Novo presidente do PP defende apoiar reeleição de Dilma.

Publicada em 13 de Abril de 2013 às 14h49 Versão para impressão

Cortejado por todos os principais partidos que tentam chegar ao Palácio do Planalto, o novo presidente do PP (Partido Progressista), o senador pelo Piauí Ciro Nogueira, declara-se pessoalmente favorável a uma aliança formal entre o seu partido e o PT para sustentar a reeleição da presidente Dilma Rousseff, em 2014.

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Aos 44 anos, mas já com uma longa carreira política (quatro mandatos de deputado federal antes de ir para o Senado), Nogueira faz uma ressalva sobre a necessidade de unificar o partido. Em entrevista ao Poder e Política, programa da Folha e do UOL, ele reconheceu que hoje a situação é desfavorável para que o PP dê o seu tempo de TV e rádio para Dilma usar na campanha pela reeleição.

Só não deixa dúvida sobre sua preferência pessoal: "Eu defendo o apoio à presidente Dilma". É um posicionamento muito diferente da neutralidade mantida pelo ex-presidente do PP, senador Francisco Dornelles, do Rio, quem em 2010 manteve a sigla neutra na disputa presidencial.

Ciro Nogueira não deseja hostilizar a ala anti-PT do seu partido e contrária ao apoio oficial à reeleição de Dilma, mas está empenhado na construção de um consenso que possa resultar na aliança em 2014.

O fato de o PP comandar o Ministério das Cidades não implica em uma aliança automática, pois essa também era a conjuntura em 2010. O que poderá mudar o cenário é um processo de consulta aos diretórios da sigla nos Estados.

Para Ciro Nogueira, a presidente da República e o PT terão de se esforçar para oferecer ao PP algum tipo de acordo que não sufoque o PP nas disputas por vagas no Congresso e em algumas eleições de governadores.

"O PT, historicamente, é um partido que não costuma apoiar candidatos de outros partidos. Nós estamos precisando também de gestos do outro lado", diz o presidente pepista.

O problema para esse acordo de apoio mútuo é que o PP tem como prioridade dois Estados nos quais o PT também deve ter candidato próprio ao governo: Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Nesse caso, seria necessário firmar um pacto de não agressão e garantir que Dilma Rousseff se mantenha equidistante nessas disputas.

O PP é o herdeiro direto da Arena (depois renomeada como PDS), legenda de sustentação da ditadura militar (1964-1985). Embora a sigla já tenha feito acordos regionais com o PT, o acerto nunca foi reproduzido eleitoralmente em nível nacional.

O PP apoiando o PT e Dilma em 2014 seria o fechamento completo do ciclo da redemocratização, com a união formal das duas forças mais antagônicas da fase final da ditadura militar.

Se embarcar no projeto reeleitoral de Dilma, o PP sufocará ainda mais os presidenciáveis que tentarão concorrer contra a atual presidente.

No campo ideológico, o PP deseja ser o "partido conservador" do Brasil. Ciro Nogueira acredita que "há um vácuo" no país que pode ser ocupado pela legenda.

Fala sem ressalvas que defende menos impostos e menos presença do Estado na economia. É a favor de endurecer as penas até para usuários de drogas. Não deseja flexibilizar a lei do aborto. Quer reduzir a maioridade penal. Declara-se contra a Comissão da Verdade.

A seguir, trechos da entrevista:

Folha/UOL - O PP hoje tem 37 deputados federais, 5 senadores e nenhum governador de Estado. Qual é a meta do PP para 2014?

Ciro Nogueira - Atingir mais de 10% da Câmara dos Deputados, em torno de 51 deputados. Também 10% do Senado Federal e atingir uma marca em torno de 15% dos governadores do país.

Quantos governadores espera eleger?

Eu acho que temos hoje em torno de 4 a 5 candidatos favoritos.

Poderia citar quais?

No Rio Grande do Sul, com a senadora Ana Amélia, que tem se tornado um dos melhores quadros que nós no Congresso Nacional. O vice-governador de Minas Gerais, Alberto Pinto Coelho, que deve assumir [o governo] com a saída de Antonio Anastasia. O senador Ivo Cassol, que é favoritíssimo em Rondônia. Benedito de Lira, em Alagoas. Em Santa Catarina ainda não tem a definição do candidato, mas nós teremos candidato próprio. O Piauí deve ter um candidato. Hoje existe a expectativa de vir para os quadros [do PP] o ex-prefeito [de Teresina] Sílvio Mendes, que teria amplas condições de ganhar.

Nós estamos em busca, em outros Estados, de nomes que possam fortalecer o PP nessa disputa. É a grande meta. Não adianta você ter uma copa florida se as nossas raízes estiverem rasinhas. Nós só podemos crescer muito -um grande exemplo é o PSB- por conta da eleição de governadores. Hoje o Eduardo Campos [presidente nacional do PSB e governador de Pernambuco] tem alguma visibilidade, tem condições de musculatura para disputar o cargo de presidente da República, por conta das eleições de governadores.

O PP tem o Ministério das Cidades. Deveria ter mais?

Todo partido quer mais. Mas, no meu entender, nós temos uma base grande de partidos [no governo]. O partido está satisfeito com o tamanho que ocupa no diz que respeito a ministérios.

A última vez que o Partido Progressista, o PP, teve um candidato à presidente foi há 19 anos, em 1994, com Esperidião Amin. Depois, nunca mais. No ano que vem, em 2014, o PP terá candidato à presidente?

Não.

Vão se completar 20 anos sem candidato à presidente. Há um projeto a respeito?

Essa é a minha grande meta para 2018. Mas isso passa pela eleição de governadores. É um processo até semelhante, como eu falei, ao PSB. Nós temos que eleger governadores para dar musculatura. Passa, também, pela concepção de bandeiras políticas que, ao longo do tempo, nós fomos perdendo e temos que voltar a ter essas bandeiras. Nos firmarmos com esse partido, ocuparmos esse espaço que existe, esse vácuo hoje na política brasileira. E a nossa grande meta é ter um candidato [a presidente] viável para 2018.

Em 2010, o PP teve um posicionamento tímido na eleição presidencial. Embora participasse com um ministro no então governo Lula, decidiu não apoiar a candidatura de Dilma Rousseff e nenhum outro candidato. Em 2014, qual é a tendência do PP em relação à eleição presidencial? Ficar neutro ou tentar buscar um posicionamento a favor de um candidato?

É uma discussão que nós vamos travar a partir de agora. Essa discussão não aconteceu em 2010.

Por que não aconteceu a discussão?

É porque as lideranças do partido achavam que ela não devia acontecer. Existiam muitos conflitos. O partido acabou ficando neutro.

Preferiu nem fazer a discussão interna?

Exatamente. Naquela época não aconteceu. Agora, não. Nós vamos passar por esse processo.

Como vai ser o processo?

De discussões Estado por Estado visando aos interesses estaduais. Aumentar essa discussão que nós temos hoje no partido de incorporar bandeiras do atual projeto da presidente Dilma Rousseff. Nós temos que ter bandeiras importantes. O Ministério das Cidades vai conduzir uma área importante, que terá um grande crescimento na área de saneamento no país.

Em 2010, o PP preferiu ficar neutro. Mas não parece ao sr. um pouco anormal um partido que participa do governo chegar na hora da eleição e não apoiar oficialmente esse mesmo governo?

Eu acho. Mas nós temos que respeitar as questões estaduais. Nós temos algumas peculiaridades. Em Minas Gerais, nós temos uma aliança histórica com o PSDB. No Rio Grande do Sul, o principal adversário do partido é o PT. Em Santa Catarina... Nós temos que respeitar.

O que seria do PP sem o Rio Grande do Sul, que é o nosso diretório mais forte, mais consistente? Agora, eu acho que tem que haver a discussão.

O grande diferencial que vai acontecer em 2014 é que nós vamos trazer essa discussão. Eu acho que está na hora de o partido incorporar programas importantes que são comandados [pelo PP] para criar uma vinculação nacional com esse projeto da presidente Dilma.

Como assim? Por exemplo...

Por exemplo, o PP conduz o principal programa que é o PAC. O programa habitacional que foi o maior programa da história deste país, o "Minha Casa, Minha Vida". Nós temos que incorporar. Se tiver uma identificação partidária com o projeto da presidente Dilma Rousseff, pode ser que, lá na frente, nós estejamos juntos.

Nós não podemos apenas estar com a presidente Dilma porque temos um cargo. Não. Se nós tivermos um projeto de identificação que seja comandado pelo partido em nível nacional, e essa bandeira esteja identificada com o partido, aí fica muito mais fácil de você convencer -em nível de uma convenção- os filiados que nos Estados são contra a estarem juntos.

O sr. acha que hoje o acordo eleitoral nacional PP-PT é exequível, porém é incerto no momento?

Totalmente incerto. Nós não temos posicionamento nenhum ainda.

O que é certo no momento é que a discussão...

...Vai acontecer Estado por Estado. No meu Estado, eu não teria problema nenhum. No Piauí, a nossa tendência é apoiar a reeleição da presidente Dilma Rousseff. O PT é nosso tradicional adversário lá, poderíamos ter dois palanques, não tem problema. Mas no Sul, por exemplo, não aconteceria isso.

Não seria tão natural...?

Não é natural. Então, nós temos que respeitar essas situações de cada Estado.

Essa fase de consultas aos Estados e as decisões em nível local começam a ser tomadas quando?

Nós estamos criando um grande conselho comandado por uma pessoa que é contra o apoio à presidente Dilma Rousseff, que é o vice-governador [de Minas Gerais] Alberto [Pinto Coelho]. Um conselho de candidatos a governador que irá opinar...

É um conselho interno do PP?

É. Ele [Alberto Pinto Coelho] vai ser o presidente desse conselho interno de candidatos.

O fato de Alberto Pinto Coelho, vice-governador de Minas, ser contra a aliança no plano federal eleitoral [com o PT] já não indica que...

...Não, não. Até porque... Da mesma forma se eu dissesse que, eu sou a favor [da aliança com o PT], iria implicar de o PP apoiar [o PT]. Não, de jeito nenhum. É apenas uma instância que vai ser ouvida.

Esse conselho será composto por quantos integrantes do PP?

Candidatos a governador. Todos.

Serão convidados a participar do conselho?

Exatamente.

E esse conselho tem que finalizar o processo?

Aí é na convenção partidária.

Só em julho do ano que vem [2014]?

Acredito que até lá é lógico que é difícil o partido político que não já chegue com essa situação já definida dessas discussões. Mas o início é agora. Mas consolidar isso vai ser na convenção. Até lá, é um processo de construção.

Mas a sua expectativa era que pudesse ser...

Eu gostaria que no início do ano já tivesse...

...No início de 2014?

É. Nós teríamos essa discussão por todo o período de 2013.

E em janeiro ou fevereiro de 2014 pudesse ter uma posição?

Exatamente. Era o ideal.

O sr. está dizendo que a sua posição pessoal poderia ser de apoiar oficialmente a reeleição da presidente Dilma?

Exatamente.

O sr. tem uma noção hoje da posição dos 26 Estados e do Distrito Federal? A divisão é mais ou menos para qual lado?

Hoje contra o apoio.

Mas em que número?

A maioria de candidatos a governador eu acho que seria contra. Mas é uma situação que nós ainda vamos ouvir. Aqui é muito no 'achismo'. Pelo pouco que a conversamos ontem [11.abr.2013] na convenção. Mas é uma discussão e um debate interno que ainda vai acontecer, até porque essas pessoas que estão com esse posicionamento, às vezes, não têm os instrumentos necessários para fazer essa avaliação. São discussões em que vão se colocar posições divergentes para que se tome uma posição com muito mais consistência.

O sr. vai trabalhar para que o partido fique pacificado...

Totalmente.

Mas vai trabalhar também defendendo alguma posição. Qual posição?

Eu defendo o apoio à presidente Dilma. Essa é uma posição do diretório do Piauí e do senador Ciro. Mas se eu achar que, para o futuro do partido, para o crescimento do partido, não é interessante o apoio à presidente, eu serei contra esse apoio lá na frente.

A presidente Dilma pode ajudar também nesse trabalho de convencimento? Como?

Eu acho que é identificando, dando condições para que o partido possa se identificar com a sua administração. Como eu falei, há quatro anos, o Ministério das Cidades não era um ministério que pudesse dar visibilidade a um partido. Praticamente, o ministro se tornava um secretário-executivo da Casa Civil. Hoje, não. Hoje o ministro é um homem de confiança da presidente. E eu acho que nós podemos identificar e criar, como bandeira de partido, os projetos mais importantes do atual governo.

Mas o que a presidente Dilma, ela própria, poderia fazer objetivamente para ajudar o PP a construir uma posição a favor dela na eleição?

Aumentando esse prestígio político do ministro das Cidades.

Mas de que forma?

Dando visibilidade ao seu trabalho. Dando condições para que ele possa, como bandeira política, como atuação partidária, defender todos esses projetos que são os mais importantes do seu governo.

Ela deveria chamar para conversar os líderes do PP estaduais também?

Lógico. Mas passa por um processo também de aproximação com as bases do partido. O PT, historicamente, é um partido que não costuma apoiar candidatos de outros partidos. O PP, na última eleição, talvez tenha sido o partido mais fiel [ao PT] em eleições complicadíssimas. Eu dou um exemplo: em São Paulo, nós apoiamos o Haddad. Em Pernambuco, fomos o único partido que foi capaz de enfrentar o todo poderio de Eduardo Campos para ficar ao lado do PT. Então, nós estamos precisando também de gestos do outro lado.

Do PT?

Do PT. Isso não tem ocorrido nos Estados.

O PT poderia ajudar, eventualmente, apoiando algum candidato a governador do PP?

Exatamente.

O sr. imagina onde? Os dois Estados que o sr. citou são difíceis -Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Ou não?

É verdade. Não é fácil. Mas são situações que nós estamos precisando de gestos. Quem iria acreditar na candidatura do Haddad quando ele iniciou, quando ele estava patinando? E, principalmente, nós entramos lá em Pernambuco na eleição [para prefeito do Recife] sabendo que era radicalmente difícil pelo poderio do Eduardo Campos. E nós ficamos ao lado do PT. Nós precisamos de gestos de aliados em momentos difíceis. Não é no momento em que você é favorito.

O sr. acha possível o PP apoiar algum candidato a presidente em 2014 que não seja a presidente Dilma?

Possível é. Não tem posição fechada.

Mas ficaria com o Ministério [das Cidades] nesse caso?

Não.

Aí teria que sair do Ministério?

Teríamos que sair do Ministério.

No leque das possibilidades, qual a viabilidade dessa opção eleitoral?

Pequena.

É isso?

Muito menor. Mas tem pessoas que defendem isso. E nós temos que respeitar. Então, é uma situação que ainda vai ser construída. Nós não temos hoje uma posição firmada quanto a isso. Agora, tudo é possível.

Como tem sido o PP ideologicamente nos últimos anos?

Acho que o partido tem perdido, nos últimos tempos, algumas bandeiras que eram históricas do partido.

Por exemplo?

A bandeira do agronegócio, da livre iniciativa... Eu acho que o Partido Progressista é um partido conservador. O meu grande desafio é levar essa bandeira. Para termos uma bandeira e um projeto nacional.

Nosso grande desafio é passar por um processo de crescimento de governadores em 2014 para buscar ser uma alternativa para o país em 2018.

Eu considero o PP um partido de centro, um centro móvel. E eu acho que hoje nós temos que buscar as soluções em todos os setores. Elas não estão em um lugar só.

O PP é a favor de mais ou menos impostos na economia brasileira?

Radicalmente menos. Radicalmente. A grande divergência, hoje, que eu tenho ideológica com o Partido dos Trabalhadores é o tamanho do Estado.

Nós temos hoje um Estado que nós temos que diminuir o seu tamanho, inchaço, a quantidade de ministérios. A diminuição do Estado, fatalmente, passa pela diminuição dos impostos. Nós temos uma das maiores cargas tributárias do mundo e um Estado ainda muito ineficiente.

O sr. é a favor do casamento gay?

Olha, eu respeito toda essa discussão. Eu acho que o correto seria ter a união estável entre homem e mulher, o casamento. Tem que respeitar. Mas eu também defendo que tenha que se respeitar todas essas pessoas que são contra. Eu acho que existe muito sectarismo na hora dessa defesa.

Mas e o partido? O sr. acha que o partido deveria se posicionar sobre isso?

Não. Eu não acho que isso é uma questão partidária. Isso é uma questão pessoal de cada um. Eu mesmo sou favorável a união estável.

Entre pessoas do mesmo sexo?

Eu acho. Nós temos que respeitar isso. Isso aí é um desejo individual que ninguém tem que interferir. Mas isso não é questão partidária. Partido político não tem que se envolver nisso.

É a favor de Marco Feliciano à frente da Comissão de Direitos Humanos [e Minorias] da Câmara?

É um direito dele. Ele foi legitimamente eleito. O seu partido tinha direito. Eu sou contra, radicalmente contra, destituí-lo.

Não seria melhor alguém equilibrado ali?

Aí, sim. Aí eu acho que era o correto. Eu acho que era o correto alguém que não tivesse nenhum tipo de extremismo.

O que acha de liberalização de drogas leves?

Eu sou radicalmente contra.

Por quê?

Hoje, os pequenos traficantes estão com pequenas quantidades de drogas. Quando são presos, dizem que são usuários e acabam revertendo a pena em uma advertência. Eu acho que nós temos que criminalizar. Eu sou radicalmente favorável a manter e aumentar a criminalização.

Mesmo para quem seja portador de pequenas quantidades?

Esse tipo de situação está sendo utilizada pelos traficantes.

E no caso do usuário realmente comprovado? De fato, só um usuário. Ele tem que ser criminalizado?

Eu acho que tem que ser criminalizado porque esse consumo dele não está afetando só a vida do usuário. Está afetando a vida de milhões de brasileiros que estão à mercê de um problema tão grave que tem afetado a vida das pessoas.

O PP tem posição sobre isso?

Não. É um debate...

O sr. acha que o PP deveria ter posição sobre isso?

Isso, claro. É isso que eu estou falando. Acho que está na hora de os partidos políticos terem coragem de assumir algumas posições e algumas discussões. Eu me propus, como candidato à presidente do partido, a levar essas discussões, discutir nos Estados, para que o PP tenha clareza disso. Isso aqui que eu estou falando, mas eu assumi um mandato ontem [11.abr.2013]. Mas eu não posso ainda colocar como posição partidária até porque eu não ouvi isso.

O sr. enxerga para o PP um espaço não ocupado nesse campo do conservadorismo?

Eu acho. Essa questão sempre foi colocada como se esses partidos fossem ligados ao quê? À corrupção, à ditadura. Não tem nada a ver. Eu acho que nós temos algumas bandeiras e temos que ter coragem de defender.

Redução da maioridade penal: o seu partido já tem posição ou vai ter?

Não. É uma discussão que eu quero trazer ao partido.

O sr. é a favor?

Sou radicalmente favorável a isso.

Como seria o ideal nesse caso?

Eu tenho uma posição muito parecida com a do governador [Geraldo] Alckmin [de São Paulo]. Um garoto de 16 anos hoje não é mais o mesmo de 30 anos atrás. Não tem a mesma ingenuidade... Nem a mesma habilidade de se ter... Ficar com esse escudo. Você sabe que é costume você ver quadrilhas que têm lá um garoto já para assumir o crime. Acho muito complicado você [não] prender uma pessoa que vai completar 18 anos na próxima semana... Ele cometer um crime e já ficar liberado. Eu acho que nós temos que ter penas mais longas.

O PP assumirá posições programáticas sobre esses pontos?

Eu vou trazer esse debate interno.

Gostaria que isso acontecesse?

Gostaria que houvesse um debate interno e é lógico que eu mesmo tenho um projeto...

É uma agenda clássica conservadora?

Exatamente. Eu tenho um projeto como senador para isso. Não é agora. Eu assumi o mandato [de presidente do PP] ontem [11.abr.2013]. Não posso chegar como posição do partido até porque eu não ouvi o partido.

Mas é o seu desejo?

O meu desejo é trazer essa discussão. E o partido se posicionar contra isso.

Nessa agenda estão a redução da maioridade penal e a criminalização mais pesada do uso e comercialização de drogas?

Nessa agenda, especificamente, é isso.

Formou-se um vácuo no entre os partidos políticos da esquerda para a direita? Ninguém assumiu essa posição? O sr. acha que o PP pode assumir esse figurino de partido mais tradicional conservador com esses valores?

Eu acho que nós podemos. Existe um vácuo muito grande. Eu acho que a sociedade brasileira é conservadora no meu ponto de vista. Eu acho que essas questões de direita e de esquerda são mais marketing partidário do que prática política.

Como o sr. definiria o PSDB?

O PSDB, que iniciou como um partido mais para a esquerda, foi empurrado eleitoralmente para ocupar esse vácuo aí.

Mas o PSDB não assume todas essas posições...

Ele foi empurrado eleitoralmente. Porque ficou o vácuo. Eu acho que ficou um vácuo e o eleitorado ficou sem um partido que representasse isso.

Liberalização da prática do aborto. O sr. é a favor ou contra?

Eu sou contra. É um debate que nós temos que enfrentar. O que acontece no país? Por conta de ser proibido, nós não discutimos esse tema. Vamos fazer um debate e ajudar as pessoas. Evitar esse tipo de comportamento, não apenas proibir.

É uma coisa radicalmente diferente da questão do uso da droga. Porque isso [o aborto] não afeta a sociedade, afeta a pessoa em si. A maior prejudicada nisso é a mãe. A mãe que vai fazer um aborto não deseja aquilo. Às vezes, acontece uma concepção indesejada. Isso é falta de educação, principalmente em crianças. Hoje, a partir de 12 anos de idade nós já vemos pessoas engravidando. Falta educação. Esse é um aspecto. Outro aspecto, depois, é a questão mesmo de quando a pessoa já atinge um certo estágio na vida, de um pouco mais de responsabilidade.

O que o sr. acha que seria razoável?

Eu sou contra o aborto. Vamos criar políticas para evitar que as pessoas tenham filhos que as levem a abortar. Campanhas de prevenção, de apoio a essas pessoas para que elas possam criar seus filhos.

Nesse caso, acha que o PP deveria ter uma posição partidária?

Acho.

Para resumir: posso definir o PP, Partido Progressista, como um partido conservador que vai perseguir uma posição unificada sobre esses temas?

Exatamente.

O PP tem alguns integrantes que são muito relacionados ao passado da legenda, quando ela nem tinha esse nome. Quando foi a Arena, a sigla que apoiou a ditadura militar. Por exemplo, Paulo Maluf, em São Paulo. Como o PP, sob o seu comando, vai trabalhar para melhorar a imagem do partido, apesar de a imagem de alguns dos seus integrantes não ser a melhor perante a opinião pública?

São pessoas que devem ser respeitadas. Encaro como uma escola de samba. Escola de samba não tem a velha guarda? A velha guarda não está na frente do desfile, não está no comando. São pessoas que são respeitadas e que tiveram história no partido. Algumas pessoas são muito mais antigas do que eu.

Seria muito fácil hoje dizer: 'Nós temos que tirar, afastar'. Não. Têm que ser respeitadas. Mas eu encaro assim, uma velha guarda. Hoje, quem está no comando são pessoas com novas ideias.

Mas e a carga histórica, a herança ideológica do partido? Qual é a sua opinião? Qual é a sua opinião sobre o período da ditadura militar?

O partido é muito diferente daquela época. O nosso grande condutor, o nosso baluarte, o meu grande conselheiro na política é o senador Dornelles. Ele foi o homem de confiança de Tancredo Neves, seu braço direito. O Tancredo esteve na luta pela redemocratização. De lá para cá, as pessoas são outras. Hoje, 95% do partido não participou daquele período. É um período que tem que ser respeitado, mas já faz parte do passado.

Vou citar um integrante do seu partido: o deputado Jair Bolsonaro, do PP do Rio de Janeiro. Ele sempre faz declarações a favor do regime militar. O sr. concorda?

Eu acho que o período da ditadura militar, em comparação com alguns países, foi muito menos traumático. Em comparação com a Argentina, por exemplo. Eu acho que os militares não fizeram tão mal ao país como fizeram em outros países. Respeito algumas decisões dos militares. É um período que faz parte do nosso passado e que eu acho que nós já deveríamos ter esquecido. Eu acho que quanto mais nós trazemos à baila isso, essas comissões de verdade, essas situações, só trazem discussões que não fazem mais parte do dia a dia da população.

O sr. é contra o trabalho da Comissão da Verdade?

Sou.

Por quê?*

Porque se politizou esse debate. É um debate que só veio para esclarecer um lado. Não está para esclarecer os dois lados.

Foi uma iniciativa pessoal da presidente da República Dilma Rousseff. Nesse caso, ela errou?

Olha, é muito fácil para mim, que não vivi essa época, não sofri, dizer que ela errou. Eu não acho isso. Por tudo que ela passou, foi uma mulher que chegou a ser torturada, eu acho que ela tem razão de ter feito. Mas eu, que não vivi essa época, sou uma pessoa muito mais jovem, não daria isso como prioridade.


Fonte: FOLHA.COM  |  Edição: Da Redação

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