
?O atacante Emerson ? dentro de campo um resumo do que viveu em quase 20 anos de carreira. Aprendeu desde cedo que n?o existe apenas um caminho ou uma chance. Nasceu Marcio, virou Emerson para conseguir ser jogador. Vasca?no na inf?ncia, fez juras de amor ao Flamengo. Nesta quarta-feira, ter? mais um exemplo disso. Idolatrado no Corinthians, ele ser? a principal arma do Tim?o no primeiro cl?ssico contra o S?o Paulo na hist?ria da Ta?a Libertadores. Sem o Tricolor, Sheik, talvez, n?o existisse.
O S?o Paulo apareceu em um momento determinante da vida do jogador. Com 18 anos, j? n?o acreditava que pudesse vingar no futebol e via as portas se fecharem. Foi ent?o que Carmem L?cia, m?e dele, decidiu em 1996 dar uma cartada final para que o sonho do filho e da fam?lia se realizasse. Marcio Passos de Albuquerque, nascido em 6 de dezembro de 1978, virou Marcio Emerson Passos, registrado em 6 de setembro de 1981.
- Na verdade, a minha ida pra l? (S?o Paulo) j? foi com o documento falsificado. Sabe, aquelas pessoas que aparecem na sua vida com intuito de ajudar... Mas que fique claro: n?s sab?amos. N?o estou dando uma de santo, n?o - afirmou Emerson, em entrevista ao Esporte Espetacular que foi ao ar em julho de 2013.
Carmem L?cia afirma jamais se arrependeu de ter providenciado a certid?o de nascimento falsa.
- Ele chegou um dia com os olhos cheios de l?grima e disse: "Poxa, perdi minha oportunidade porque n?o tenho mais idade". A?, eu fui e fiz a segunda certid?o. N?o me arrependo. Eu me arrependeria se tivesse deixado o meu filho na rua - disse, tamb?m ao Esporte Espetacular.
Com tr?s anos a menos na certid?o de nascimento, o garoto viu a carreira decolar. Levado ao S?o Paulo pelo ex-lateral-direito Cl?udio Guadagno, foi rapidamente aceito pelo clube ap?s passar pela avalia??o de Milton Cruz, ex-t?cnico da equipe sub-20 e hoje auxiliar de Muricy Ramalho no time profissional. Em clara vantagem f?sica e t?cnica sobre os outros meninos, virou uma estrela das categorias de base do Tricolor.
No fim de tudo, ganhamos mais um grande jogador para o pa?s. Foi o “gato” do bem"
Pita, t?cnico de Emerson na base do Tricolor
– Ele sempre gostou de aparecer em jogos decisivos, de fazer gols importantes. Era um jogador diferente – afirmou Pita, craque do S?o Paulo nos anos 80 e treinador de Emerson nas divis?es inferiores do clube.
O ?timo futebol chamou a aten??o tamb?m da diretoria. Emerson era visto como uma joia pela c?pula do clube, algu?m que traria milh?es de d?lares aos cofres em pouco tempo. A expectativa era tanta que o colocava acima at? mesmo de Kak? na proje??o feita pela dire??o sobre quem vingaria no futebol.
– O Emerson se destacava muito mais que o Kak?. Claro, hoje, sabemos que aquilo acontecia tamb?m pela idade. O Kak? sempre foi um craque, mas n?o tinha a for?a do Emerson. Ele fazia toda a diferen?a na base, pegava a bola no meio de campo e parava dentro do gol. Era impressionante – recordou Pita.
O sucesso, por?m, gerou muita desconfian?a entre os pr?prios companheiros de base. Apelidado de “Carioca”, Emerson deixava os outros meninos perplexos com tanta habilidade e capacidade de improviso.
– Um ano a mais ou a menos na base faz diferen?a. Ele era muito bom jogador e, com essa mudan?a (de idade), ficou ainda melhor. Todo mundo brincava com ele por causa disso. Ele parecia ser muito mais experiente do que todos n?s – disse um ex-companheiro que pediu para n?o ser identificado.
Os deslizes fora de campo, comuns na carreira do jogador, come?aram l? atr?s. Se Tite fez "vistas grossas" para in?meros atrasos a treinamentos no CT Joaquim Grava, Pita fez o mesmo quando o atacante n?o passava de apenas uma promessa. Mesmo com as falhas, seguia em alta com os companheiros, como agora.
- N?s jog?vamos no s?bado de manh? e avis?vamos que a reapresenta??o era na segunda. O Emerson chegava na quinta. N?s tent?vamos explicar que n?o poderia ser daquele jeito. Mas ele era muito querido pela molecada. Eles mesmos pediam para coloc?-lo no time e a? fazia dois, tr?s gols... – relembrou o ex-treinador
Todo o sucesso como o prov?vel sucessor de Denilson levou preocupa??o ? diretoria. O S?o Paulo desconfiava que Emerson havia falsificado os documentos para diminuir a idade, mas n?o conseguiu comprovar o “gato”. No dia 26 de setembro de 1998, aos 17 anos, ele estreou pelo time profissional ao entrar no lugar do centroavante Dod? no empate por 0 a 0 contra o Flamengo, no Morumbi, pelo Campeonato Brasileiro.
As chances voltaram a aparecer no ano seguinte, j? com Paulo C?sar Carpegiani no comando da equipe. Depois de um treino dos juniores no CT da Barra Funda, o treinador decidiu promov?-lo de vez ao grupo principal. Mas com um detalhe: para atuar como lateral-direito, fun??o na qual nunca conseguiu se adaptar.
Como atacante, marcou dois gols pelo Tricolor: um na goleada por 5 a 1 sobre o Atl?tico-MG, no Morumbi, em 25 de julho de 1999 (veja v?deo abaixo), e outro na derrota por 3 a 2 para o Santos, na Vila Belmiro, tr?s dias depois.
A desconfian?a do S?o Paulo com a idade de Emerson aumentou logo em seguida. O clube perdeu os tr?s pontos de uma vit?ria sobre o Botafogo depois que ficou comprovada a falsifica??o nos documentos do tamb?m atacante Sandro Hiroshi. Com o temor de receber uma outra puni??o, o Tricolor decidiu negociar Emerson com o Consadole Sapporo, do Jap?o, mesmo sem ter a certeza da falsifica??o nos documentos.
Emerson chegou ao Oriente como desconhecido, mas rapidamente virou um dos destaques do futebol no pa?s. Tanto que entrou na mira de ningu?m menos que Zico, interessado em lev?-lo para o Kashima Antlers. No entanto, o S?o Paulo j? havia vendido os direitos dele e as conversas n?o avan?aram – Sheik atuou depois pelo Kawasaki Frontale e Urawa Red Diamonds.
Emerson se despediu do S?o Paulo com 19 jogos e dois gols marcados (sete vit?rias, tr?s empates e nove derrotas). O n?mero, por?m, poderia ter sido maior. O crime de falsidade ideol?gica s? foi descoberto em 2006, quando o jogador ainda n?o era famoso. Ele tentava embarcar no Rio de Janeiro para o Qatar, onde jogou entre 2005 e 2009, quando foi detido pela Pol?cia Federal. A princ?pio, o atacante foi condenado a tr?s anos e nove meses de pris?o, mas a pena acabou convertida em multa e presta??o de servi?os comunit?rios.
Em 2010, chegou a visitar os vesti?rios do Tricolor no Morumbi ap?s receber o aval do presidente Juvenal Juv?ncio para ser contratado. Acabou no Fluminense, convencido pelos milh?es de reais investidos pela antiga parceira do clube.
Aos 36 anos (de verdade), Emerson vai reencontrar o clube que lhe deu aquela que poderia ser sua ?ltima chance no futebol. Quase 20 anos depois de praticamente salvar a carreira de um dos jogadores mais pol?micos do pa?s, o S?o Paulo tentar? par?-lo nesta quarta-feira.
– A idade adulterada n?o dizia nada. Voc? colocava o Emerson no juvenil, no j?nior ou no profissional e ele sempre desequilibrava. No fim de tudo, ganhamos mais um grande jogador para o pa?s. Foi o “gato” do bem – resumiu Pita.