Paulo Cesar Alves n?o esperava que ap?s uma consulta com um urologista, em outubro de 2023, ele receberia o diagn?stico de c?ncer de pr?stata. Depois de ser examinado por outros m?dicos, foi descoberto que ele tinha um n?dulo de cinco cent?metros no local.
Contudo, ele relata que isso somente foi poss?vel gra?as ao exame de PSA feito por causa da insist?ncia da sua esposa, mesmo ap?s in?meras remarca?es.
— Eu estava protelando de fazer o exame porque os anos anteriores foram muito conturbados, cuidando dos meus pais idosos. Se n?o fosse pela Catia, minha esposa, eu n?o teria feito o exame na ?poca que descobrimos — conta o DJ de 60 anos, pai de dois filhos adultos.
O tratamento, realizado at? agosto deste ano, teve sucesso e fez com que Paulo conseguisse alcan?ar o est?gio de remiss?o (quando os sinais e sintomas do c?ncer desaparecem).
— Emagreci muito. Ano passado eu tinha 86 kg eu cheguei a 77 kg. Agora estou me sentindo bem, fui orientado a fazer uma academia e hoje fa?o muscula??o — afirma.
A realidade de Paulo n?o ? isolada. De acordo com um novo estudo publicado na revista cient?fica Cancer, at? o ano de 2050, novos casos de 28 tipos de c?ncer e a mortalidade pela doen?a ter?o um aumento expressivo entre os homens.
A proje??o mostra que no per?odo de 28 anos, os casos em homens ir?o de 10,3 milh?es para 19 milh?es ao ano, um aumento de 84%. J? as mortes, ir?o de 5,4 milh?es para 10,5 milh?es anualmente, o que representa um crescimento de 93%.
Esta conjuntura se mostrou ainda mais expressiva nos pa?ses subdesenvolvidos e para indiv?duos acima dos 65 anos.
"Entre 2022 e 2050, os casos de c?ncer e a mortalidade s?o projetados para mais que dobrar em pa?ses/territ?rios com IDH baixo e tamb?m entre os adultos mais velhos (na faixa et?ria acima dos 65 anos)", escreveram os autores.
Em termos de desenvolvimento populacional, de acordo com estimativas das Na?es Unidas, a popula??o mundial vai sair do atual patamar de 7,95 bilh?es para 8,6 bilh?es em 2050, ou seja, um crescimento de 8,18%.
Dentre os 28 tipos considerados pelo estudo, o mesotelioma (que afeta o mesot?lio, camada fina presente no revestimento da pleura) foi o que apresentou o maior salto para o surgimento de casos, com um aumento de 105,5% em rela??o a 2022, e o c?ncer de pr?stata (mais comum em faixas et?rias a partir dos 60 anos), para mortes, com 136,4%.
Para o estudo, foram analisadas informa?es de 2022 do Observat?rio Global do C?ncer, o qual realizou estimativas a n?vel nacional para casos de c?ncer e mortes em 185 pa?ses. A partir disso, a equipe multiplicou as taxas espec?ficas por idade de 2022 com suas proje?es populacionais correspondentes para o ano de 2050.
"Uma colabora??o nacional e internacional, bem como uma abordagem multissetorial coordenada, s?o essenciais para melhorar os resultados atuais do c?ncer e reverter o aumento previsto na carga do c?ncer at? 2050. A ?nfase deve ser colocada em pa?ses com baixo e m?dio ?ndice de desenvolvimento humano, com altas necessidades n?o atendidas de servi?os de tratamento de c?ncer, apesar de uma carga significativa de c?ncer", disse o autor principal Habtamu Mellie Bizuayehu, da Universidade de Queensland, na Austr?lia, em comunicado.
Os 28 tipos de c?ncer levados em considera??o pela proje??o foram:
Pr?stata
Test?culo
P?nis
Rim
Bexiga
C?rebro, sistema nervoso central
Tireoide
Linfoma de Hodgkin
Linfoma n?o-Hodgkin
Mieloma m?ltiplo
Leucemia
L?bio, cavidade oral
Gl?ndulas salivares
Orofaringe
Nasofaringe
Hipofaringe
Es?fago
Est?mago
Colorretal
F?gado
Ves?cula biliar
P?ncreas
Laringe
Pulm?o
Melanoma de pele
C?ncer de pele n?o melanoma
Mesotelioma
Sarcoma de Kaposi
Os motivos por tr?s da proje??o
De acordo com os pesquisadores, as principais causas para a disparidade entre os g?neros se devem a uma menor participa??o em atividades de preven??o do c?ncer, subutiliza??o de op?es de triagem e tratamento, maior exposi??o a fatores de risco de c?ncer — como tabagismo, consumo de ?lcool e exposi??o ocupacional a agentes cancer?genos — e diferen?as biol?gicas.
Carlos Gil Ferreira, diretor m?dico da Oncocl?nicas e presidente do Instituto Oncocl?nicas, destaca que no contexto brasileiro os programas est?o mais estruturados para prevenir ou fazer o diagn?stico precoce de tumores femininos, como o c?ncer de mama.
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— N?o existem programas para diagn?sticos de tumores sabidamente masculinos, como o de pr?stata. O sistema de sa?de brasileiro est? mais preparado para detectar e cuidar de tumores em mulheres do que em homens — aponta o especialista.
Al?m disso, mesmo no tipo de c?ncer que pode acometer ambos os sexos, como por exemplo o colorretal, a disparidade pode ser percebida na busca por exames e outras maneiras de se prevenir.
— As mulheres s?o muito mais aderentes aos programas existentes de rastreamento e preven??o, no geral. Isso se combina a grandes fatores para o surgimento da doen?a, como tabagismo e alcoolismo s?o mais comuns entre os homens. ? um problema multifatorial — evidencia Ferreira.
Os exames de colher PSA, toque retal ou colonoscopia, essenciais para o rastreamento de novos casos, ainda s?o vistos de forma negativa por muitos homens. Muitos dizem se sentir desconfort?veis ao serem examinados por um profissional do mesmo sexo.
Paulo, por sua vez, acredita que as novas gera?es j? n?o pensam dessa maneira quando se trata da pr?pria sa?de. Ele cita que conversar sobre os cuidados necess?rios com o filho, especialmente ap?s o diagn?stico, ? natural.
— Hoje em dia, mesmo fora de casa, a gente tem uma conscientiza??o maior. Mas eu falo para o meu filho de 31 anos e tamb?m para os meus sobrinhos se cuidarem. Sempre tento passar esse ensinamento para eles. N?o adianta reclamar, os homens precisam ir ao m?dico. Toda vez que eu tenho a oportunidade de conversar com algu?m, eu tento conscientizar — ressalta.
Esta educa??o desde a inf?ncia sobre o assunto, ainda que n?o atinja os adultos da atualidade, pode promover mudan?as significativas a longo prazo.
— Alguns locais do mundo conseguiram melhorar suas estimativas de c?ncer com base na preven??o educativa — pontua o m?dico.
Para al?m da conscientiza??o a n?vel pessoal, poucos pa?ses no mundo apresentam uma estrat?gia s?lida de preven??o de c?ncer e o Brasil ainda enfrenta este gargalo, segundo Ferreira. Contudo, o especialista acredita que o pa?s vive atualmente um cen?rio favor?vel a novas medidas que podem causar impactos positivos nas pr?ximas d?cadas.
— Ano passado foi aprovado a lei que criou a Pol?tica Nacional de Preven??o e Controle do C?ncer no Sistema ?nico de Sa?de, sancionada neste ano pelo presidente. Pela primeira vez no pa?s n?s teremos um Programa Nacional de C?ncer. A partir dele, se espera que as estrat?gias que j? existem fiquem melhor estruturadas. Outra coisa importante ? que no Senado est? sendo estudado, no contexto da Reforma Tribut?ria, or?amentos para o tratamento e diagn?stico de c?ncer — salienta.