Publicada em 24 de Abril de 2014 às 07h26
Para especialista, modelo de UPPs entrou no "automático" e deve ser revisto logo
Imagem: Reprodu??o/BBCPara especialista, modelo de UPPs entrou no "autom?tico" e deve ser revisto logo
O caso do dan?arino Douglas Rafael da Silva Pereira, encontrado morto numa creche da favela Pav?o-Pav?ozinho na ?ltima ter?a-feira, e os protestos e confrontos violentos que tomaram duas ruas do bairro de Copacabana - resultando em mais uma morte - reacenderam o debate em torno das UPPs (Unidades de Pol?cia Pacificadora) na capital fluminense.
A 49 dias da Copa, o caso e as cenas de barricadas em chamas, tiroteios, e viol?ncia acabaram tendo grande destaque na m?dia mundial. saiba mais Cabral e Beltrame v?o a Bras?lia pedir apoio das For?as Federais em UPPs Leia mais sobre Viol?ncia no Rio
Para o soci?logo Ignacio Cano, coordenador do Laborat?rio de An?lise da Viol?ncia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, o incidente na favela Pav?o-Pav?ozinho ? mais uma evid?ncia de que o programa das UPPs est? em crise.
"O que aconteceu na Pav?o-Pav?ozinho n?o ? um caso isolado. O programa das UPPs foi recebido como a grande solu??o para o problema de seguran?a p?blica no Rio. Com o tempo, ele foi colocado no piloto autom?tico e agora temos cada vez mais ind?cios de que precisa ser reavaliado", diz.
O secret?rio de Seguran?a P?blica Jos? Mariano Beltrame afirmou que os casos de trocas de tiros no Pav?o-Pav?ozinho e em outras favelas com UPPs seriam uma tentativa do crime organizado de "banalizar" o projeto de pol?cia pacificadora.
Beltrame usou como exemplo a suspeita da pol?cia de que os confrontos no Pav?o-Pav?ozinho teriam sido iniciados devido ao retorno ? regi?o do traficante de drogas Adaulto Nascimento Gon?alves, o "Pitbull". Com apoio de uma quadrilha, o criminoso estaria realizando a?es para acabar com a tranquilidade e impor o medo entre moradores.
Dan?arino do programa Esquenta!, da TV Globo, DG, como era conhecido, morreu v?tima de um tiro, segundo informa??o da pr?pria pol?cia. A m?e do dan?arino, Maria de F?tima, diz que o corpo e os documentos do filho estavam molhados e que ouviu relatos de testemunhas apontando que ele teria sido alvo de tortura, confundido com traficantes durante opera??o da pol?cia.
"N?o descarto (a??o policial), absolutamente. Mas n?o podemos conden?-los de antem?o. V?rias hip?teses est?o sendo examinadas, precisamos de respostas t?cnicas, n?o de uma guerra de informa??o", declarou Beltrame.
O terror que se espalhou por Copacabana por mais de quatro horas na ?ltima ter?a e as rea?es e cenas do dia seguinte deixam claro, no entanto, que o clima e a din?mica de pacifica??o em algumas favelas cariocas est? longe do desejado pelo programa das UPPs, iniciado cinco anos atr?s.
Crise
Entre os ind?cios da necessidade de reavalia??o do programa de pacifica??o, como sugere o soci?logo Ignacio Cano, estariam den?ncias de abuso por parte da pol?cia em favelas ocupadas e a onda de ataques contra UPPs. H? confrontos e retomada de espa?o pelo tr?fico em comunidades importantes, como a Rocinha e o Complexo do Alem?o, e a ocupa??o do Complexo da Mar? tem sido alvo de muitas cr?ticas.
Tamb?m teve grande repercuss?o o caso do ajudante de pedreiro Amarildo Dias de Souza, que desapareceu ap?s ser levado para uma UPP na Rocinha e assassinado em julho do ano passado.
Cano explica que o formato do programa n?o ? sustent?vel a longo prazo e que, se fosse interrompido de forma abrupta, n?o garantiria a manuten??o dos baixos ?ndices de criminalidade.
"Tal como o programa est? hoje, se os policiais sa?ssem de determinadas comunidades, poder?amos ter uma revers?o dos avan?os na conten??o da viol?ncia em um curto espa?o de tempo, quest?o de semanas", diz. "At? agora tivemos um foco grande na retomada do controle territorial, mas faltaram iniciativas na ?rea de forma??o policial, por exemplo."
Outro ponto cr?tico, segundo o soci?logo, seria a falta de mecanismos institucionais para melhorar a rela??o entre policiais e moradores das favelas ocupadas.
"Hoje, essa rela??o depende do comandante da pol?cia em cada local", diz Cano. "Poder?amos ter, por exemplo, conselhos em que policiais e membros dessas comunidades discutissem juntos regras de conviv?ncia."
Para o soci?logo, ? natural que a proximidade da Copa aumente a preocupa??o das autoridades em rela??o aos ataques contra UPPs.
"Cinco anos atr?s, o que ocorreu na Pav?o-Pav?ozinho nem seria not?cia fora do Brasil", diz ele.
"Agora, n?o s? o mundo est? de olho no que acontece aqui como sempre h? a possibilidade de que incidentes como esse contribuam para ampliar o descontentamento com o problema de seguran?a p?blica e inflar protestos."
Tens?o e revolta
Um breve giro pelos arredores do Morro Pav?o-Pav?ozinho no dia seguinte aos confrontos ? suficiente para medir o clima na regi?o.
Furg?es de emissoras de TV estacionados, lixo pela rua, muitos policiais, tropas do Bope (unidade de elite da pol?cia militar carioca) subindo pela entrada do morro de tempos em tempos, com?rcio fechado e olhares apreensivos mostram que a situa??o ali est? longe da normalidade.
Vinicius, jovem morador de Ipanema que n?o quis informar seu nome verdadeiro, diz que andava de skate quando notou a confus?o vinda da dire??o da entrada do morro.
"Pouco depois de eu chegar aqui na rua, o tumulto come?ou para valer. Do morro vinham muitas garrafas de vidro e bombinhas, e os policiais revidavam com tiros de fuzil. Achei dez cartuchos depois, s? ao redor de onde fiquei encurralado, deitado embaixo de um carro, s? ouvindo tiro", diz.
Jorge, de 47 anos, nasceu e cresceu no Pav?o-Pav?ozinho. Ele v? benef?cios na pol?tica de pacifica??o, mas diz que algo mudou nos ?ltimos meses.
"Aceitamos a pacifica??o, foi uma coisa muito boa. Mas ultimamente a coisa saiu do controle. Os policiais chegam revistando com o fuzil apontado, invadem a sua casa, ? demais", conta.
Para ele, a comunidade nos ?ltimos meses tem virado "terra de ningu?m" ap?s as 22h.
Jo?o, de 47 anos, mora h? mais de dez em Copacabana, pr?ximo do acesso ao morro. Ele diz que a prova de que a situa??o na regi?o tem se deteriorado ? que apesar dos altos pre?os em outros bairros da Zona Sul, os im?veis ali t?m se desvalorizado cada vez mais.
"? um absurdo, acho que est? pior com a UPP. Eu cheguei aqui por volta de 23h, quando a coisa j? tinha se acalmado. E se tivesse chegado ?s 18h30, 19h? Quem quer voltar de um dia de trabalho e ver a rua em chamas, tiroteio e gente morta na cal?ada?", questiona.
Identificado como Edilson da Silva dos Santos, o homem morto com um tiro durante os confrontos sofria de problemas mentais e j? tinha passagem por um manic?mio judici?rio.