Piaui em Pauta

Chegou a hora da ressaca para a economia brasileira?

Publicada em 23 de Julho de 2014 às 17h41


Os ?ltimos meses t?m sido dif?ceis para o oper?rio Jos? Gilberto Azevedo Dias, de 48 anos. Em janeiro, ele perdeu o emprego de metal?rgico na Torcomp, fabricante de autope?as de Barueri, na Grande S?o Paulo, onde trabalhava desde 2000. “As encomendas vinham caindo desde o ano passado, e fui demitido com alguns colegas”, afirma Dias. Seu antigo empregador tem entre os clientes montadoras como Scania e Volvo. Caso as vendas n?o reajam, a empresa pretende demitir at? dezembro 10% dos 240 funcion?rios restantes. Hoje, Dias sustenta a fam?lia contando com o sal?rio da mulher, auxiliar de enfermagem, e com o seguro-desemprego, que receber? at? agosto — o casal divide uma casa no Jardim S?o Bento Novo, bairro da zona sul de S?o Paulo, com um filho de 22 anos e uma filha de 15. Dias est? ? procura de trabalho. Enquanto n?o encontra, tem feito o poss?vel para economizar no dia a dia. Ele cancelou o contrato da TV por assinatura e vai tirar a ca?ula do curso de ingl?s. “N?o estou comprando nada que n?o seja muito necess?rio”, diz ele. “Minha ideia ? reduzir as despesas at? encontrar um emprego, o que est? dif?cil de achar.” O pessimismo de Dias n?o ? sem motivo. Os dados mais recentes mostram que os principais indicadores nos quais a pol?tica econ?mica do governo ainda se sustenta — a gera??o de empregos e a expans?o no consumo das fam?lias — est?o fraquejando. A ind?stria vem gerando menos empregos desde 2010. As empresas de servi?os, que respondem por dois ter?os da economia brasileira e foram as principais criadoras de postos de trabalho no per?odo recente, tamb?m est?o gradualmente abrindo menos vagas. “? natural uma desacelera??o no n?mero de vagas criadas ? medida que a economia se aproxima do pleno emprego”, diz Paulo Caffarelli, secret?rio executivo do Minist?rio da Fazenda. “N?o h? perda de f?lego no mercado de trabalho.” N?o ? bem assim. Em maio, o saldo entre empregos criados e demiss?es foi positivo em 59 000 vagas, o pior n?mero para o m?s em duas d?cadas, segundo o Minist?rio do Trabalho e Emprego. H? poucas perspectivas de que os pr?ximos meses sejam melhores. Passada a Copa do Mundo, hot?is e restaurantes devem enxugar o quadro. Oper?rios que continuam trabalhando nas obras no entorno dos est?dios podem ser demitidos. Os economistas preveem que o desemprego vai subir no ano que vem — um aumento na taxa anual n?o ? registrado desde 2009. “Muitas empresas demoraram a demitir, mesmo com a economia em queda, porque tinham esperan?a de uma recupera??o”, afirma Rodrigo Leandro de Moura, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, da Funda??o Getulio Vargas. Num momento em que a infla??o reduz o poder de compra das fam?lias — em junho, ela superou os 6,5%, teto da meta estabelecida pelo Banco Central —, a perspectiva de que o mercado de trabalho fique mais apertado refreou o ?mpeto para consumir. Um estudo produzido pela consultoria Tend?ncias com exclusividade para EXAME d? ideia do que pode acontecer nos pr?ximos cinco anos: na melhor das hip?teses, o varejo crescer? em m?dia 3,2% ao ano, quase a metade do ?ndice de expans?o anual registrado de 2003 a 2014. J? no cen?rio pessimista, as vendas dever?o cair at? 2019 — isso aconteceria no caso de uma conjuga??o de problemas tanto fora quanto dentro do pa?s. “Se a economia mundial passar por problemas, como uma desacelera??o mais acentuada da China, ou o governo brasileiro mantiver uma pol?tica fiscal frouxa, o consumo n?o s? vai parar de crescer como come?ar? a cair, o que ocorreu no per?odo de 2000 a 2003”, diz Adriano Pitoli, s?cio da Tend?ncias. “De todo modo, o fato ? que chegamos ao fim de um ciclo de consumo e agora temos uma chance consider?vel de passar por uma ressaca.” Caffarelli, do Minist?rio da Fazenda, discorda: “A melhora da distribui??o de renda tende a manter o est?mulo ao consumo nos pr?ximos anos”. Por ora, as empresas que dependem de cr?dito sofrem mais — nos ?ltimos anos, o brasileiro se endividou e comprometeu, em m?dia, um ter?o de sua renda. ? o caso do setor automotivo, que viu suas vendas ca?rem no primeiro semestre deste ano 7,6% em rela??o ao mesmo per?odo de 2013. Um estudo da consultoria econ?mica FFA, de S?o Paulo, estima que haver? uma queda de 20% nas vendas de im?veis na capital paulista neste ano. Outra empresa de an?lise, a BG&H, prev? que 30 dos 120 shoppings que est?o planejados para entrar em opera??o no pa?s at? 2018 devem postergar a inaugura??o em ao menos um ano, ? espera de um cen?rio melhor na economia. E, nos shoppings que mant?m o cronograma de inaugura??o, podem sobrar at? 5?000 sal?es de lojas desocupados. As empresas j? tentam se adaptar a esse novo cen?rio. A fabricante de motos Honda, que det?m 80% de participa??o no mercado, viu suas vendas recuarem 8% nos primeiros cinco meses deste ano em rela??o ao mesmo per?odo do ano passado. “Cerca de 80% dos consumidores financiam a compra das motos”, diz Paulo Takeuchi, diretor de rela?es institucionais da Honda. “Do ano passado para c?, os bancos come?aram a restringir o cr?dito, e isso afetou nosso desempenho.” Para voltar a crescer, a Honda est? retomando as vendas por cons?rcio, principalmente nos estados do Norte e do Nordeste. A empresa tamb?m busca se fortalecer entre os consumidores de maior poder aquisitivo, como alternativa ao mercado popular, em queda. Desde meados de 2013, foram lan?ados tr?s modelos da marca com motor acima de 500 cilindradas — a expectativa da Honda ?, at? 2016, aumentar dos atuais 31% para 50% sua fatia nesse segmento do mercado. Entre os fabricantes de eletrodom?sticos — um dos ramos mais beneficiados pela redu??o de impostos para empurrar o consumo — tamb?m h? dificuldades. Na Whirlpool, dona das marcas Brastemp e Consul, as vendas ca?ram 10% no primeiro semestre de 2014. “Em junho, tivemos de dar f?rias coletivas de 14 dias para metade dos funcion?rios”, diz Armando Ennes do Valle J?nior, vice-presidente de rela?es institucionais da Whirlpool. “Estamos esperando para ver como o mercado reagir? no segundo semestre. Dependendo do que acontecer, poder? ser inevit?vel demitir.” Em parte, o fim do ciclo do consumo est? relacionado a um comportamento quase esquizofr?nico na condu??o da pol?tica econ?mica. Enquanto o Banco Central eleva os juros na tentativa de trazer a infla??o para o centro da meta, o governo relaxa na pol?tica fiscal e estimula o consumo. Dessa forma, n?o tem alcan?ado nem o crescimento mais forte nem o controle dos pre?os. As previs?es para a varia??o do PIB neste ano est?o agora sendo revisadas para menos de 1% de avan?o. E os analistas j? esperam crescimento minguado em 2015. “Vamos come?ar um per?odo de mediocridade no qual o Brasil dificilmente conseguir? crescer mais do que 2% ao ano”, diz Marcos Lisboa, vice-presidente da escola de neg?cios Insper. “Qualquer expans?o maior resultar? em mais infla??o.” A prop?sito, o Minist?rio da Fazenda prev? 3% de crescimento em 2015. O Brasil chega perto das elei?es com a percep??o de que os indicadores est?o piorando. “O governo tentou manter o argumento insustent?vel de que a expans?o do PIB n?o importava tanto quanto a taxa de desemprego baixa”, diz Jos? Roberto Mendon?a de Barros, s?cio da consultoria MB Associados. “Mas, se o crescimento da economia fica pr?ximo de zero, como est? ocorrendo agora, o desemprego come?a a subir.” Para sair dessa armadilha, ser? preciso fazer ajustes. “Um deles ? destravar os investimentos em infraestrutura para melhorar a produtividade das empresas e crescer sem gerar infla??o”, diz Werner Baer, professor da Universidade de Illinois e autor do livro The Brazilian Economy, Growth and Development. Se isso n?o ocorrer logo, a ressaca pode ser prolongada.

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Fonte: Vooz  |  Publicado por:
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