Faleceu, por volta das 18 horas dessa ter?a-feira, o juiz aposentado e escritor William Palha Dias (foto), 93, de complica?es respirat?rias. Natural de Caracol, formou-se em Direito, iniciou na magistratura, como juiz de Direito, nos anos 1970 aposentando-se nos anos 80, quando retornou ? advocacia, ao jornalismo e ? literatura. ? autor 19 livros publicados.
Filho de Claudionor Augusto Dias e Leonor Palha Dias, William era casado com Maria das Gra?as e teve seis filhos: Leonor, Celina, Sales, C?lia, Mirian e Andrea, 13 e seis bisnetos.
William Palha Dias estudou desde pequeno no seu estado de origem, o Piau?, tendo, inicialmente, sido autodidata. ? bacharel em Direito e juiz aposentado. Jornalista profissional, foi um dos fundadores da antiga Associa??o Profissional de Jornalistas do Piau?, transformada em sindicato da classe.
Ex-advogado militante, tendo sido membro do Conselho da Ordem dos Advogados do Brasil, no Piau?. Ex-funcion?rio de Departamento de Estradas de Rodagem do Piau?, onde foi assessor t?cnico. Membro da Academia Piauiense de Letras, Academia de Letras da Magistratura Piauiense, s?cio do Instituo Hist?rico e Geogr?fico do Piau? e do Instituto Hist?rico de Oeiras, pertencendo, igualmente, ? Uni?o Brasileira de Escritores – UBE-PI. Al?m disso, ? cidad?o honor?rio de Cristino Castro, Pedro II, Regenera??o e Teresina.
Ocupou a cadeira de 4 da Academia Piauiense de Letras. Entre os livros publicados, ‘Vila de Jurema’, “Endoema” e Irm?os Quixaba, que terminou sendo transformado em filme e exibido nacionalmente.
Vel?rio
o corpo de William Palha Dias est? sendo velado na Pax Uni?o, da Avenida Miguel Rosa. O sepultamento dever? ocorrer por volta das nove horas, no Cemit?rio de S?o Jos?, na Zona Norte de Teresina.
O livro de William Palha Dias que virou filme
Os irm?os Quixaba
Vers?o para impress?o
A obra Os Irm?os Quixaba, de William Palha Dias, publicada em 1979, ? ambientada nos sert?es do Piau?. ? uma narrativa ficcional abordando incesto, infantic?dio e condena?es. Tem estrutura simples e de tempo cronol?gico perturbado apenas por um longo flash-back, que inicia no come?o da hist?ria e vai at? o meio do livro.
A linguagem utilizada ? a formal, mas com alguns tra?os de oralidade facilmente identificados nas primeiras p?ginas, para em seguida incorporar um estilo sofisticado, especialmente quando descreve a sess?o de julgamento dos irm?os e r?us, Alexandre e Margarida Quixaba, no Tribunal Popular do J?ri, pelo assassinato de Edson, o filho deles.
Embora seja uma obra modernista, Os Irm?os Quixaba tamb?m revela aspectos que bem poderiam ser relacionados ao Realismo/Naturalismo. O aspecto presente da den?ncia social, caracter?stica do Modernismo, combina com os tra?os de verossimilhan?a e de representa??o do homem na sua dimens?o animalesca, pr?pria da outra escola liter?ria citada.
O autor exp?e o modo de vida do sertanejo piauiense atrav?s de personagens t?picos como o vaqueiro, o ca?ador e tamb?m aquele que decide aventurar-se na cidade grande na ?nsia de mitigar o sofrimento da ro?a. H? tamb?m uma preocupa??o de mostrar os estados psicol?gicos dos personagens, com an?lises de seus comportamentos e vis?es de mundo. Neste retrato fiel do Piau? dos anos 40 e 50 e na an?lise psicol?gica vemos a retomada dos preceitos do Realismo, que surgiu na Europa do S?culo XIX como nega??o do Romantismo e suas idealiza?es. Como advogado militante, William Palha Dias lan?ou m?o do cientificismo (e este era um dos preceitos do Realismo) para analisar apenas um dos muitos crimes que tomara conhecimento de sua ocorr?ncia no Piau?. Algumas p?ginas do livro s?o verdadeiras pe?as jur?dicas, dado ?s cita?es do C?digo Penal e ? generosa recorr?ncia ao jarg?o pr?prio dos advogados, numa clara refer?ncia ?s ci?ncias jur?dicas como ferramenta de abordagem, fato este que remete ao Positivismo, de Augusto Comte, um dos pilares do Realismo.
Quanto ? identifica??o de Os Irm?os Quixaba com o Naturalismo d?-se pela semelhan?a existente entre o desfecho dado por William Palha Dias para a sua obra e duas das teorias balizadoras desta escola liter?ria, que s?o o Determinismo, de Hyppolite Taine, afirmando ser o homem resultado das intera?es do seu meio, do seu momento hist?rico e da sua ra?a; e o Evolucionismo, de Charles Darwin, que tratava da sele??o natural das esp?cies. Como se percebe na leitura deste romance que alguns chamam de novela, h? uma barreira social instranspon?vel que impede a ascens?o social de todos os personagens. Alexandre Quixaba ? quem foi um pouco al?m, vagueando pelo Brasil, aprendendo e humanizando-se. Mas, como se estivesse predestinado, retorna ?s suas origens retomando o ciclo vicioso da mis?ria que j? vinha se perpetuando de pai para filho.
A animaliza??o do homem e da mulher, ao ponto de liberarem seus mais torpes instintos sexuais sem respeito, sequer, aos la?os de consang?inidade, ? outra clara identifica??o com o Naturalismo, embora seja, de fato um romance modernista. Mas esse sincretismo n?o deixa de ser uma das caracter?sticas do Modernismo.
Uma indica??o de ter William Palha Dias se inspirado nos autores do Realismo/Naturalismo ? o seu di?logo com o leitor, ? moda Machado de Assis, no final do primeiro cap?tulo: “Portanto, ao Leitor que, por certo, e com muita raz?o, est? curioso para ouvir os debates em torno do momentoso assunto, convido a deixar, por um instante o recinto da sess?o e dar uma voltinha, tomar um cafezinho, para logo mais, voltar, quando, juntos, ouviremos os debates dos caus?dicos e do promotor, no desempenho do julgamento”.
O livro refere-se um per?odo anterior a 1979, ano de sua publica??o, coincidente com a constru??o de Bras?lia e da Barragem de Boa Esperan?a, empreendimentos citados pelo autor em sua narrativa.
Um fato curioso ? que logo ap?s serem desmascarados, os criminosos Alexandre Quixaba e Margarida Quixaba, n?o tiveram mais sequer uma fala, sendo apenas objeto de deprecia?es das autoridades policiais, judiciais e da opini?o p?blica. O estado psicol?gico dos dois incestuosos ficou oculto, cabendo ao leitor imagina-lo, mesmo na hora que receberam a condena??o m?nima prevista no C?digo Penal de ent?o para o crime de matarem, dolosamente, o pr?prio filho, que foi de seis anos de reclus?o.
Caracterizam a obra:
- Determinismo – o comportamento explicado pela influ?ncia do meio e da circunst?ncia;
- Verossimilhan?a – mais realismo aos fatos narrados;
- O homem instintivo – o instinto ? mais forte que a raz?o e a moral;
- A for?a do sexo na natureza humana;
- An?lise psicol?gica das personagens;
- A linguagem direta – sem rodeios.
S?ntese da obra:
A narrativa, estruturada em 23 cap?tulos curtos e sintetizada, desenvolve-se a partir de um julgamento hist?rico na cidade de Guadalupe, Piau?. Os irm?os Alexandre e Margarida Quixaba s?o os r?us, acusados de matar o pr?prio filho, o pequeno Edson, aos quatro meses de idade, fruto da rela??o incestuosa que houve entre os dois. O advogado de defesa, Dr. Guilherme, consegue, num feito extraordin?rio, comover os j?ri com suas cita?es b?blicas e desqualificar o crime de homic?dio doloso para culposo, angariado pena m?nima aos acusados, seis anos de deten??o.
Tematicamente verifica-se:
- A Rela??o incestuosa entre os irm?os Alexandre e Margarida;
- O crime, infantic?dio, ambos assassinam o pr?prio filho, o pequeno Edson, 4 meses de idade;
- A condena??o s?cio-moral dos indiv?duos.
Cr?ditos: F. Carvalho, jornalista, formado em Letras (UESPI) | Prof? Hildalene Pinheiro, TV Assembl?ia