O economista Edmar Lisboa Bacha, integrante da equipe respons?vel pelo Plano Real, n?o se lembra se comprou alguma coisa em 1? de julho de 1994, quando as c?dulas da ent?o nova moeda come?aram a circular por todo o Pa?s. "Estava muito assustado ainda. Estava cruzando os dedos!", diz Bacha, em entrevista ao jornal?O Estado de S. Paulo, lembrando das agruras dos meses de julho e agosto do ano em que a sele??o brasileira foi tetracampe?, na Copa do Mundo dos EUA, quando a infla??o ainda veio acima do esperado pela equipe econ?mica.
Vinte anos depois, Bacha acha que o sucesso do plano deve ser relativizado: "A gente conseguiu controlar a infla??o, mas n?o conseguimos ter uma estrat?gia econ?mica que permitisse colocar o Pa?s no Primeiro Mundo". O resultado disso s?o os "pre?os surreais", problema relacionado ? baixa produtividade.
Para o controle da infla??o dar certo no Plano Real, a transpar?ncia foi fundamental, diz Bacha. Tamb?m houve negocia??o com o empresariado, embora, em alguns casos, o governo tenha sido obrigado a atuar com firmeza, como no caso da ind?stria automobil?stica, em que a redu??o de tarifas de importa??o foi usada.
"Normalmente, um plano de estabiliza??o daquela magnitude, voc? faz no primeiro ano de um governo rec?m-eleito. E n?s tivemos de fazer naquelas circunst?ncias pol?ticas muito prec?rias. A gente queria fazer uma reforma constitucional ampla, aproveitando a janela de oportunidade da revis?o constitucional (em 1993). Chegamos a mandar uma s?rie de reformas constitucionais para o Congresso, mas nada foi aprovado. N?o havia uma lideran?a pol?tica reformista. O plano teve aquela meia-sola do Fundo Social de Emerg?ncia, que conseguiu ser aprovado, mas era algo emergencial, enquanto n?o se fazia uma mudan?a mais profunda, que n?o conseguimos fazer. Ent?o, o plano teve sempre um lado fiscal menos forte do que seria o desej?vel. Ele dependeu muito, para a sua sustenta??o, de uma pol?tica monet?ria muito dura e de uma pol?tica cambial de valoriza??o do real (frente ao d?lar)."
Segundo o economista o poder de compra dos sal?rios aqui no Brasil ? razoavelmente baixo porque os pre?os dos produtos s?o surreais, e usa a express?o "Rio $urreal". "Isso reflete o problema da falta de produtividade. E tamb?m da carga tribut?ria elevad?ssima sobre o pre?o dos produtos. E esse problema ? t?o preocupante quanto a hiperinfla??o nos anos 80 e 90 porque ? uma esp?cie de enfermidade. A economia brasileira tem esses pre?os altos e tem uma infla??o relativamente mais elevada do que nossos parceiros. Al?m disso tem o "pibinho" (baixo crescimento econ?mico), tem d?ficit externo, apesar do pibinho, e tem desindustrializa??o. A economia n?o est? dando conta do recado. Estamos claramente com uma economia doente. Isso tudo tem um nome: baixa produtividade da economia. A baixa produtividade resulta dessa combina??o adversa.
Bacha afirma que o que est? por tr?s de pre?os t?o elevados ? o "custo Brasil". "Uma combina??o de carga tribut?ria (elevada) com a log?stica inadequada, com falta de infraestrutura. E, combinado a isso, uma economia que ? muito pouco integrada ao resto do mundo. O Brasil ? um pa?s isolado."
Para Bacha, o sucesso do Plano Real tem de ser relativizado. "Obviamente, s? o fato de n?o ter infla??o j? ? um grande avan?o. Estamos aqui falando que a gente conseguiu controlar a infla??o, mas n?o conseguimos ter uma estrat?gia econ?mica que permitisse colocar o Pa?s no primeiro mundo. ? isso que a gente est? discutindo hoje. ? outro desafio. Ent?o, voc? tem de relativizar. Do ponto de vista de ter conquistado a infla??o, o mais importante de tudo foi o fato de ter sido um plano totalmente transparente. Isso foi a grande contribui??o do Plano Real: mostrar que era poss?vel dar cabo da hiperinfla??o, sem choques, sem surpresas, sem confiscos, como era o padr?o dos planos anteriores. Era um plano feito totalmente ?s claras, em etapas e com a aprova??o integral do Congresso. Houve uma uni?o da t?cnica com a pol?tica."
Eu estava encarregado de negociar com o Congresso. A gente n?o fez propriamente um pacto social expl?cito, mas houve um pacto social impl?cito. N?o foi um ato voluntarista do Executivo. O Congresso atuou de forma decisiva. Cada uma das nossas tr?s grandes medidas (o Fundo Social de Emerg?ncia, a lei da URV e a lei do Real) teve contribui?es substantivas do Congresso. Foi algo muito democr?tico, com grande esfor?o de explica??o em cada uma das etapas. Havia um esfor?o enorme para tornar tudo muito claro para a popula??o, o que era essa coisa de URV."
Sobre se houve um esfor?o de explica??o do plano para os l?deres pol?ticos e se um trabalho pr?vio, Bacha diz: "Passei seis meses da minha vida l? dentro (do Congresso), explicando, em reuni?es cotidianas. N?o somente com os l?deres, mas praticamente com cada um dos congressistas. Trabalhamos de setembro a dezembro. O Fernando Henrique (Cardoso, ex-presidente e ent?o ministro da Fazenda) apresentou a proposta ? Na??o e disse que ia ser em tr?s etapas e que a gente ia come?ar pela etapa fiscal. E ia fazer um novo Or?amento, equilibrado, condicionado ? aprova??o pelo Congresso do Fundo Social de Emerg?ncia. E, se o Congresso aprovasse, a gente ia fazer a unifica??o do sistema de indexa??o. E depois que tivesse unificado o sistema de indexa??o, ia introduzir a nova moeda. Tudo isso foi preanunciado. Dissemos claramente que cada uma dessas etapas ia ser submetida ao Congresso."
Setor Privado
"T?nhamos reuni?es no Minist?rio da Fazenda. Quem comandava essas reuni?es era o Milton Dallari (ent?o assessor especial da Fazenda), que tinha cuidado do Conselho Interministerial de Pre?os na ?poca do Delfim (Netto, ex-ministro do Planejamento e da Agricultura), e era um sujeito que conhecia cada grupo empresarial brasileiro, de A a Z. Um problema com o qual t?nhamos uma preocupa??o enorme era com o abastecimento da carne, o grande drama do Cruzado. Na verdade, eram reuni?es das quais participavam os empres?rios e os sindicatos de trabalhadores. A gente estava convertendo tudo em URV e os trabalhadores, obviamente, queriam se assegurar que a corre??o dos pre?os em URV seguissem as mesmas regras adotadas para os sal?rios.
"Estava todo mundo de saco cheio de infla??o. O empresariado percebeu que aquela era uma oportunidade ?nica de ter o controle sobre a infla??o. Chamado, deu uma resposta positiva, como os sindicatos tamb?m deram. Mas houve alguns lances em que a m?o pesada do governo teve que ficar mais forte", diz Bacha sobre o engajamento do empresariado.
"Quando, por exemplo, a Anfavea (entidade representante da ind?stria automotiva) fez um acordo com o sindicato dos metal?rgicos aumentando de maneira muito al?m da prevista os sal?rios. (O governo) teve de intervir porque a gente sabia que a Anfavea podia aumentar os sal?rios o quanto quisesse porque, em seguida, ela aumentava os pre?os. Era um oligop?lio. Al?m do que, se aquelas regras de reajustes de sal?rios que estavam valendo para os metal?rgicos fossem generalizadas, a gente ia acabar n?o tendo controle sobre as regras (de reajustes) salariais."
Sobre o risco de contamina??o de outros setores como no caso da Anfavea, Bacha relembra uma reuni?o no Minist?rio da Fazenda. "Na ?poca, o ministro j? era o Ciro Gomes. Houve rebaixamento de tarifas de importa??o de autom?veis, para mostrar para eles que a gente n?o estava brincando. Em geral, houve colabora??o. De vez em quando, nesses casos de oligop?lios mais ferrenhos, a gente teve de adotar uma atitude mais dura. Mas era sempre em reuni?es, nunca teve nada for?ado. Nunca teve controle de pre?os."
Segundo Bacha, os primeiros meses foram muito complicados. "A infla??o veio muito alta em julho e agosto, porque nem todos os pre?os puderam ser convertidos em URV. Ent?o, sobrou muita infla??o do passado para julho e agosto. Isso deu um certo revert?rio. Os dois primeiros ?ndices de pre?os foram bem maiores do que a gente estava antecipando. Deu muito afli??o. Os pre?os s? come?aram a baixar mesmo em setembro."