Piaui em Pauta

Morre o poeta Manoel de Barros, aos 97 anos.

Publicada em 13 de Novembro de 2014 às 11h14


RIO — O escritor cuiabano Manoel de Barros morreu nesta quinta-feira, aos 97 anos. Ele foi internado no dia 24 de outubro no Proncor, em Campo Grande (MS), para uma cirurgia de desobstru??o do intestino. A causa da morte ainda n?o foi divulgada. O escritor completaria 98 anos em 19 de dezembro.

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Em agosto de 2013, quando perdeu seu segundo filho, o primog?nito Pedro, v?tima de um AVC (cinco anos depois de Jo?o, que morreu num acidente de avi?o), Manoel de Barros desabou. A filha Martha afirmou, ent?o, que depois da perda, e por causa da idade, “ele estava se apagando como uma velinha”. Uma imagem po?tica que faz jus a um personagem cuja dedica??o aos versos teve o afinco e a simplicidade de quem v? o mundo pela lente da beleza.

Nos ?ltimos anos, por conta da sa?de debilitada, praticamente n?o sa?a de casa, em Campo Grande, sob os cuidados da filha e da mulher, Stella, com quem estava casado desde 1947. No ano passado, antes de completar 97 anos, ainda escreveu o poema “A turma”, e ent?o se recolheu no sil?ncio. N?o conseguia mais escrever e se alimentava com dificuldade.

Isso n?o significava que as edi?es de seus livros estivessem no limbo. Suas obras continuam despertando a aten??o dos leitores-admiradores. Em fevereiro, a editora Leya lan?ou uma caixa com sua poesia completa, composta de 18 livros (incluindo o poema in?dito). No final de outubro, o selo Alfaguara (Objetiva) anunciou a contrata??o da obra do poeta, que come?ar? a ser reeditada no segundo semestre de 2015.

Al?m disso, dezenas de cartas que o escritor trocou com figuras como o bibli?filo Jos? Mindlin, o embaixador M?rio Cal?bria e o editor ?nio Silveira foram levantadas por pesquisadoras e, podem, no futuro, serem reunidas em livro.

Nascido em Cuiab? em 1916, Manoel era filho do capataz Jo?o Venceslau Barros. Viveu por muitos anos em Corumb? (MS), antes de se mudar para a capital sul-mato-grossense.

Ainda crian?a, passava longas temporadas na fazenda do pai, no Pantanal, onde desenvolveu o olhar para os movimentos da natureza. Engana-se, por?m, quem o v? como um “poeta do Pantanal”, r?tulo que ele sempre recusou. “A poesia mexe com palavras e n?o com paisagens”, justificava.

VISION?RIO DA HUMILDADE

Manoel foi aluno interno em escolas em Campo Grande e depois no Rio de Janeiro. Quando cursava o internato S?o Jos?, na Tijuca, descobriu os serm?es do padre Antonio Vieira, com quem aprendeu “a beleza de uma sintaxe”.

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Jovem estudante de Direito na ent?o capital federal, acabou se envolvendo com figuras comunistas da cena carioca. Mas, depois de romper com o Partido Comunista ao saber que Luis Carlos Prestes deu seu apoio ? Get?lio Vargas, desiludiu-se com a pol?tica e resolveu viajar.

Passou por Bol?via e Peru (“vivendo como um hippie”, dizia), antes de chegar a Nova York. Na cidade americana, viu “as novidades do mundo” e fez cursos de cinema e artes pl?sticas. Na volta ao Brasil, conheceu a mineira Stella no Rio de Janeiro e tr?s meses depois j? estava casado.

Mesmo sendo considerado um dos maiores autores brasileiros, comparado frequentemente a Guimar?es Rosa e ao portugu?s Fernando Pessoa, sua reclus?o por tantas d?cadas em terras pantaneiras e a timidez acabaram dificultando a divulga??o de sua obra. Nos anos 1980, admiradores famosos de seus versos, como Mill?r Fernandes e Ant?nio Houaiss, come?aram a divulgar poemas de Manoel de Barros, ou a cit?-lo em colunas de jornais.

O fil?logo, que admirava o poeta desde o seu primeiro livro, via nele um “vision?rio da humildade e solidariedade humanas”. J? Carlos Drummond de Andrade chegou a declarar que o cuiabano era o “maior poeta brasileiro” vivo. O sucesso do filme “Caramujo-flor” (1989), do cineasta sul-matogrossense Joel Pizzini, ensaio visual baseado na vida e na obra de Manoel, tamb?m respons?vel pelo reconhecimento tardio.

Com tantos elogios, Manoel come?ou a chamar aten??o das editoras e do p?blico. Ganhou dois pr?mios Jabutis (por “O guardador de ?guas”, em 1989, e “O fazedor do amanhecer”, em 2002) e teve livros publicados em Portugal, Fran?a, Espanha e Estados Unidos. Em 1998, recebeu o Pr?mio Nacional de Literatura do Minist?rio da Cultura, pelo conjunto do seu trabalho.

Sua obra mais conhecida ? “O livro sobre o nada”, lan?ada em 1996, no qual aperfei?oou o seu autodeclarado “idioleto manoel?s archaico” — uma linguagem pr?pria criada para transmitir o desregramento dos sentidos. O autor, contudo, considerava seu primeiro livro, “Poemas concebidos sem pecado”, de 1937, o melhor.

Em 1998, o autor explicou seu processo de escrita em entrevista ao GLOBO:

— Eu estou trabalhando com a palavra e a? me vem uma ideia. E por isso n?o acredito em inspira??o, acredito em trabalho.Mas sei tamb?m que transformar palavra em verso, combinar o ritmo com a resson?ncia verbal, ? um dom lingu?stico. Tenho frases po?ticas que s?o versos. Sei fazer frases.

POPULAR, MAS POUCO AVALIADO

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Embora tenha sido por v?rias vezes o poeta que mais vendeu livros no Brasil, Manoel chegou a comentar que gostaria de tamb?m ter sido mais avaliado pelos grandes cr?ticos liter?rios do pa?s, relatou a pesquisadora e professora de Letras da UFMG L?cia Castello Branco em entrevista ao caderno Prosa, em fevereiro deste ano.

O escritor ? objeto frequente da academia, por meio da realiza??o de disserta?es e teses, mas, na opini?o dela, a cr?tica deixa a desejar. Em uma reportagem do “Jornal do Brasil” de 1988, na qual era descrito como “o poeta que poucos conhecem”, Manoel explicou os motivos do seu isolamento: “N?o tenho boa conviv?ncia com a gl?ria. Acho que ela me perturbaria. Preciso muito do escuro”.

No document?rio “S? dez por cento ? mentira”, lan?ado em 2008 por Pedro Cezar, ao ser indagado sobre como gostaria de ser lembrado, Manoel ri, co?a o peito, diz que a pergunta ? cruel; j? mais s?rio, fala que o ?nico jeito ? pela poesia. “A gente nasce, cresce, amadurece, envelhece, morre. Pra n?o morrer, tem que amarrar o tempo no poste. Eis a ci?ncia da poesia: amarrar o tempo no poste”.






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Fonte: GLOBO  |  Publicado por: Da Redação
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