Piaui em Pauta

Morre aos 87 anos o escritor Ariano Suassuna, o cavaleiro do sertão.

Publicada em 23 de Julho de 2014 às 20h00


O escritor Ariano Suassuna, em foto de 2007    O escritor Ariano Suassuna, em foto de 2007    O escritor Ariano Suassuna, em foto de 2007 ?? ?O escritor paraibano Ariano Suassuna morreu ?s 17h28m desta quarta-feira, aos 87 anos, v?tima de uma parada card?aca provocada pela hipertens?o intracraniana. Ele estava internado no Real Hospital Portugu?s, em Recife, Pernambuco, desde segunda-feira, depois de sofrer um acidente vascular cerebral hemorr?gico. O autor passou por uma cirurgia de emerg?ncia, acabou entrando em coma e n?o resistiu. Integrante da Academia Brasileira de Letras, Suassuna teve seis filhos e 15 netos. Defensor da cultura popular brasileira, era um dos maiores dramaturgos do pa?s, al?m de autor de romances e poemas. No dia 21 de agosto do ano passado, ele foi atendido no mesmo hospital por causa de um infarto, “com comprometimento card?aco de pequenas propor?es”. Uma semana depois, passou mal e voltou a ser internado, sendo submetido a uma arteriografia para corrigir um aneurisma que vinha lhe provocando fortes dores de cabe?a. saiba mais Cansado de esperar, Ariano Suassuna deita em ch?o de aeroporto Leia mais sobre Ariano Suassuna Nascido em 16 de junho de 1927 em Nossa Senhora das Neves, hoje Jo?o Pessoa, capital da Para?ba, Ariano Vilar Suassuna era filho de Jo?o Suassuna, ent?o governador de seu estado natal. Com o fim do mandato, um ano depois, toda a fam?lia se mudou para o interior. O velho contador de hist?rias do sert?o tinha apenas 3 anos quando um fato tr?gico marcou sua inf?ncia. No desenrolar da Revolu??o de 1930, um pistoleiro de aluguel assassinou seu pai com um tiro pelas costas, numa rua do Rio de Janeiro. O assassinato foi motivado por boatos que apontavam o patriarca da fam?lia Suassuna como mandante da morte de Jo?o Pessoa, seu sucessor no governo, fato que serviu de estopim para a revolu??o. Um ambiente assim, com d?vidas de sangue e rivalidade entre fam?lias, cobrava dos ?rf?os a vingan?a. Mas, um dia antes de ser assassinado, Jo?o Suassuna deixou uma carta aos nove filhos pedindo que eles n?o se tornassem assassinos por sua causa. UMA BIBLIOTECA DE HERAN?A Ariano Suassuna obedeceu. Em vez disso, dizia estar perto de perdoar os criminosos que mataram seu pai. A m?e e vi?va tamb?m ajudou, ao dizer que o pistoleiro respons?vel pelo crime j? havia morrido (era mentira). Com a trag?dia, a fam?lia mudou-se para a pequena cidade de Tapero?, no interior da Para?ba. E Ariano herdou a biblioteca do pai, onde encontrou livros importantes para sua forma??o. Um dos mais importantes, sem d?vida, foi “Os sert?es”, de Euclides da Cunha. A obra lhe apresentou um dos personagens que mais marcaram sua vida: Ant?nio Conselheiro, profeta e l?der de Canudos. Em 1942, Suassuna foi para Recife concluir o ensino b?sico. Anos depois, na faculdade de Direito, ajudou a fundar o Teatro do Estudante de Pernambuco. Em 1947, encenou sua primeira pe?a: “Uma mulher vestida de sol”. Nove anos depois, levaria aos palcos seu texto mais conhecido, “Auto da Compadecida”, que ganharia adapta?es na TV e no cinema. Por causa do teatro, deixou o Direito de lado seis anos ap?s ter se formado. O romance surgiu mais tarde em sua vida. Em 1971, Ariano Suassuna lan?ou seu “Romance d’a pedra do reino e o pr?ncipe do sangue vai-e-volta”, com nome comprido como seus cord?is t?o adorados e pensado para ser uma trilogia. Com o livro, o escritor avan?a em rela??o ? literatura regionalista dos anos 1930, representada por Jo?o Guimar?es Rosa e Jos? Lins do Rego. Mais tarde, Ariano Suassuna diria que “A pedra do reino” era, de certa forma, uma tentativa de trazer seu pai de volta ? vida. Havia quem acusasse o escritor de lutar contra moinhos de vento: o escritor se apresentava como um defensor da cultura popular brasileira, contra a invas?o da ind?stria cultural norte-americana. Falava mal de Madonna e Michael Jackson. N?o ? toa, quando foi secret?rio de Cultura do governo Miguel Arraes, nos anos 1990, tornou-se um ferrenho opositor do maracatu eletr?nico e do manguebeat. Ele se recusava, por exemplo, a chamar Chico Science, o vocalista da Na??o Zumbi, pelo nome art?stico. Dizia “Chico Ci?ncia”. A defesa da cultura nacional, que muitas vezes lhe rendeu o r?tulo de xen?fobo, j? vinha no sangue e no nome da fam?lia. Na onda nacionalista depois da Independ?ncia, em 1822, v?rios brasileiros adotaram nomes ind?genas. Seu bisav? Raimundo Sales Cavalcanti de Albuquerque escolheu Suassuna, de origem tupi, e nome de um riacho da regi?o onde a fam?lia vivia. Nos anos 1970, fazendo jus ao nacionalismo da linhagem, Ariano fundou o Movimento Armorial, que defendia a cria??o de uma cultura erudita com bases na cultura popular — e toda a sua obra orbita em torno desse ideal. Em 1989, o sertanejo foi eleito para a cadeira de n?mero 32 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono era Ara?jo Porto-Alegre. Sexto ocupante da cadeira, Suassuna nunca foi um imortal de frequentar os eventos da institui??o. Era uma esp?cie de filho pr?digo da ABL. NOVA OBRA VINHA SENDO ESCRITA H? MAIS DE 20 ANOS Para al?m de sua obra, o escritor paraibano ficou famoso tamb?m por dar aulas em que dissecava a cultura brasileira, as suas origens ib?ricas, a tradi??o dos violeiros, dos cantadores, das rabecas, dos cord?is. Eram aulas-espet?culo. E a ?ltima foi na sexta-feira passada, no 24? Festival de Inverno de Garanhuns, a 230 quil?metros de Recife. O Teatro Luiz Souto Dourado ficou lotado, como sempre acontecia nesses eventos. Um dos motivos de tanto sucesso era o bom humor do escritor, uma de suas marcas. N?o que tenha sido sempre assim. Suassuna atribu?a o aparecimento do humor em sua vida ao encontro com Z?lia, sua mulher h? mais de 50 anos. Para Suassuna, ela havia “desatado alguma coisa” dentro dele. “O riso a cavalo e o galope do sonho s?o as duas armas de que disponho para enfrentar a dura tarefa de viver”, escreveu em “A pedra do reino”. Ariano Suassuna trabalhava em um novo livro havia mais de 20 anos, e dizia estar longe de terminar. N?o era para menos. Seu processo de cria??o era lento: escrevia e reescrevia, v?rias vezes, ? m?o. Depois, copiava para a m?quina de escrever e, s? ent?o, corrigia. Era a? que o escritor passava tudo a limpo, novamente ? m?o. ?s vezes, descartava todo o material e voltava ao come?o do processo. Como ilustrava os pr?prios livros e ainda parava para dar suas famosas aulas-espet?culo pelo pa?s, demorava mais ainda. Sem t?tulo, o romance seria a continua??o de “A pedra do reino”. Al?m do amor pela literatura, havia espa?o para o futebol: seu time do cora??o era o Sport Club do Recife, que at? o homenageou em seu uniforme em 2013 com uma frase que ele costumava repetir: "Felicidade ? ser Sport". Suassuna tinha fama de p? quente. Entre as muitas homenagens que recebeu, uma das que mais o marcaram foi o desfile da escola de samba Imp?rio Serrano, que levou para a avenida o enredo "Aclama??o e coroa??o do imperador da pedra do reino Ariano Suassuna", em 2002. "Um escritor que ama o seu pa?s n?o pode querer homenagem maior que esta", disse. Em 2007, ele assumiu a secretaria de Cultura de Pernambuco a convite do governador Eduardo Campos, e chegou a ocupar outros cargos at? deixar o governo recentemente, em abril de 2014. O ano de 2007 tamb?m foi marcado pela celebra??o dos 80 anos do escritor em todo o Brasil. As homenagens o levaram a viajar de Norte a Sul do pa?s. Uma epopeia para um homem que, al?m de apreciar o sossego, detestava avi?o. Mesmo assim, o apaixonado e muitas vezes pol?mico defensor da cultura popular brasileira seguia adiante. Mas brincava: se soubesse que chegar aos 80 anos daria tanto trabalho, teria ficado nos 79

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Tags: Morre aos 87 anos - Ariano Suassuna

Fonte: Vooz  |  Publicado por: Da Redação
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