Publicada em 31 de Julho de 2014 às 07h34
Ministro Axel Kicillof em reunião com fundos em Nova York.
Imagem: Ministro Axel Kicillof em reuni?o com fundos em Nova York.
Acabou, no fim desta quarta-feira (30), o prazo para a Argentina conseguir um acordo com credores que se recusaram a negociar com desconto os d?bitos do pa?s. Ap?s a reuni?o com fundos que n?o aceitam renegociar a d?vida, a Argentina entra em calote, confirmou o mediador nomeado pela Justi?a dos Estados Unidos. "A Rep?blica da Argentina n?o alcan?ou nenhuma das condi?es, e, como resultado, vai estar em default (calote)", afirmou Daniel A. Pollack, em comunicado divulgado ? noite.
O ministro da Economia, Axel Kicillof, que participou da reuni?o, se disse surpreendido pelo comunicado. saiba mais Negocia??o argentina termina sem acordo, default se aproxima Dilma defende Argentina e diz que especuladores n?o podem amea?ar estabilidade Justi?a cancela pagamento feito pela Argentina a credores da d?vida Governo argentino prop?e troca de pap?is para pagar d?vida Marcas argentinas avan?am pelo Brasil Leia mais sobre Argentina
"Sinceramente, desconhecia o comunicado. Pe?o desculpas aos trabalhadores que estavam esperando atentamente o resultado dessas negocia?es", afirmou, segundo reportagem do jornal argentino "La Naci?n". "Me vejo surpreendido ingratamente pelo comunicado, que parece escrito para favorecer uma das partes."
Ao dizer que a Argentina "n?o alcan?ou nenhuma das condi?es", Pollack se referiu ? negocia??o sem sucesso com os chamados "fundos abutres".
Esse grupo ? formado por uma minoria de credores que n?o aceitaram a renegocia??o da d?vida do pa?s ap?s o calote de 2001.
Eles entraram na Justi?a dos EUA, exigindo receber de forma integral o que a Argentina lhes deve.
Essa briga dura v?rios anos e, no ?ltimo dia 26 de junho, o juiz americano Thomas Griesa bloqueou o pagamento feito pelo governo argentino da parcela da d?vida para os credores que aceitaram a renegocia??o.
A Argentina tinha um m?s, ap?s o vencimento, no ?ltimo dia 30, para quitar essa parcela.
O calote ? t?cnico e ? diferente do calote de 2001 porque o pa?s tem o dinheiro para pagar, mas est? impedido pela Justi?a.
Argentina n?o fala em calote
Ap?s a reuni?o com os fundos, em Nova York, Kicillof repetiu que o pa?s n?o considera que esteja em calote t?cnico. "Se fosse um default, o dinheiro n?o estaria depositado", disse, usando um argumento utilizado pela presidente Cristina Kirchner.
O ministro, que participou da reuni?o, afirmou que os "abutres" n?o aceitaram a proposta feita pelo pa?s. Ele reiterou que n?o poderia fazer uma oferta diferente da negociada com os demais credores e que pediu a suspens?o da senten?a que bloqueia o pagamento da parcela. Ambas as propostas j? haviam sido feitas ao longo da negocia??o. "Os fundos querem mais e agora", lamentou Kicillof.
O mediador Pollack considera que o calote n?o ? uma condi??o t?cnica, j? que afeta de forma real a vida das pessoas e dos investidores.
"Apesar de argumentos contr?rios, default n?o ? uma condi??o meramente t?cnica, mas um evento real e doloroso que machuca pessoas reais: isso inclui os cidad?os argentinos comuns, os credores que renegociaram (que n?o v?o receber os juros) e os que n?o renegociaram (que n?o receber?o o pagamento determinado pela Justi?a)", escreveu.
De acordo com a imprensa local e ag?ncias de not?cias, uma outra tentativa de negocia??o com os fundos ainda teria sido conduzida pelos bancos privados argentinos, na noite desta quarta, mas tamb?m teria terminado mal. Os bancos estariam buscando comprar os t?tulos da d?vida em poder dos fundos para evitar o calote. "Desabou tudo", disse ? Reuters uma fonte com acesso ?s negocia?es.
"Calote seletivo"
Antes do an?ncio do resultado da reuni?o, a ag?ncia de risco Standard&Poor?s rebaixou a nota de risco da Argentina e considerou que o pa?s j? estava em calote.
O calote s? afeta os US$ 539 milh?es que n?o chegaram a ser efetivados por estarem retidos no Bank of New York Mellon (Bony), por recomenda??o do juiz Griesa, que julga o processo de fundos especulativos contra a Argentina pela d?vida em morat?ria desde 2001.
Por isso ? considerado um "calote seletivo" pela Standard & Poor"s. Ou seja, para a ag?ncia, o pa?s fica inadimplente apenas em uma parte de suas obriga?es financeiras. A S&P afirma que a nota poder? ser revisada se o pa?s pagar a parcela da d?vida.
Pr?ximos passos
O mediador Pollack disse estar dispon?vel para continuar a negocia??o. "N?o ? meu papel ou inten??o apontar culpas de qualquer lado. Continuarei dispon?vel para as partes para ajud?-los a chegar a uma resolu??o em que os interesses de todos sejam alcan?ados."
"N?o vamos assinar nenhum compromisso que comprometa o futuro", afirmou Kicillof nesta quarta. "Se oferecemos mais aos abutres, todo o resto pode reclamar o mesmo."
A renegocia??o da d?vida argentina tem uma cl?usula chamada Rufo (Rights Upon Future Offers), que trata de direitos sobre ofertas futuras da renegocia??o. Ela d? a garantia de poder exigir as mesmas condi?es de qualquer outra eventual oferta volunt?ria futura aos chamados “holdouts” – aqueles que ficaram de fora da renegocia??o.
Assim, se a Argentina pagar 100% da d?vida a algum credor, outros podem cobrar o mesmo. Esse item do contrato, no entanto, vence no dia 31 de dezembro, o que leva a muitos analistas a acreditarem que um acordo ou iniciativa de negocia??o n?o dever?o acontecer antes de 2015.
Assim, segundo eles, um novo calote agora dificilmente provocaria impactos semelhantes ao da morat?ria de 2001. A avalia??o ? de que n?o se trata de um problema de falta de dinheiro e que a quest?o tende a ser resolvida num prazo de at? 6 meses, quando expira a cl?usula Rufo.
? consenso, entretanto, que a combalida economia argentina seria ainda mais enfraquecida, uma vez que a fuga de d?lares tenderia a crescer, a moeda a se desvalorizar, a infla??o a subir e o Produto Interno Bruto (PIB) a cair.