
O estreitamento das rela?es comerciais entre Brasil e China deve ser a principal t?nica da viagem do presidente Luiz In?cio Lula da Silva (PT) ao pa?s asi?tico, que acontece neste final de semana.
Convidado pelo presidente chin?s, Xi Jinping, Lula tem uma pauta econ?mica clara: defender as rela?es j? constru?das com o maior parceiro comercial do Brasil e, eventualmente, ampliar a gama de produtos brasileiros para venda no gigante asi?tico.
Do ponto de vista geopol?tico, Lula se encontra com Xi em momento sens?vel, em que a China mostra alinhamento com a R?ssia durante a guerra na Ucr?nia. Lula precisar? balancear o aceno a um dos mais importantes motores da nossa atividade econ?mica, sem que a pol?tica externa contamine o com?rcio com outros parceiros do Ocidente — como os Estados Unidos.
De olho na balan?a comercial
Com uma comitiva que conta com parlamentares, ministros e mais de 200 empres?rios, a agenda de Lula na China ser? cheia. O principal destaque, segundo economistas, fica com a tentativa de ampliar a gama de produtos brasileiros oferecidos no mercado chin?s.
O petista tamb?m tem o desafio de desatar n?s na rela??o, herdados da gest?o de Jair Bolsonaro. Em seus anos de mandato, o ex-presidente alinhou-se irrestritamente ao colega americano Donald Trump e fez reiteradas cr?ticas ao regime chin?s — at? mesmo no com?rcio de vacinas contra a Covid-19.
Segundo o economista e s?cio da Tend?ncias Consultoria, Silvio Campos Neto, no entanto, apesar da pauta de reindustrializa??o do governo, pode ser dif?cil para o Brasil encontrar um “caminho adicional de exporta?es” para o pa?s.
De acordo com Campos Neto, seis produtos correspondem por cerca de 85% do total de exporta?es que o Brasil faz para a China: min?rio de ferro, soja, petr?leo, celulose, carnes e milho.
“? dif?cil que isso aconte?a facilmente porque, no fundo, o que a China precisa s?o os itens que j? vendemos em larga escala, como mat?rias-primas e commodities. A China j? ? um grande produtor de bens manufaturados e seus parceiros na ?sia tamb?m j? suprem bem a demanda que falta nesse sentido”, explica o economista.
“Acho mais prov?vel que a gente consiga ampliar as rela?es e os volumes do que a gente j? fornece do que emplacar exporta?es de bens industrializados”, acrescenta.
Uma China diferente
Quando Lula deixou a Presid?ncia ap?s o segundo mandato, o Brasil surfava a onda das commodities. O pa?s havia crescido 7,5% em 2010, na esteira de uma acelera??o de 10,3% da China.
O cen?rio, agora, ? outro. No come?o deste ano, por exemplo, o Fundo Monet?rio Internacional (FMI) revisou as proje?es para o crescimento da economia chinesa em 2023 de 4,4% para 5,2%, mas destacou que a expans?o do pa?s no ano que vem deve desacelerar para 4,5%, antes de se estabelecer abaixo de 4% a m?dio prazo.
A China ainda se recupera das paralisa?es econ?micas severas, consequ?ncia da pol?tica de “Covid zero” presentes at? o ano passado. Em 2023, o pa?s asi?tico determinou uma meta de crescimento de 5% — que economistas questionam se ser? atingida.
Segundo Campos Neto, a retomada chinesa ainda ? moderada e gradual. “N?o ? um crescimento t?o explosivo e grande porque a pr?pria China ainda se depara com quest?es internas”, diz.
“Temos um setor estatal com elevado n?vel de endividamento e segmentos da economia que tamb?m apresentam problemas, como ? o caso do setor imobili?rio. Agora, a tend?ncia ? que haja um ajuste desse cen?rio, o que tamb?m acaba sendo um limitante para o crescimento”, afirma o economista.
Ele explica, no entanto, que mesmo que a China apresente um crescimento menor, a atividade do pa?s ainda estar? em um n?vel “importante e satisfat?rio” e deve continuar tendo um peso importante para as exporta?es brasileiras.
Para Livio Ribeiro, especialista em China e pesquisador s?nior do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), os 5% n?o deixam de ser um n?mero ainda relevante, e que devem dar bastante suporte ?s exporta?es brasileiras.
“Prefiro uma China crescendo a 5% sem cometer excessos do que uma China que mantenha esse ritmo com pol?ticas imprudentes”, afirma.
O pesquisador diz que a tentativa de expandir a pauta comercial ? v?lida, principalmente do ponto de vista de reduzir a volatilidade dos pre?os de produtos prim?rios que o Brasil costuma exportar. Os solavancos no pre?o da soja, por exemplo, podem aumentar ou reduzir demais a arrecada??o brasileira, ele explica.
Ainda assim, ele n?o v? problema na especializa??o produtiva. “O pa?s s? fica mais blindado de choques, mas o central ? saber o que fazer com o dinheiro das vendas e, n?o, de onde ele vem.”
Como outro ponto de reflex?o, Ribeiro lembra que Lula encontra um pa?s que mudou sua estrutura pol?tica e ainda enfrenta uma sa?da de pandemia desafiadora. O caminho, portanto, pode ser diferente do que o com?rcio exterior, puro e simples.
“? um jogo diferente. ? uma economia que ficou voltada para o exterior por muito tempo e, agora, est? focada no mercado interno, que tem uma car?ncia de bens e servi?os, e que procura oportunidades de investimento”, diz.
“Podemos ter novos acordos comerciais, de investimento e reverter fluxos de capital. Mas a quest?o principal ? voltar para jogo, porque a gest?o anterior se voltou contra seu principal parceiro comercial”, prossegue.
Rela?es Internacionais
Al?m de refor?ar os la?os comerciais com Pequim, Lula tamb?m deve tratar sobre temas que envolvem o desenvolvimento do pa?s, tecnologia, mudan?a do clima, transi??o energ?tica e o combate ? fome.
“? um momento em que o Brasil e a China tamb?m falam para o mundo, isso tamb?m estar? nos objetivos”, afirmou o embaixador Eduardo Saboia, secret?rio de ?sia e Pac?fico do Itamaraty na semana passada.
Parte desse movimento, segundo os especialistas, tamb?m pode envolver uma reaproxima??o pol?tica do Brasil com Xi Jinping — principalmente ap?s as tens?es pol?ticas entre os dois pa?ses vista nos ?ltimos anos, em meio a cr?ticas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados contra o gigante asi?tico.
O ponto de aten??o s?o os eventuais debates sobre tens?es geopol?ticas, como a guerra na Ucr?nia. “Acho que ? um tema um pouco mais dif?cil de tocar, uma vez que a China est? indiretamente envolvida e o Brasil tem dificuldade de entrar no tema por conta de alguns interesses cruzados. O presidente precisar? adotar uma postura mais pragm?tica e diplom?tica”, afirma Campos Neto, da Tend?ncias.
Livio Ribeiro, do Ibre/FGV, lembra que os pa?ses ocidentais caminharam na dire??o de um crescimento de “sentimento sinof?bico” (de avers?o ? China) nos ?ltimos anos, e a diplomacia brasileira precisar? trabalhar para n?o contaminar os ?nimos da viagem.
“Come?a com Trump e continua de forma menos histri?nica [exagerada] com Biden. Quando a R?ssia foi 'ejetada' do Ocidente, ela se volta para o Oriente. Tem uma bipolaridade que pode ser misturada na quest?o comercial, de ser 'contra os EUA' e se aliar ao bloco que come?a a emergir do outro lado”, afirma o pesquisador.
“Encarar a viagem assim n?o faz sentido. A diplomacia brasileira tem hist?rico de conversar com todos.”