Piaui em Pauta

Derrocada de um Midas: como Eike Batista se atolou em dívidas.

Publicada em 14 de Julho de 2013 às 20h31


Eike Batista est? abalado e alterna momentos de euforia e depress?o. Sai pouco de sua casa, na zona sul do Rio de Janeiro, evitando aparecer em restaurantes e correr na lagoa Rodrigo de Freitas.

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Ele n?o deixou, por?m, de dar expediente no grupo EBX, e tem participado das negocia?es para vender seu imp?rio numa das maiores liquida?es de ativos do pa?s.

O estado de esp?rito de Eike ? um reflexo da profunda crise de confian?a que derrubou as a?es de suas empresas e o atolou em d?vidas. As empresas X devem R$ 23 bilh?es. Na holding, precisa pagar outros R$ 5 bilh?es.



A raz?o para a derrocada ? simples: com base em alguns bons projetos, Eike prometeu resultados exorbitantes, mas n?o entregou. A OGX seria a "mini-Petrobras", a MMX, a "mini-Vale", o porto do A?u, a "Roterd? dos tr?picos", a OSX, a "Embraer dos mares".

Ele previu que a MMX atingiria 33,7 milh?es de toneladas em 2013. Produziu no ano passado apenas 7 milh?es.

A OGX prometeu produzir entre 40 mil e 50 mil barris por dia neste ano. Em maio, estava com 10 mil.

Para entender o que ocorreu com o grupo, ? preciso entender quem ? Eike Batista.

A Folha conversou com 13 pessoas pr?ximas a ele: executivos, ex-executivos e interlocutores no governo. A maior parte falou sob condi??o de n?o ter o nome citado.

Eike e o grupo EBX n?o deram entrevista. Alguns o classificam como megaloman?aco --o que ele admite na autobiografia "O X da quest?o": "Um pouco de megalomania e ousadia ? recomend?vel".

VENDEDOR DE SEGUROS

Mineiro de Governador Valadares, Eike mudou-se crian?a para a Europa, acompanhando o pai, Eliezer Batista. Iniciou a faculdade de engenharia na Alemanha, mas n?o terminou. Vendia seguros para se manter.

Voltou ao Brasil no in?cio dos anos 80 para buscar ouro na Amaz?nia. Na ?poca, Eliezer o outorgou num peda?o de papel um "diploma de idiota" por se embrenhar naquelas fronteiras.

A m?e, Jutta Fuhrken, dizia aos filhos que deveriam ser melhores que o pai, tarefa dif?cil se tratando de Eliezer, que presidiu a Vale e construiu a mina de Caraj?s.

Eike prosperou, virou dono de mineradora de ouro e chegou ao primeiro bilh?o de d?lares. Mas s? passou a ser conhecido ao se casar com a ex-modelo Luma de Oliveira.
O casamento ganhou os jornais e a TV. Eike chegou a participar de um leil?o de um biqu?ni no Doming?o do Faust?o usado pela esposa.

Em 2005, depois de se divorciar, ele criou a MMX. Era o in?cio da trajet?ria de empreendedor serial. Eike levou seis companhias ? Bolsa. Criou outras sete. No total, levantou R$ 27 bilh?es. O empres?rio aproveitou o apetite chin?s por commodities e investiu em projetos estruturantes para o pa?s.

Ele tirou dinheiro do bolso para colocar nas suas empresas. Foi assim na MMX, quando subscreveu R$ 200 milh?es em deb?ntures para debelar uma crise.

Acreditava nos seus projetos e convencia os outros. Em 2008, vendeu por US$ 5,5 bilh?es duas minas para Anglo American. O neg?cio ilustra o talento de Eike para vender.

Ele chegou at? a levar a ent?o presidente da Anglo, Cynthia Carroll, para passear em sua lancha em Angra dos Reis. Encantada com o projeto, ela assinou o cheque.

A Anglo tenta at? hoje tirar min?rio --e dinheiro-- do investimento. Em 2012, foi obrigada a fazer uma baixa cont?bil de mais de US$ 4 bilh?es por causa da mina comprada de Eike. Carrol renunciou.

Mas a maior aposta foi a OGX, que levou 21 blocos em leil?o. As ?reas eram nas "franjas" do pr?-sal, o que gerou cr?ticas na Petrobras. "O leil?o deveria ter sido cancelado. Eike ? cria do compadrio do governo", diz Ildo Sauer, ex-diretor da estatal.

Tamb?m vieram da Petrobras para a OGX v?rios executivos, como Rodolfo Landim e Paulo Mendon?a.

Com a OGX, Eike tra?ou uma meta: ser o homem mais rico do mundo. Em 2009, passou a ser o mais rico do Brasil. Em 2012, o s?timo do mundo, com US$ 30 bilh?es, segundo a revista Forbes.

A OGX, sob comando do ge?logo Paulo Mendon?a, exagerou no otimismo.

Na maior parte das petroleiras, engenheiros de reservat?rio, respons?veis por calcular as reservas, est?o subordinados ? produ??o e "jogam ?gua fria" no entusiasmo dos ge?logos. Na OGX, respondiam a Mendon?a.

O primeiro po?o do campo de Tubar?o Azul chegou a produzir 18 mil barris ao dia. Mas a equipe falhou em prever que o decl?nio da produ??o seria r?pido. Com base em estimativas irrealistas, a OGX encomendou plataformas e se endividou.

"? como preparar uma festa para 2 mil pessoas e s? comparecerem 100", diz um ex-executivo.

As a?es da petroleira desabaram depois do an?ncio de que vai interromper a produ??o em v?rios campos. Na sexta, fecharam a R$ 0,43. Segundo especialistas, a ?rea ? rica em petr?leo, mas o ?leo ? pesado e a rocha tem pouca porosidade. Ou seja, a produ??o ? dif?cil e cara.

CAL?AS CURTAS

O estilo de gest?o de Eike tamb?m pode ter comprometido o neg?cio. Ele costumava levar seus funcion?rios ao limite, pedindo aud?cia nos projetos. Quando recebia m?s not?cias, dizia: "Voc?s t?m cal?as curtas".

Nos ?ltimos quatro anos, o grupo EBX perdeu 25 executivos. Os sal?rios eram acima do mercado, mas, na avalia??o deles, a divis?o da riqueza criada foi desigual.

Em 2009, por exemplo, Eike reduziu o b?nus de seus principais executivos. Em seguida, os convocou a aplicar dinheiro na MMX. A maior parte se negou.

O empres?rio tamb?m ? resistente a entregar participa?es nas empresas. O caso mais ruidoso foi o de Rodolfo Landim. Eike teria prometido 1% da holding ao executivo. Na ?poca, a fatia valia US$ 270 milh?es. Landim o processou e perdeu.

H? dois meses, Eike pediu ajuda ao governo.

Sempre cultivou boas rela?es em Bras?lia e chegou a pagar R$ 500 mil num terno de Lula num leil?o beneficente. Dilma foi ? inaugura??o da plataforma da OGX.

O BNDES aprovou R$ 10 bilh?es em empr?stimos a seus projetos. A decis?o foi socorr?-lo, porque sua fal?ncia seria ruim para o pa?s.

A Petrobras foi acionada e ministros foram mobilizados. Mas o governo foi atropelado por protestos, e o risco pol?tico tornou-se grande demais. As negocia?es com a Petrobras, contudo, seguem.

Sem apoio do governo, Eike vem sendo obrigado a vender ativos. No in?cio de junho, foi ao encontro de Gra?a Foster, presidente da Petrobras, junto com Andr? Esteves, do banco BTG. Dias depois, viajou ao exterior para encontrar Ivan Glasenber, CEO da Glencore, para quem tenta passar parte da MMX.

A avalia??o de executivos e banqueiros ? que parte dos projetos de Eike ? importante para o pa?s e vai sobreviver, mas na m?o de outros. Ele pode sair dessa com um bom dinheiro, mas perdeu o toque de Midas.



Tags: Derrocada de um - como Eike Batista

Fonte: uol  |  Publicado por: Da Redação
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