
?A coragem de romper com tudo e construir o pr?prio destino chegou cedo na vida da jornalista Cristina de Sousa Pimentel. Nascida em Santa Branca, no Vale do Para?ba, ela morou por 10 anos em Mogi das Cruzes(SP). A mudan?a de cidade n?o foi planejada, mas sim necess?ria, segundo ela, quando um crime mudou sua vida.
Ela perdeu a virgindade aos 17 anos em um estupro. “Tudo aconteceu tr?s anos antes de entrar na faculdade de jornalismo. Por causa da viol?ncia sexual fiquei com vergonha e mudei de cidade. Me sentia culpada pelo o que tinha acontecido. ? muito comum quem ? vitima de viol?ncia sexual se sentir assim porque acham que voc? deu mole. Passei isso na pele”, diz.
Anos depois, ela teve coragem de contar para o mundo o drama que passou na adolesc?ncia por meio de um livro. Hoje, Cris diz que n?o sente medo e nem vergonha de contar o que aconteceu. “Sofri muito. N?o foi f?cil. At? minha fam?lia demorou para saber que eu tinha sido v?tima de estupro. As pessoas n?o percebem que essa viol?ncia pode estar perto da gente”.
Para pagar a faculdade e o aluguel, Cris ingressou na Pol?cia Civil. Depois de prestar concurso, em 1989, ela se tornou escriv? na Delegacia de Defesa da Mulher, em Mogi das Cruzes. Uma forma de enfrentar os fantasmas que desde a adolesc?ncia a perseguiram. “Na ?poca estavam come?ando a criar as delegacias para as mulheres. Al?m de querer um pouco mais de dinheiro porque morava em rep?blica, era uma forma de enfrentar um problema de viol?ncia que estava escondido dentro de mim. Eu tinha que ir de frente com ele. Ent?o achei que se eu ajudasse pessoas que passaram pela mesma situa??o, eu iria superar”, lembra.
”Naquela ?poca eu era calada. Vivia triste e chorando pelos cantos. At? que um dia comentei com uma psic?loga da delegacia que tamb?m era v?tima, que tinha sido estuprada”.
Foram cinco anos como policial. Decidida, ap?s concluir o curso superior, Cris largou a pol?cia e foi trabalhar em pequenos jornais de Mogi. Mas as hist?rias desse per?odo na pol?cia ficaram guardadas na mem?ria da jornalista. Ent?o, Cris decidiu ir em busca de um sonho antigo, ser escritora.
Livro
Depois de se mudar para o Rio de Janeiro Cris come?ou a relembrar as hist?rias vividas na inf?ncia, na adolesc?ncia e na delegacia da mulher. Sa?ram ent?o os primeiros rascunhos de “Ana e a tal felicidade”.
O livro, que j? foi lan?ado no Rio de Janeiro e em Fortaleza, vai chegar, em outubro, em S?o Paulo. “Atrav?s da Ana conto um pouco da minha hist?ria junto com tudo que presenciei na delegacia. ? uma forma de alertar as m?es e as pessoas sobre esse crime”. Cris emprestou ? personagem seus sonhos e tamb?m o drama que passou. Na hist?ria, Ana, que
A vergonha da fam?lia e dos moradores a fazem seguir em frente em busca de novos amigos e amores. “Ana ? um nome forte e minha personagem tinha que ser forte. Emprestei minha hist?ria para a personagem, mas a diferen?a ? que Ana fica gr?vida, o que n?o aconteceu comigo", diz. "Apesar de ser um enredo triste tem um final que encoraja as pessoas. Eu n?o queira que fosse uma biografia, por isso mesclei com as situa?es que vi na ?poca de policial”.
'Ana entendeu que ? preciso iluminar a mente para arejar os pensamentos. Isso pode ser conseguido atrav?s de um simples sorriso. O sorriso que dona Gl?ria tanto cobrava. O poder da mente positiva. Talvez seja esse o segredo da conquista da tal felicidade'.
No trecho do livro citado acima, segundo Cris, est?o as ferramentas que a levaram a trilhar uma hist?ria diferente de vida. "Voc? v? as estat?sticas crescendo. A mulher tem que denunciar. Eu n?o tive coragem logo que aconteceu, mas depois que lancei o livro assumi que passei por essa viol?ncia. E falo com todas as letras que a mulher n?o pode guardar para si esse tipo de agress?o. Hoje as coisas est?o mais esclarecidas, existem mais pol?ticas p?blicas. A mulher n?o pode se calar".