
?Na cena final do filme O Advogado do Diabo, de 1997, o personagem de Al Pacino diz: "A vaidade ?, definitivamente, meu pecado favorito!". ? dif?cil entender se foi a vaidade que levou dois advogados, Cezar Bittencourt, que representa o tenente-coronel Mauro Cid h? poucos dias, e Paulo Cunha Bueno, defensor de Jair Bolsonaro, a passarem horas dando entrevistas ? GloboNews nesta sexta-feira expondo contradi?es e lacunas nas suas teses de defesa e, muitas vezes, confirmando aspectos que certamente ser?o usados pela Pol?cia Federal e pelo Minist?rio P?blico Federal para fechar as conclus?es do caso das joias ofertadas ao ex-presidente como chefe de Estado e que foram levadas para seu acervo pessoal, vendidas e recompradas no exterior.
"Eles confessaram tudo", disse ao blog um integrante das investiga?es. "N?o que precisasse. A prova documental ? mortal. Mas facilitaram", concluiu a fonte.
N?o foram poucas as contradi?es de um e de outro. Bittencourt, que afirmou ter se encontrado uma ?nica vez com seu cliente e n?o conhecer o teor dos muitos processos a que ele responde, n?o s? tem falado com todos os ve?culos nos ?ltimos dias como tem se permitido tecer considera?es a respeito da inexperi?ncia dos advogados que o antecederam. Na entrevista ao programa Est?dio I, da GloboNews, admitiu ter conversado com o advogado de Bolsonaro.
Deixou, portanto, a brecha para que se especule se foi isso que o fez ir e voltar nas vers?es que deu a respeito da conduta do cliente no caso da venda e posterior recompra do rel?gio Rolex ofertado a Bolsonaro pelo governo saudita. Na mesma entrevista, ele disse pretender blindar o pai de Cid, o general Lourena Cid, de culpa, e temer por amea?as que poderiam recair sobre a mulher do ex-ajudante de ordens.
J? o advogado de Bolsonaro exp?s logo de cara uma contradi??o entre sua principal linha de defesa -- a lei permitiria que o ex-presidente se apossasse de joias dadas como presentes a um chefe de Estado e, inclusive, revend?-las -- e suas pr?prias orienta?es ao cliente, al?m das declara?es recentes do pr?prio Bolsonaro.
Se era permitido, por que toda a epopeia para vender escondido no exterior, n?o depositar o produto da venda em contas banc?rias, envolver um general no transporte dos recursos e, depois, ele mesmo orientar Bolsonaro a devolver as joias? O que, ali?s, suscitou a corrida para recomprar o rel?gio por um valor maior que o da venda, e usando o indefect?vel Frederick Wassef na opera??o, de novo sem declarar nada ? Receita?
Os jornalistas trataram de desnudar, uma a uma, todas as fragilidades da defesa de ambos. Diante das evidentes lacunas, eles fingiam um ar blas? como se aquilo n?o fosse relevante, ou como se n?o houvesse buracos.
Se esquecem que, na ponta da linha dessa investiga??o, estar? Alexandre de Moraes, que n?o ? algu?m exatamente f?cil de enrolar. As recentes a?es da PF, do MPF e da Justi?a mostram que n?o haver? tr?gua nos dois fronts em que Bolsonaro est? implicado judicialmente, sobre os quais tratei na coluna desta sexta-feira em O GLOBO: o dos ataques ? democracia e o dos crimes contra o patrim?nio p?blico.
A respeito da concomit?ncia dessas duas linhas, ouvi da mesma fonte que considerou um desastre para a defesa o rally de entrevista dos advogados a seguinte avalia??o: os ataques ? democracia, como o 8 de Janeiro e as andan?as do hacker Walter Delgatti, s?o mais grave e t?m mais potencial punitivo, mas o caso das joias j? estaria "sacramentado". Depois de hoje, ainda mai.