Piaui em Pauta

A corrida nos EUA para evitar que milhões de vacinas acabem no lixo enquanto milhares morrem.

Publicada em 10 de Janeiro de 2021 às 00h13


Quando a enfermeira Sandra Lindsay virou not?cia como a primeira pessoa nos Estados Unidos a receber a vacina contra a covid-19, em 14 de dezembro, o plano do governo federal era imunizar 20 milh?es de pessoas at? o fim de 2020.

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Quase um m?s depois, 21,4 milh?es de doses foram enviadas a hospitais e departamentos de sa?de ao redor do pa?s, mas somente 5,9 milh?es pessoas j? foram vacinadas, segundo dados do CDC (Centros de Controle e Preven??o de Doen?as, ag?ncia de pesquisa em sa?de p?blica ligada ao Departamento de Sa?de).

Enquanto o pa?s continua a registrar recordes di?rios no n?mero de mortos pela doen?a, com um total de mais de 21 milh?es de infectados e mais de 370 mil ?bitos, atrasos e problemas de log?stica fazem com que milh?es de doses corram o risco de expirar antes de serem distribu?das.

Apesar de o volume dispon?vel at? agora ser limitado, especialistas afirmam que o problema principal n?o ? escassez, e sim dificuldades de distribui??o. O governo federal diz que a responsabilidade de distribuir a vacina ? de cada Estado, mas autoridades estaduais e locais reclamam que precisam de mais apoio e n?o t?m estrutura, m?o de obra ou recursos financeiros para desempenhar a tarefa, especialmente quando j? est?o sobrecarregadas com casos e hospitaliza?es por covid-19.

As condi?es especiais de refrigera??o exigidas para preservar as vacinas tamb?m representam um desafio. Al?m disso, problemas de planejamento, coordena??o e comunica??o fazem com que muitos hospitais nem saibam quando, qual ou quantas vacinas v?o receber. Para a popula??o, ? muitas vezes dif?cil obter informa?es sobre quando e onde receber a vacina.


"Fazer a vacina chegar do fabricante at? os Estados, isso est? andando", diz ? BBC News Brasil o especialista em doen?as infecciosas e prepara??o para pandemias Amesh Adalja, do Centro para Seguran?a de Sa?de da Universidade Johns Hopkins.

"Mas os Estados n?o est?o conseguindo vacinar, colocar a agulha no bra?o das pessoas, de maneira r?pida o suficiente", afirma.

Ritmo lento
O ritmo mais lento do que o esperado no que ? considerada a maior campanha de vacina??o na hist?ria dos Estados Unidos vem provocando frustra??o, principalmente depois de cientistas terem conseguido desenvolver vacinas contra a nova doen?a em tempo recorde.

Em dezembro, o pa?s aprovou duas vacinas para uso emergencial, uma fabricada pela Pfizer-BioNTech e outra pela Moderna. Ambas exigem duas doses, com algumas semanas de intervalo. A vacina da Pfizer-BioNTech tamb?m precisa ser mantida em temperaturas extremamente baixas, de cerca de 70?C negativos, o que representa um maior desafio log?stico.

Nas unidades de refrigera??o dispon?veis na maioria dos hospitais, as vacinas podem ser preservadas por no m?ximo 35 dias. Com isso, caso n?o sejam usadas a tempo, as primeiras remessas recebidas em dezembro podem expirar j? neste m?s.

Nesta fase inicial, os grupos priorit?rios para receber a vacina s?o trabalhadores do setor de sa?de e residentes e funcion?rios de lares de idosos. Mas h? casos ao redor do pa?s de hospitais e locais de vacina??o que tiveram de oferecer doses a pessoas aleat?rias, fora dos grupos priorit?rios, em um esfor?o de ?ltima hora para evitar que vacinas acabassem no lixo.

Em um hospital na Calif?rnia, funcion?rios tiveram de correr contra o tempo depois de problemas no freezer onde as vacinas estavam armazenadas. Como todas as doses iriam estragar em duas horas, eles improvisaram locais de vacina??o e recrutaram volunt?rios m?dicos para distribuir as vacinas a quem quisesse ser imunizado. Um caso semelhante foi registrado em Kentucky.

Na capital do pa?s, Washington, um jovem relatou em um v?deo que viralizou no TikTok sua experi?ncia ao ser abordado, ao lado de um amigo, pela funcion?ria de uma farm?cia localizada em um supermercado.

Segundo ele, a funcion?ria disse que iria fechar em poucos minutos e tinha duas doses de vacina que iriam para o lixo caso n?o fossem aplicadas imediatamente, j? que n?o poderiam ser preservadas em temperatura ambiente. As doses estavam reservadas originalmente para trabalhadores do setor de sa?de que n?o compareceram ao local.

H? tamb?m relatos de sabotagem, como em Wisconsin, onde o funcion?rio de um hospital retirou frascos do sistema de refrigera??o, fazendo com que 500 doses fossem estragadas.

"Uma por??o significativa das vacinas no Texas est? parada em prateleiras de hospitais, em vez de ser distribu?da a texanos vulner?veis", tuitou no fim do ano o governador Greg Abbott.

Em Maryland, dados do in?cio da semana indicavam que somente 34% das 163 mil doses enviadas a hospitais haviam sido usadas. O governador Larry Hogan amea?ou remover doses de hospitais que est?o demorando demais na aplica??o das vacinas e redirecion?-las para outros locais.

"Nenhuma dose vai ficar parada em um freezer enquanto houver outros esperando (pela vacina)", disse Hogan em entrevista coletiva, ao anunciar que iria acionar a Guarda Nacional para ajudar na vacina??o.

No Estado de Nova York, o governador Andrew Cuomo amea?ou com multa de at? US$ 100 mil (cerca de R$ 540 mil) os hospitais que n?o distribu?ssem suas doses at? o fim da semana.

Enquanto Cuomo pressionava hospitais e munic?pios, o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, apelava para que o Estado ampliasse a vacina??o para al?m dos grupos priorit?rios, passando a incluir qualquer pessoa com 75 anos ou mais e trabalhadores essenciais.

Apesar da orienta??o federal sobre grupos priorit?rios, os Estados t?m autonomia para decidir seus planos de imuniza??o, e alguns j? est?o ampliando a distribui??o.

A Fl?rida foi um dos que come?aram a oferecer a vacina a todos com mais de 65 anos e a pessoas de qualquer idade com comorbidades, mas o esfor?o tem enfrentado problemas. Nesta semana, circularam pelo pa?s imagens de idosos acampados em longas filas no Estado, esperando por horas e noite adentro, na rua, por uma chance de serem imunizados.

Rejei??o

Ao mesmo tempo em que muitos americanos esperam ansiosos por sua dose, inclusive com relatos de que milion?rios e pessoas influentes estariam tentando pagar para serem imunizados antes, v?rios Estados registram altos ?ndices de rejei??o por parte daqueles que j? t?m acesso garantido ? vacina.

Nesta semana, o governador de Ohio lamentou que 60% dos funcion?rios de lares de idosos no Estado, inclu?dos no grupo priorit?rio, se recusaram a receber a vacina. Em Nova York, calcula-se que esse n?mero seja de 30%.

Diante de relatos como esses, o cirurgi?o-geral dos Estados Unidos, Jerome Adams, principal porta-voz do governo federal para assuntos de sa?de p?blica, disse que, se trabalhadores do setor de sa?de n?o quiserem ser imunizados, os Estados devem rapidamente passar para outros grupos priorit?rios, como pessoas com mais de 75 anos e trabalhadores essenciais.

"N?s j? est?vamos vendo pesquisas, antes mesmo do desenvolvimento da vacina, indicando que haveria hesita??o. E acho que isso vai se tornar um problema ? medida que mais pessoas fora dos primeiros grupos priorit?rios come?arem a ser vacinadas", observa Adalja.

"? preciso educar as pessoas sobre os riscos e benef?cios da vacina. Ser transparente em rela??o aos dados sobre a vacina. E n?o permitir que o movimento antivacina defina os termos do debate", ressalta.

Os Estados Unidos n?o s?o o ?nico pa?s a enfrentar um in?cio ca?tico em seu esfor?o de vacina??o contra a covid-19. Enquanto alguns pa?ses, como Israel, t?m sido apontados como exemplo de sucesso, outros, como Fran?a, Espanha, It?lia, Gr?cia, Holanda e Pol?nia registraram v?rios problemas, desde atrasos at? falta de treinamento para equipes m?dicas e escassez de seringas.


Mas o desafio nos Estados Unidos ? agravado por um sistema de sa?de sobrecarregado e uma campanha fragmentada. Como cada Estado pode definir seus planos de imuniza??o, h? grandes disparidades.

"O problema ? que os departamentos de sa?de estaduais n?o est?o recebendo apoio (suficiente) do governo federal. N?o ? quest?o de o governo federal assumir o controle (da distribui??o), mas sim oferecer apoio aos Estados que precisarem", ressalta Adalja.

H? relatos de Estados convocando trabalhadores m?dicos aposentados, dentistas e veterin?rios para ajudar a aplicar as vacinas.

Desafios
Apesar de o principal desafio atual ser a distribui??o, o volume limitado de vacinas tamb?m gera preocupa??o. A orienta??o inicial ? aplicar somente metade das doses dispon?veis. Como s?o necess?rias duas doses para que uma pessoa seja imunizada, a outra metade do estoque fica reservada para quando quem j? recebeu a primeira dose precisar do refor?o.

Alguns apelam para que mais doses sejam aplicadas imediatamente, aumentando o n?mero de pessoas vacinadas, mesmo que a segunda dose seja atrasada. Mas propostas do tipo tamb?m enfrentam resist?ncia, diante da falta de estudos que comprovem a efic?cia de atrasar a segunda dose.

Os problemas na distribui??o das vacinas ocorrem depois de falhas em v?rias etapas da resposta ao coronav?rus nos Estados Unidos, incluindo atrasos no desenvolvimento e distribui??o de testes, rastreamento de contatos e isolamento de poss?veis infectados e escassez de equipamentos de prote??o individual nos primeiros meses da pandemia.

O governo federal diz que, passados os feriados de fim de ano e as dificuldades iniciais, a expectativa ? de que a distribui??o seja acelerada. O presidente eleito, Joe Biden, que toma posse no dia 20 deste m?s, prometeu refor?ar apoio e financiamento aos Estados e distribuir 100 milh?es de vacinas nos 100 primeiros dias de seu governo.

Mas o desafio ? complexo. Na ?ltima quinta-feira (7/01) o pa?s ultrapassou pela primeira vez a marca de 4 mil mortos por covid-19 em um ?nico dia. Segundo o CDC, o n?mero total de mortes poder? ultrapassar 430 mil at? o fim de janeiro.

"N?o importa quem esteja no comando, ser? um processo dif?cil vacinar basicamente a popula??o adulta inteira dos Estados Unidos contra este v?rus, com uma nova vacina, e fazer isso rapidamente", ressalta Adalja.
Tags: A corrida nos EUA - MUNDO A corrida

Fonte: globo  |  Publicado por: Da Redação
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