Publicada em 23 de Julho de 2014 às 07h51
Robson Lourenço, coordenador de Rh e Mariana Castelo, assistente de recrutamento, do Grupo Trigo
Imagem: O GloboRobson Louren?o, coordenador de Rh e Mariana Castelo, assistente de recrutamento, do Grupo Trigo ?
A probabilidade de duas pessoas que come?am o ano trabalhando juntas terminarem aquele ano na mesma empresa ? de apenas 13%, segundo c?lculos do economista Gustavo Gonzaga, da PUC-Rio. O percentual assusta e revela o qu?o alta ? a rotatividade no Brasil. Na d?cada de 1990, 45% dos trabalhadores com carteira assinada trocavam de emprego em um ano. A taxa acelerou para 53,9%, em 2002, e atualmente chega a 64%, uma das maiores, quando se consideram todos os motivos para a sa?da do emprego, como demiss?o sem justa causa, a pedido do funcion?rio, aposentadoria, morte ou transfer?ncia.
A jovem Mariana Castello, de 24 anos, que come?ou a trabalhar aos 17, hoje est? em seu quarto emprego e o mais longevo: h? um ano e meio trabalha como assistente de recrutamento no Grupo Trigo, dono das marcas Spoleto, Domino’s e Koni Store. As passagens por empregos em outros ramos do varejo foram mete?ricas: um m?s, oito meses, nove meses. Em todas, pediu para sair, ora por exaust?o com a rotina sem folgas das lojas, ora por falta de perspectiva e, em todos os casos, pelo baixos sal?rios. saiba mais Abertura de vagas de trabalho cai pela metade Brasil ? o d?cimo pa?s que mais ganhou profissionais em 2013. Emirados ?rabes ? o primeiro 8 passos para transformar uma demiss?o em boa not?cia As habilidades mais valorizadas em 4 ?reas profissionais Pesquisa aponta que mulher bonita tem mais chances profissionais Leia mais sobre Mercado de trabalho
— Quando estava no segundo emprego, em uma papelaria, percebi depois de oito meses que era a funcion?ria mais antiga. O mais dif?cil nisso tudo foi fazer contatos, criar relacionamentos, tudo era muito r?pido — afirma Mariana.
A rotatividade se acentuou na ?ltima d?cada no pa?s, junto com a melhora do mercado de trabalho. Com a taxa de desemprego em m?nimas hist?ricas, o trabalhador passou a ter menor temor de pedir demiss?o porque acha mais f?cil encontrar outro emprego, dizem especialistas.
A maior parte dos desligamentos no pa?s continua sendo por demiss?o sem justa causa, mas, nos ?ltimos anos, aumentou a parcela de empregados que tomaram a iniciativa de pedir para deixar o trabalho. Em 2002, este percentual era de 16%. Em 2012, passou para 25%.
— H? maior rotatividade em virtude das maiores oportunidades de trabalho —diz Ademir Figueiredo, economista do Dieese.
Fabiana da Costa, de 35 anos, sabe o que ? pular de emprego em emprego. Desde que se tornou m?e e saiu da loja em que era gerente, passou por v?rias marcas femininas, sempre por per?odos que n?o superavam nove meses. Em todos os casos, pediu para sair. Chegou a fazer acordo com o patr?o para receber benef?cios.
— N?o me adaptei ?s exig?ncias de mudan?a de cole??o. Sempre que conseguia um sal?rio melhor, mudava. S? dava tempo de pegar a carteira para dar baixa e depois levar no novo emprego — diz ela, hoje supervisora da Taco.
Gonzaga, que tem se dedicado a uma s?rie de pesquisas sobre o tema, v? um outro componente na alta rotatividade. Ele considera que vem da legisla??o trabalhista uma s?rie de “desincentivos” ? manuten??o do emprego. O economista avalia que a rotatividade ? vista como geradora de ganhos de curto prazo, como o f?cil acesso a seguro-desemprego e abono salarial, e, por isso, poucos investem em qualifica??o.
DEMISS?ES SOBEM AP?S 6 MESES DE TRABALHO
O economista chama a aten??o para o fato de que existe um salto nas demiss?es quando o trabalhador completa seis meses de casa, per?odo em que, por lei, passa a ter direito ao seguro-desemprego. A m?dia saltava de 33 mil demiss?es, entre aqueles com cinco meses de casa, para 58 mil, quando completavam seis meses.
Os n?meros se referem apenas aos trabalhadores que n?o receberam o seguro-desemprego nos ?ltimos 16 meses. Segundo o economista, salta aos olhos o fato de que, no pa?s, o trabalhador costuma esperar todas as parcelas do seguro-desemprego para voltar a procurar emprego, ao contr?rio dos EUA: somente 1% se reemprega no Brasil em at? cinco meses ap?s a dispensa.
— ? prova de que os trabalhadores s?o estimulados a buscar menos empregos. A rotatividade no Brasil chegou a um n?vel muito alto. ? mais que o dobro de pa?ses como EUA e Reino Unido. Isso traz problemas s?rios de produtividade — diz Gonzaga, que se diz favor?vel ? mudan?a da regra do seguro-desemprego, para que seja sacado a partir de 12 meses de trabalho, e a mudan?as no abono salarial.
O economista da Unicamp Claudio Dedecca tamb?m v? problemas para a produtividade com o entra-e-sai das empresas, mas discorda que a legisla??o estimule a alta rotatividade. Ele defende um endurecimento das regras. Para inibir demiss?es injustificadas, se diz favor?vel a que empresas sejam obrigadas a justificar os cortes. O Minist?rio do Trabalho estuda medidas para conter a rotatividade. Entre elas, a cobran?a adicional de empresas que tenham rotatividade acima da m?dia.
— Se pegar a sele??o brasileira e rodar seus jogadores, dificilmente eles v?o jogar bem, mesmo com bons jogadores. Para se ter um coletivo, como na sele??o alem?, ? precisa que trabalhem juntos. A rotatividade chancela os baixos sal?rios e o trabalhador n?o v? uma ascens?o — afirma.
Para Vagner Freitas, presidente da CUT, ainda ? muito f?cil demitir:
— ? preciso um sistema de prote??o ao emprego. Mesmo com toda a gera??o de vagas ? muito f?cil demitir porque se contrata outro trabalhador pagando-se menos.
O economista Jo?o Saboia, da UFRJ, v? no baixo n?vel educacional da m?o de obra a principal raz?o para a baixa produtividade da economia. Para ele, uma das formas de se combater a rotatividade passa pelo aumento do treinamento em empresas e por mais fiscaliza??o contra fraudes.
— N?o acho que exista um excesso de benef?cios. A produtividade vem pela educa??o de qualidade e pelo aumento da taxa de investimento. ? uma quest?o central que explica o porqu? de n?o estarmos crescendo — afirma Saboia.
COM ROTAVIDADE MENOR, ECONOMIA DE R$ 3,5 BI
O investimento em treinamento foi a sa?da encontrada pelo Grupo Trigo para reter pessoal. Com 50% dos funcion?rios mudando a cada ano, a rede aposta em cursos de malabares e teatro para estimular funcion?rios e refor?ar a marca do Spoleto, conhecida pela agilidade no preparo de pratos.
— As pessoas ainda veem o varejo como um local de passagem e h? muita competi??o. Por R$ 2 a mais, o concorrente leva o funcion?rio. Para cada vaga de caixa ou ajudante de cozinha, fazemos dez entrevistas, mas j? foi pior — afirma o coordenador de RH do Grupo Trigo, Robson Louren?o.
A alta rotatividade tem afetado o aumento das despesas com seguro-desemprego e j? acendeu a luz amarela no Minist?rio do Trabalho. O diretor do Departamento de Emprego e Sal?rio do minist?rio, Rodolfo Torelly, estima que uma redu??o de 10% da rotatividade do emprego (considerando apenas demiss?es que permitem o recebimento de benef?cios) significaria economia de R$ 3,5 bilh?es por ano aos recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) com os gastos com seguro-desemprego. Hoje, essas despesas ultrapassam os R$ 30 bilh?es.
— Para cada dez pessoas desligadas, sete pedem seguro-desemprego. A rotatividade est? alta e nada indica que ela tenha se alterado — afirma Torelly.