Piaui em Pauta

Paulo Coelho comemora 25 anos de estreia na literatura.

Publicada em 26 de Fevereiro de 2012 às 21h42


?"Estou certo de que foi um milagre", diz Paulo Coelho. H? quatro meses, o escritor de 64 anos estava ?s portas da morte. Ouviu de um cardiologista em Genebra, na Su??a, onde mora metade do ano, que tinha cerca de 30 dias de vida. N?o acreditou. Mandou os exames por e-mail para outros quatro m?dicos. Todos concordaram com o progn?stico.

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Tinha tr?s art?rias entupidas (entre 70% e 90%), e um infarto fulminante seria o pr?ximo passo de sua biografia. Naquela noite de ter?a, 29 de novembro de 2011, fez um balan?o de sua vida, enquanto virava de um lado para outro na cama que divide com a artista pl?stica Christina Oiticica.

"Estou h? 32 anos com a mulher que amo. Sou bem-sucedido numa profiss?o onde pouqu?ssimos vencem. Cometi todas as loucuras envolvendo sexo, drogas e magia negra. Parei com tudo. Viajei o mundo. Foi uma vida boa. Vou feliz."

Na manh? do dia seguinte, o escritor teve dois "stents" (arma?es de metal que estufam o vaso sangu?neo) instalados nas art?rias; a terceira foi apenas desobstru?da. "Em dois dias voc? pode jogar golfe", felicitou-se o m?dico. Mas n?o ? aqui que est? o milagre.

Em setembro do ano passado, sua agente liter?ria h? 22 anos, M?nica Antunes, perdeu o pai, v?tima de ataque card?aco. Por isso, ela insistia que ele marcasse um teste de esfor?o na esteira. Ele disse que jamais o faria. Mas, dois meses depois, foi ao dermatologista, em Genebra, checar um pequeno problema na pele das m?os e comentou o assunto. Por acaso, um cardiologista de renome tinha seu consult?rio na porta vizinha. Bateu na porta e fez o teste de esfor?o no mesmo dia. As obstru?es nas art?rias foram constatadas e a cirurgia, realizada 40 horas depois.

Para um ateu, um agn?stico ou um niilista, o par?grafo acima n?o passa de uma s?rie de acontecimentos sem liga?es entre si, de uma enorme coincid?ncia, de pura sorte. E ? a? que est? a ess?ncia de Paulo Coelho: "Eu acredito". Ponto.

BODAS DE PRATA

Paulo Coelho vive dessa maneira: levando esses sinais a s?rio, como se fossem colocados no seu caminho. Assim, a fala de um motorista de t?xi assume em seus ouvidos a voz de um anjo que veio dar um toque: "Hoje n?o ? um bom dia para caminhar por a?". O trope?ar no fosso seco de um castelo franc?s ? venda significa, para ele, um conselho divino: "N?o compre o im?vel, mesmo com essa bela ponte levadi?a". E se submeter a um teste de esfor?o que lhe salvou a vida, quando estava t?o precisado e jamais pensaria em faz?-lo, bem, isso ? um "milagre".

"Deus n?o queria que eu fosse naquele momento." Simples assim. E, ent?o, para horror de seus cr?ticos, ligou o computador (PC) e, entre o fim de janeiro e o in?cio de fevereiro, escreveu um novo livro em apenas uma semana. Ainda sem nome, ? a 21? obra de sua carreira liter?ria, iniciada em 1987 com "O Di?rio de um Mago" --que agora completa 25 anos. ? por conta desse anivers?rio que recebeu a Serafina em seu apartamento su??o.

Paulo Coelho, vivendo de acordo com essas dicas celestiais, pode passar a impress?o de ser um homem simpl?rio ou mesmo ignorante. Mas n?o ? assim. Ele fala quatro l?nguas (portugu?s, espanhol, franc?s e ingl?s), ? vencedor de pr?mios liter?rios ?s dezenas, membro eleito da Academia Brasileira de Letras desde 2002, cavaleiro da Legi?o de Honra da Fran?a e, n?o menos importante, ex-parceiro de Raul Seixas!

Tampouco ? alienado: passa as tardes lendo sobre pol?tica internacional na internet e anda empolgad?ssimo com o livro "The Operators: The Wild and Terrifying Inside Story of America's War in Afghanistan" (algo como "Os Operadores: A Hist?ria Selvagem e Aterrorizante dos Bastidores da Guerra Americana no Afeganist?o", n?o publicado no Brasil).

Escrita por Michael Hastings, a reportagem derrubou o chef?o das for?as militares norte-americanas no Afeganist?o, general Stanley McChrystal, ao descrever seu dia a dia arrogante e suas cr?ticas ao governo.

A verdade ? que, seguindo esse caminho esot?rico, Paulo Coelho se tornou o maior escritor brasileiro de todos os tempos. N?o o melhor, mas o maior: o que mais vende livros (140 milh?es, at? outubro passado), o mais famoso (lan?ado em 160 pa?ses), o mais traduzido (73 l?nguas), o mais celebrado (tem 10,5 milh?es de seguidores no Facebook e no Twitter).

"Menos, ? claro, para a cr?tica brasileira", diz, em frente a um retrato seu e de sua mulher, pintado pelo tamb?m altamente criticado Romero Britto. "Eu sobrevivi ? cr?tica, mas ela n?o sobreviveu a mim. Estamos passando por um per?odo ?nico, do qual poucos se deram conta. Como no Renascimento, uma inova??o tecnol?gica est? mudando tudo. L?, foram os tipos m?veis de Gutenberg que permitiram que as ideias viajassem. Agora ? a internet, e os formatos t?m que se adaptar a ela. Hoje, um livro ? julgado por leitores nos sites das livrarias, por exemplo. A cr?tica especializada perdeu a relev?ncia."

NAS NUVENS

Milion?rio h? cerca de 15 anos, h? seis o escritor comprou seu pr?prio avi?o, um Cessna de oito lugares, para comparecer aos lan?amentos que faz em todo o mundo. Fumante convicto, apesar de leve (seis cigarros por dia), a primeira coisa que quis saber era se poderia dar baforadas ali dentro. "Bem, o avi?o ? seu. Pode fazer o que quiser", informaram-lhe.

E ele faz muita coisa que quer, como praticar arco e flecha no terra?o de seu apartamento genebrino, apesar das reclama?es do s?ndico. E n?o faz de jeito nenhum o que n?o quer, como almo?ar (ele s? toma caf? da manh? e janta) ou fazer ventar/chover a pedido da Serafina. "Eu posso, mas n?o quero", diz ele. "Posso realizar coisas mais impressionantes que essas, mas n?o vou contar. Se eu falar, s? ir?o me perguntar isso daqui para a frente."

Diz que h? 25 anos foi importante divulgar tais feitos na ?rea da magia porque isso "ajudou a mostrar que havia um escritor ali, desconhecido". N?o precisa mais disso. "Ventar n?o ? um poder sobrenatural, ? educa??o mental. Somos muito bloqueados pela necessidade de respostas, mas o mundo n?o est? a? para responder. A magia ? a ponte entre o vis?vel e o invis?vel, mas ? preciso ousar atravess?-la."

Rituais m?gicos, poderes mentais, sensibilidade esot?rica, tudo isso faz com que as pessoas confundam o peregrino com uma esp?cie de santo. N?o no sentido religioso, mas no de um homem superior que d? a outra face quando ? agredido. "N?o sei de onde tiraram isso", reclama. "N?o sou santo nem humilde." ? um cara normal, talvez at? um tanto vingativo, pode se dizer.

Uma hist?ria recente ilustra isso. H? 25 anos, Paulo Coelho come?ou sua carreira liter?ria e, h? 25 anos, guarda tudo o que foi escrito por e sobre ele. Primeiro eram recortes de jornais amarelados, depois microfilmes empoeirados e ent?o tudo foi digitalizado. "Agora, est?o na nuvem", conta. Estar na nuvem significa que todo esse material est? num computador central que pode ser acessado de qualquer lugar do mundo.

S?o 40 gigas de textos, entrevistas para a TV e, principalmente, cr?ticas contra seus livros. "Acredito que a pessoa deve ser respons?vel pelo que diz ou escreve. Por isso, quando algu?m me pede um favor, mando fazer uma busca. H? pouco, um escritor quis meu voto para que ele fosse eleito na Academia Brasileira de Letras. Descobri na nuvem que ele havia falado mal de mim h? 20 anos, num pequeno jornal. Respondi que n?o votaria em seu nome."

Moral da hist?ria, ditada pelo maior escritor brasileiro de todos os tempos, Paulo Coelho em pessoa: "Ame seu inimigo. Mas mantenha sua lista negra atualizada".

Tags: Paulo Coelho - Literatura

Fonte: folha.com  |  Publicado por: Da Redação
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