caneta era o olho da enxada e o caderno era o ch?o. Eu comecei a puxar um olho de enxada com sete anos e mesmo assim era incutida com a sanfona. Quando eu chegava da ro?a com fome eu n?o ia para as panelas, ia para a sanfona", relembra.



A rotina de trabalho ?rduo na ro?a e no mato continuou ap?s o casamento, quando ela tinha apenas 15 anos de idade e teve a primeira filha ainda aos 16 anos. A essa altura, as festas j? aconteciam aqui e acol?, mas a garantia do sustento naquele in?cio era o trabalho bra?al com foices, chibancas, enxadas e machados. A necessidade era tamanha que nem mesmo os repousos durante a gravidez eram obedecidos.

"Eu n?o tive um minuto de repouso na gravidez. L? no mato eu fazia, l? eu paria e l? eles cresciam. Dos meus nove filhos eu s? tive um em hospital. Eu n?o respeitava bucho e trabalhava at? o dia de parir. Se juntar tudo o que eu j? enfrentei nessa vida n?o daria para contar em tr?s meses. O dinheiro da primeira festa que eu toquei serviu para ajudar todo mundo. Foi para comer, vestir e cal?ar", conta ela.
Quando se mudou para S?o Raimundo Nonato ela continuou na rotina de trabalhar nas ro?as e tamb?m chegou a lavar roupa para 18 pessoas em um m?s, tudo dividido com as festas que aparecia para tocar naquelas brenhas do sert?o. O primeiro transporte usado para levar a sanfona e o zabumba foi um jumento, que chegava a percorrer v?rias l?guas at? o local onde seria a festa.
"Uma vez eu fui tocar uma festa de casamento h? 4 km de casa com o bucho de nove meses. Eu j? estava sentindo umas coisas e quando foi 3 horas manh? deu uma pontada e a? come?ou aquela dor. Ainda toquei uma hora de rel?gio ap?s isso e quando vi que o neg?cio estava aperreando eu entreguei a sanfona a um primo, caminhei com meu marido e a? quando cheguei em casa nasceu meu filho Marciel", contou a sanfoneira.

Atualmente com 48 anos de carreira, Sebastiana segue ganhando a vida com a m?sica e com o trabalho na ro?a. Com problemas de sa?de no cora??o e um princ?pio de Acidente Vascular Cerebral (AVC) sofrido recentemente, ela toca em v?rias cidades e comunidades rurais da regi?o.
Apesar de j? ser conhecida, suas festas custam entre R$ 700 e R$ 1.200, dinheiro cujo lucro fica pequeno se colocadas as despesas com os deslocamentos.
Com uma fam?lia numerosa de sete filhos e 14 netos, todos bastante unidos, ela destaca uma pessoa que sempre a ajudou, inclusive com a doa??o de instrumentos e a contrata??o para apresenta?es. A arque?loga Ni?de Guidon, presidente da Funda??o Museu do Homem Americano (Fumdham) e principal nome da Serra da Capivara, sempre foi uma grande apoiadora da arte musical de Sebastiana.
"Uma pessoa que n?o posso deixar de falar ? a doutora Ni?de Guidon. Ela colocou meu nome na m?dia e hoje para mim ? Deus no c?u e Ni?de na Terra. O nome dessa mulher em todo lugar que eu vou tem que ser citado, porque ela foi uma das pessoas que mais me ajudou nesta vida", disse a sanfoneira.
Alegria que contagia
Sebastiana ostenta uma alegria que se v? em poucas pessoas. As dificuldades e os problemas de sa?de nunca a fizeram tirar do rosto o sorriso e o carisma com todos. Nas apresenta?es ela se remexe, puxa o fole da sanfona e sempre est? sorrindo para o p?blico. Para ela, sorrir e estar de bem com a vida ? essencial para seguir em frente.

"O que me motiva ? Deus em primeiro lugar para me dar esse cora??o puro, de humildade e feliz. As vezes eu saio de casa doente para tocar, mas a alegria do p?blico me levanta. ? uma alegria que vem da alma. Eu posso estar na tristeza que eu tiver, mas quando chego no meio do p?blico eu esque?o tudo", falou a sanfoneira que tem o sonho de se apresentar em rede nacional e conhecer a dupla Zez? e Luciano.

Al?m das muitas festas que toca no Piau?, Sebastiana tamb?m j? se apresentou na Bahia, em Goi?s e at? em Bras?lia. No dia em que recebeu a equipe do G1, ela se preparava para viajar e tocar em Campo Alegre de Lourdes, na Bahia. A banda conta com apenas tr?s pessoas, entre elas o filho Marciel que toca teclado e canta. Nas festas, o marido aproveita para fazer a cobran?a na portaria para conseguir aumentar os lucros.
H? dois anos ela fez um empr?stimo no banco e conseguiu comprar uma van para as viagens. No carro est? escrito "Sebastiana & Banda: a sanfoneira mais querida do Brasil". Ela revela que nos ?ltimos meses n?o tem conseguido pagar o ve?culo. Sem saber ler, Sebastiana n?o consegue compor m?sicas e lamenta. "A falta de estudo me deixou abaixo de zero, porque hoje quem n?o tem estudo n?o tem nada", falou.
Orgulho da fam?lia
A hist?ria de luta, trabalho e alegria de Sebastiana ? motivo de orgulho para todos da fam?lia. O filho Marciel Torres, que acompanha a m?e em todas as festas, diz que a matriarca ? uma guerreira e afirma que ela ? vencedora por ter enfrentado de cabe?a erguida tudo que encontrou pela frente ao longo da vida, inclusive a morte de dois filhos.

"M?e ? uma guerreira. ? certo que toda mulher tem seu valor, mas para passar o que ela j? passou para criar a gente e os dois que morreram ? dif?cil. S? meu Deus do c?u para aben?o?-la e eu agrade?o muito a Ele por ter uma m?e como ela, sempre batalhadora e alegre com todas as pessoas", destacou o filho.
Tags: 'Minha caneta foi a - Ela é uma das figura

Fonte: globo  |  Publicado por: Da Redação
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