Piaui em Pauta

Britânicos ensinaram tortura psicológica à ditadura no País

Publicada em 30 de Maio de 2014 às 16h50


Um documento intitulado "Tortura no Brasil" classificado como "confidencial" fala da péssima publicidade que o Exército brasileiro estava recebendo mundialmente na &e Um documento intitulado "Tortura no Brasil" classificado como "confidencial" fala da péssima publicidade que o Exército brasileiro estava recebendo mundialmente na &e Documentos e depoimentos obtidos com exclusividade pela BBC revelam um lado pouco conhecido da ditadura militar brasileira - a de que autoridades da Gr?-Bretanha colaboraram com generais brasileiros - inclusive ensinando t?cnicas "avan?adas" de interroga??o equivalentes a tortura. A rep?rter da BBC Emily Buchanan apurou a hist?ria. Imagem: BBC BrasilClique para ampliarUm documento intitulado "Tortura no Brasil" classificado como "confidencial" fala da p?ssima publicidade que o Ex?rcito brasileiro estava recebendo mundialmente na ?poca. Alvaro Caldas pertencia a um grupo comunista quando foi preso em 1970. Ele passou dois anos preso dentro de um quartel da Pol?cia Militar no Rio de Janeiro. Ele foi submetido a espancamentos, choques e pendurado no "pau de arara" - amarrado de cabe?a para baixo por horas. Ao ser solto, ele desistiu da pol?tica e passou a se dedicar ao jornalismo esportivo. Em 1973, voltou a ser preso. Caldas foi levado ao mesmo pr?dio, mas tudo estava diferente por l?. "Desta vez, a cela estava limpa e esterilizada, com um cheiro nauseante. O ar condicionado era muito frio. A luz estava permanentemente acesa, ent?o eu n?o tinha ideia se era dia ou noite. Eles alternavam sons muito altos e depois muito baixos. Eu n?o conseguia dormir de jeito nenhum." Alvaro conta que a sensa??o avassaladora que sentia era medo. De tempos em tempos, alguns oficiais entravam na cela, o encapuzavam e levavam para interroga?es. Ele sentia que o objetivo era desestabiliz?-lo, fazendo-o confessar algum crime que n?o havia cometido. Isso n?o era tortura f?sica, mas sim uma press?o psicol?gica intensa. "Por sorte, s? passei uma semana l?. Se tivesse ficado duas semanas ou um m?s, teria enlouquecido." "Sistema ingl?s" Esta nova t?cnica de interroga??o ficou conhecida como "sistema ingl?s". Depoimentos coletados pela Comiss?o Nacional da Verdade - criada pelo governo para investigar epis?dios ocorridos durante a Ditadura Militar - explicam o porqu?. Nas mais de 20 horas de seu depoimento, o coronel Paulo Malh?es - um dos mais temidos torturadores e que morreu poucos dias depois - ganhou destaque nacional ao confessar ter torturado e mutilado diversas v?timas. Malh?es expressou grande admira??o pela tortura psicol?gica que, para ele, era muito mais eficiente do que a for?a bruta, especialmente quando a tentativa era de transformar militantes de esquerda em agentes infiltrados. "Naquelas pris?es com portas fechadas, voc? podia mudar a temperatura, a luz, tudo dentro da pris?o. A ideia veio da Inglaterra", disse ele. Ele admitiu, em conversa em privado com a advogada e integrante da Comiss?o da Verdade do Rio, Nadine Borges, que viajou ? Inglaterra para aprender t?cnicas de interroga??o que n?o deixavam marcas f?sicas. Borges relatou detalhes de sua conversa com Malh?es ? BBC. "A melhor coisa para ele era a tortura psicol?gica. Ele tamb?m esteve em outros lugares, mas disse que a Inglaterra foi o melhor lugar para aprender." "Melhor escola" O professor Gl?ucio Soares entrevistou v?rios generais nos anos 1990. Muitos contaram que enviaram militares ? Alemanha, Fran?a, Panam? e Estados Unidos para aprender sobre interrogat?rios, mas todos elogiaram a Gr?-Bretanha como o melhor lugar de aprendizado. O general Ivan de Souza Mendes teria dito a Soares: "os americanos tamb?m ensinam, mas os ingleses ? que s?o os mestres em ensinar como arrancar confiss?es sob press?o, por tortura, de todas as formas. A Inglaterra ? o modelo de democracia. Eles d?o cursos aos seus amigos". O general Fiuza de Castro disse que os brit?nicos recomendam deixar os prisioneiros nus antes de interrog?-los, para deix?-los angustiados e deprimidos - um estado que favorece o interrogador. As t?cnicas teriam sido criadas nos anos 1960 em territ?rios brit?nicos na ?sia e aperfei?oadas contra militantes na Irlanda do Norte. O m?todo ficou consagrado em ingl?s como "Five Techniques", ou "Cinco T?cnicas": - Manter a pessoa de p? contra uma parede por muitas horas - Encapuzar - Sujeitar a grandes barulhos - Impedir o sono - Pouca comida e ?gua Muitos dizem que essas t?cnicas equivalem ? tortura. Em 1972, elas foram oficialmente proibidas pelo premi? Edward Heath, depois que o p?blico tomou conhecimento que eram usadas contra os militantes irlandeses do IRA. Mas no Brasil os m?todos de interrogat?rio psicol?gico seguiram adiante, atendendo as necessidades dos militares. O p?ssimo hist?rico de direitos humanos do Brasil estava come?ando a atrair publicidade negativa no mundo. Um m?todo que n?o deixava marcas f?sicas era considerado perfeito pelos militares para extrair informa?es. Aparentemente, n?o s? os militares brasileiros foram ? Gr?-Bretanha, mas o inverso tamb?m aconteceu. O ex-policial Claudio Guerra disse que agentes brit?nicos deram cursos no quartel-general da pol?cia militar sobre como seguir pessoas, grampear telefones e usar as celas isoladas. Guerra disse que viu esses agentes brit?nicos nas ocasi?es em que visitou o quartel-general para recolher corpos de v?timas que sofreram com os m?todos antigos. Correspond?ncias H? mais pistas sobre a rela??o entre militares brit?nicos e brasileiros no pr?dio dos Arquivos Nacionais, na regi?o londrina de Kew. Em agosto de 1972, o ent?o embaixador brit?nico no Brasil, David Hunt, escreveu uma carta secreta a uma autoridade com refer?ncia aos m?todos mais sofisticados usados pelos brasileiros. publicidade Ele escreveu: "Como voc? sabe, eu acho, eles (os militares brasileiros) foram influenciados por sugest?es e conselhos emitidos por n?s; mas esta conex?o n?o existe mais... ? importante que o conhecimento deste fato fique restrito." Na v?spera de uma visita do ent?o presidente Ernesto Geisel ? Gr?-Bretanha, em 1976, havia uma refer?ncia indireta ? uma "reforma da tortura". Uma das cartas fala de "padr?es aceit?veis de interrogat?rio (por exemplo, o que ? permitido na Irlanda do Norte)". Um documento intitulado "Tortura no Brasil" classificado como "confidencial" fala da p?ssima publicidade que o Ex?rcito brasileiro estava recebendo mundialmente, e de como foram adotadas novas t?cnicas baseadas em m?todos psicol?gicos. "O Primeiro Batalh?o do Rio estaria usando agora as novas t?cnicas, cuja introdu??o foi descrita por um comandante do Ex?rcito como uma p?gina tirada da cartilha brit?nica." A correspond?ncia do minist?rio brit?nico das Rela?es Exteriores deixa claro que interesses comerciais eram de suma relev?ncia e que o p?ssimo hist?rico de direitos humanos do Brasil era subestimado. Alan Munro, que foi c?nsul geral brit?nico no Rio nos anos 1970, disse que, pessoalmente, n?o tinha conhecimento da colabora??o dos militares brit?nicos. "Se os brasileiros estavam procurando t?cnicas de interrogat?rio usadas por autoridades brit?nicas, o melhor exemplo vinha dos primeiros anos da Irlanda do Norte. Isso teria sido aprendido por inciativa dos brasileiros, e no sentido de reduzir as pr?ticas mais crueis, isso teria sido um passo no caminho certo", diz Munro. Mas os brasileiros n?o veem isso como "um passo no caminho certo". O diretor da Comiss?o da Verdade do Rio, Wadih Damous, disse que h? anos conhece o envolvimento dos Estados Unidos no treinamento de militares do regime brasileiro, e que ficou indignado ao tomar conhecimento do papel dos brit?nicos. "? sempre chocante ouvir que uma democracia que ? t?o importante, t?o consolidada, t?o velha, colaborou com a ditadura", disse Damous. A BBC pediu uma declara??o oficial ao minist?rio das Rela?es Exteriores da Gr?-Bretanha. Um porta-voz disse que "n?o pode fazer coment?rios sobre administra?es passadas", mas que qualquer pol?tica atual do governo de colabora??o internacional cumpre com exig?ncias de direitos humanos estabelecidas dentro do pa?s.

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Fonte: Vooz  |  Publicado por:
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