Publicada em 02 de Agosto de 2014 às 07h55
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A presidente Dilma Rousseff pretende dar apoio mais que ret?rico ? Argentina em sua batalha contra o que os argentinos chamam de "fundos abutres".
Na recente reuni?o do Mercosul em Caracas, Dilma reiterou a Cristina Kirchner que levar? ? c?pula do G20 (novembro, na Austr?lia) proposta para regular a reestrutura??o das d?vidas de governos, territ?rio hoje sem lei, conforme se verifica pelas idas e vindas da negocia??o argentina com os "abutres".
O governo brasileiro compra, com essa posi??o, a tese argentina de que n?o est? havendo calote, porque a Argentina n?o deixou de pagar. Depositou em ju?zo uma quantia que o juiz norte-americano Thomas Griesa impediu que os credores (da d?vida renegociada) retirassem.
? uma discuss?o t?cnica que acaba fugindo do essencial: n?o d? efetivamente para falar em segundo "default" argentino, 13 anos depois do aplicado em 2001, porque as condi?es de um e outro s?o completamente diferentes.
Para come?ar, em 2001 a Argentina deixou de pagar 100% de seus credores, aplicando um calote pr?ximo dos US$ 100 bilh?es, tido como o maior da hist?ria, pela simples e boa raz?o de que n?o tinha recursos para faz?-lo.
N?o foi portanto uma decis?o pol?tica ou ideol?gica, mas uma inevitabilidade.
Agora, n?o. A Argentina s? se recusa a pagar uma pequena parcela da d?vida restante (menos de 8% da original), em m?os dos "fundos abutres". A? sim, h? uma quest?o pol?tico-ideol?gica: Cristina Kirchner n?o acha decente que fundos que n?o s?o os portadores originais dos pap?is argentinos se beneficiam de uma aposta.
LUCRO
Tais fundos compraram t?tulos dos credores originais, com imenso desconto, confiando que cobrariam o valor integral por decis?o da Justi?a norte-americana -exatamente por apostarem que dava para ter ganho de causa pela car?ncia de legisla??o internacional a respeito de d?vidas renegociadas.
? esse problema que Dilma pretende que o G20 encare.
O governo argentino diz que um dos fundos, o NML de Paul Singer, por exemplo, pagou em 2008 apenas US$ 48,7 milh?es pelos t?tulos em default. Hoje, de acordo com a senten?a do juiz Griesa teria direito a receber US$ 832 milh?es -um lucro estratosf?rico de 1608% em seis anos.
Outra diferen?a essencial entre 2001 e 2014: ao dar o calote, a Argentina vinha de cinco anos de recess?o (s? em 2001 a economia retrocedeu 10,7%, n?vel de pa?s em guerra). Agora, d?-se o oposto: desde a primeira renegocia??o da d?vida, em 2005, at? 2013, o pa?s cresceu 61%, o que d? a significativa m?dia anual de 6,7%.
Mude-se o foco para a pol?tica e as diferen?as colossais continuam: imediatamente antes e imediatamente depois do calote de 2001, o pa?s vivia um turbilh?o institucional t?o fant?stico que chegou a trocar cinco vezes de presidente em seis semanas.
Agora, o sobrenome Kirchner (N?stor primeiro, Cristina agora) ocupa a Casa Rosada, sede do governo em Buenos Aires, desde 2003, sem interrup??o e com apoio popular que levou a atual presidente a ser reeleita com 54% dos votos em 2011.
De l? para c?, ? verdade, o apoio foi se esfarelando bastante, mas n?o h? nada que se comparece ? derrubada em s?rie de presidentes.
Tudo somado, ? razo?vel supor que os efeitos do novo calote, desta vez "seletivo", para usar a express?o da ag?ncia de avalia??o de risco Standard and Poor"s, ser?o igualmente diferentes.
Mas ? claro que efeitos haver?, at? porque o default seletivo incide sobre uma situa??o j? complicada, com redu??o da atividade econ?mica, infla??o alta, d?lar inst?vel. S? os mais encarni?ados advers?rios da presidente, por?m, chegam a imaginar uma calamidade como a que antecedeu e se seguiu ao calote de 13 anos atr?s.