Publicada em 18 de Junho de 2014 às 11h00
? Madrugada de ter?a-feira, entorno da Arena Castel?o. A apenas 300 metros da entrada para convidados da Fifa, a travesti Chiara, 20, veste um collant preto e um crucifixo. "Fa?o programa desde os 12. ? muito ruim no come?o, mas depois voc? acostuma. E ningu?m passa fome", conta.
H? quem cobre R$ 10 pela noite. Chiara pede R$ 50 –"mais barato que o ingresso para a Copa", afirma, rindo–, e est? satisfeita com o in?cio do evento esportivo. "O movimento aumentou e eu amo os gringos. Quem sabe me caso com um deles e vou morar l? na Europa", diz.
Apesar de as autoridades terem lan?ado um plano conjunto, com 700 pessoas envolvidas, plant?o 24 horas e campanha publicit?ria, Fortaleza vive com o Mundial um "boom" do turismo sexual. Os donos de boates comemoram o movimento –h? quem diga, sem precedentes na capital cearense, um dos principais destinos internacionais de prostitui??o.
H? mais policiamento, com apoio de 3.000 homens do Ex?rcito. ? tarde, na hora do jogo do Brasil contra o M?xico, em plena Fan Fest, a garota de programa Yara, de Bel?m, s? elogiava: "? bom porque a gente se sente mais segura para trabalhar".
"MUDAR PRA QUE?"
A meia hora de dist?ncia, em uma confort?vel viagem de carro pelas pistas ampliadas da avenida que liga o est?dio ao centro, est? a praia de Iracema, ponto preferencial para programas de luxo.
H? fam?lias e crian?as pelo cal?ad?o. Mas, nos bares perto da est?tua de Iracema, hordas de torcedores mexicanos ocupam os balc?es e as pistas de dan?a –um cruzeiro com 4.000 deles, maioria homens, aportou anteontem.
S?o esperados 350 mil turistas para a Copa, de acordo com a Secretaria de Turismo. "Eu amo as brasileiras, j? me apaixonei umas cem vezes desde que cheguei", afirma Ram?n Ortega, 34, engenheiro aeron?utico, em meio a um grupo de amigos, alguns j? meio b?bados.
Na esquina, Valeska, 19, uma morena de longos cabelos lisos, cobra R$ 200 pelo programa. "Que medo desses gringos! Mas nunca fui maltratada e, em uma noite, ganho o sal?rio de uma balconista. Mudar pra qu??", diz.
Na Copa do Mundo das garotas de programa, homens de pa?ses n?rdicos e os holandeses aparecem entre os campe?es de prefer?ncia.
Espanh?is e alem?es empatam. Italianos ficam na repescagem. Latinos como os mexicanos ou uruguaios, que vieram assistir ao jogo contra Costa Rica na semana passada, s?o como os brasileiros.
? Bruno Xavier/Nigeriafilmes ? Mulheres em ponto de prostitui??o em Fortaleza (CE); com turistas, atividade cresceu na cidade CIDADE MASCARADA A explora??o sexual de crian?as e adolescentes pode ser vista por v?rios cantos. De acordo com L?dia Rodrigues, que coordena o colegiado de uma rede de ONGs, o n?mero de menores de idade que oferecem seus corpos na regi?o mais que dobrou nos ?ltimos tr?s anos, com a demanda dos oper?rios do est?dio. Eram cerca de cem, hoje n?o s?o menos de 250. Um m?s antes da Copa, oito boates tradicionais da cidade foram fechadas. O plano de converg?ncia, que deve vigorar apenas durante o torneio, ainda conta com tr?s centros de acolhimento para crian?as e jovens. "Muitos pais deixam as crian?as para assistir aos jogos. Por isso, orientamos que as deixem conosco. Temos psic?logos e atividades l?dicas", diz T?nia Gurgel, da Funda??o da Crian?a e da Fam?lia Cidad?, da prefeitura. ? Bruno Xavier/Nigeriafilmes ? Prostituta espera cliente em frente a boate em Fortaleza Para Alice Oliveira, coordenadora interina da associa??o das prostitutas cearenses, a cidade foi "mascarada" para a realiza??o do Mundial. "Com o aperto da fiscaliza??o sobre hot?is e motoristas de t?xi, muitos estrangeiros compraram casas e apartamentos. Os encontros pela internet est?o "bombando"." A soci?loga Gl?ria Di?genes, ex-secret?ria municipal de Direitos Humanos, afirma que nunca houve uma pol?tica p?blica de longo prazo para coibir a explora??o sexual. "Fizeram uma assepsia social na ?rea tur?stica da cidade para n?o ficar a olho nu. Fortaleza ? um lugar onde o abismo social s? se acentuou, com o crescimento econ?mico", afirma a pesquisadora da UFC (federal do Cear?). ?