
O primeiro dia do Exame Nacional do Ensino M?dio (Enem) de 2019 n?o teve quest?es que possam ser consideradas "pol?micas" ou "ideol?gicas", mas professores de cursinhos ouvidos pelo G1 destacaram que as quest?es de hist?ria acabaram sendo mais f?ceis que no ano passado.
Alguns deles tamb?m disseram que temas bastante comuns, como Era Vargas e Ditadura Militar no Brasil, ficaram de fora do exame, e que a prova privilegiou temas atuais, como literatura contempor?nea e assuntos ligados ? tecnologia e ?s redes sociais.
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V?DEOS: Professores comentam as quest?es do 1? dia
De acordo com os professores, o n?vel de facilidade das quest?es de hist?ria – que representam um ter?o da prova de ci?ncias humanas – se deve ao alto n?mero de quest?es consideradas pouco conteudistas, ou seja, que poderiam ser resolvidas apenas com a interpreta??o dos textos, enunciados e alternativas.
O problema, segundo eles, ? que o aumento de quest?es f?ceis tamb?m aumenta a press?o para que os candidatos acertem as alternativas delas. Isso porque, pela metodologia do Enem, a Teoria de Resposta ao Item (TRI) avalia o percurso do estudante em todas as 45 quest?es da prova, e pode n?o conceder a pontua??o m?xima de uma quest?o dif?cil certa caso haja erros em quest?es mais f?ceis.
"A edi??o 2019 do Enem foi uma prova cl?ssica, com quest?es que abordaram temas tradicionais, apresentando testes com comandos mais claros, o que facilitava a escolha da alternativa" - Marcelo Dias, coordenador do Grupo Etapa
"Foram mantidas estruturas, como quadrinhos, figuras, tabelas e uma abordagem mais interpretativa na filosofia e na sociologia."
Alexandre Antonello, ccoordenador pedag?gico do Sistema de Ensino CPV, afirmou que, "somando tudo [provas de reda??o, ci?ncias humanas e linguagens], faltou tempo, ou o mesmo ficou no limite, pela exig?ncia das duas provas na parte de leitura e na cobran?a dos assuntos".
Leia abaixo os coment?rios de professores de 12 col?gios e cursinhos pr?-vestibulares:
Anglo Vestibulares: Daniel Perry (diretor)
COC: Marilu Mendes (geografia) e Glauco Pinheiro (hist?ria)
Col?gio De A a Z: Rodrigo Magalh?es (geografia) e David Gon?alves (reda??o)
Curso Maximize: Alexandre Takata (coordenador pedag?gico)
Curso e Col?gio Objetivo: Vera L?cia Antunes (coordenadora) e Ricardo Felipe di Carlo (hist?ria)
Curso Pr?-Vestibular Oficina do Estudante: Marcelo Pavani (diretor pedag?gico) e Victor Rysovas (hist?ria)
Descomplica: Jo?o Daniel (hist?ria)
Grupo Etapa: Marcelo Dias (coordenador) e Heric Jos? Palos (hist?ria)
Poliedro: Fernando da Espiritu Santo (gerente de intelig?ncia educacional)
ProEnem: Leandro Almeida (geografia) e Leandro Vieira (sociologia e filosofia)
SAS Plataforma de Educa??o: Ademar Celed?nio (diretor de ensino e inova?es educacionais)
Sistema de Ensino CPV: Alexandre Antonello (coordenador pedag?gico)
Prova de ci?ncias humanas menos complexa
Na vis?o da maior parte dos professores ouvidos pelo G1, a prova de ci?ncias humanas foi menos complexa como um todo.
"A prova de humanas foi um pouco menos complexa", explicou Alexandre Takata, coordenador pedag?gico do Curso Maximize. "N?o foram apresentadas, por exemplo, quest?es que demandavam an?lises conjunturais. Muitas exigiam apenas o conhecimento de um conte?do ou processo hist?rico espec?fico."
Hist?ria
Na opini?o de Glauco Pinheiro, professor de hist?ria do COC, "se o candidato tivesse calma, olhando a quest?o, a resposta estava l?. 70% da prova [de hist?ria] estava assim. N?o precisava de fato ter um conhecido pr?-estabelecido para responder a essas quest?es".
Segundo Victor Rysovas, professor de hist?ria do Oficina do Estudante, "a prova de hist?ria est? f?cil, e o candidato que n?o conseguir faz?-la vai perder ponto, porque est? muito tranquila".
Giba Alvarez, diretor do Cursinho da Poli, avalia que, "de forma geral, foi uma prova com itens menos complexos em rela??o a anos anteriores" e que, "muito provavelmente as maiores dificuldades que os alunos enfrentar?o s?o relacionadas ?queles itens em que algumas palavras n?o fazem parte do repert?rio dos estudantes".
Alexandre Antonello, coordenador pedag?gico do Sistema de Ensino CPV, ressaltou que a exig?ncia de relacionar dois textos para achar a resposta correta, que apareceu em boa parte da prova, "deve ter dificultado um pouco a vida dos alunos".
Um dos motivos da menor complexidade da prova, segundo Rodrigo Magalh?es, professor de geografia do Col?gio De A a Z, ? o fato de que "os textos n?o estavam t?o longos, o que ? uma certa tend?ncia dos ?ltimos anos". Magalh?es diz que todos os enunciados traziam um texto de apoio, mas eles eram muito diretos.
Por outro lado, Ricardo Felipe di Carlo, professor de hist?ria do Objetivo, afirmou que as quest?es da disciplina tinham exemplos mais f?ceis e outros mais dif?ceis, e considerou a prova "inteligente, com conceitos que premiam o aluno bem preparado". Ele explica que as "habilidades tradicionais do Enem" foram exigidas "de maneira anal?tica" e que as quest?es abordaram um "conte?do amplo, e hist?ria antiga, medieval, moderna, contempor?nea, do Brasil, de maneira ampla tamb?m, do Brasil Col?nia, a Independ?ncia, a Constitui??o de 1988".
Geografia
No caso de geografia, Magalh?es, do De A a Z, ressaltou que temas j? cl?ssicos do Enem apareceram novamente, como clima, desconcentra??o industrial, rela??o sociedade-natureza, a constru??o de Bras?lia e a globaliza??o. "O n?vel da prova eu diria que variou bastante, desde quest?es bem f?ceis at? algumas quest?es dif?ceis, bem conteudistas".
Por sua vez, Marilu Mendes, professora de geografia do COC, ressaltou que em anos anteriores a quantidade de quest?es conteudistas foi maior do que em 2019. "Voc?s v?o ver que tem pouqu?ssimas assim de cartografia ou geografia f?sica. Foram quest?es realmente mais de interpreta??o e do aluno estar inteirado do que est? acontecendo na atualidade", explicou ela no programa ao vivo do G1.
J? Antonello, do CPV, ressaltou que as quest?es de geografia trouxeram termos t?cnicos como "pegada ecol?gica", bem conhecida dos alunos, e outros talvez menos comuns, como "franja urbana". Ele destacou a quest?o sobre a extin??o das abelhas, um problema ambiental que foi investigado pelo Ibama em 2014.
Filosofia e sociologia
"Filosofia foi a disciplina que experimentou o maior aumento do n?mero de quest?es em rela??o aos anos anteriores", destacaram os professores do ProEnem.
"Pudemos observar quest?es de diversos per?odos hist?ricos e de v?rias correntes do pensamento filos?fico, com a presen?a de autores como Smith, Maquiavel, Bacon, Descartes, Foucault, Derrida, Santo Agostinho, Kant e Arendt."
Por outro lado, Antonello afirmou que faltaram quest?es sobre filosofia antiga, helenismo, estoicismo, pirronismo e cetismo.
Vera L?cia Antunes, coodenadora do Objetivo, disse que os professores do curso e col?gio acharam alto o n?vel das quest?es de filosofia e sociologia. "Os alunos precisavam ter um conhecimento elevado, que n?o era simples, mas uma prova pode ter provas dific?is. D? equil?brio para a prova. Dentro das humanas, a sociologia foi a mais dif?cil."
Fernando do Espiritu Santo, gerente de intelig?ncia educacional do Poliedro, afirmou que, "de uma maneira em geral, a prova inovou por um lado com algumas tem?ticas mais pr?ximas do cotidiano dos estudantes, at? em fun??o do per?odo em que aconteceram, mas sem deixar de lado os autores cl?ssicos".
Linguagens manteve n?vel de dificuldade
"A prova foi considerada do mesmo padr?o dos anos anteriores", explicou Ademar Celed?nio, diretor de ensino e inova?es educacionais do SAS Plataforma de Educa??o. Na opini?o dele, a prova teve bastante incid?ncia de literatura contempor?nea.
"Curiosamente, a prova de linguagens teve enunciados mais precisos e assertivos", ressaltou Heric Jos? Palos, coordenador de portugu?s do Grupo Etapa. Ele afirmou que a sele??o de textos foi "mais extensa, por?m sem dificuldades, sem textos imprecisos e duvidosos", e que os textos, com diversas fontes e g?neros, "envolviam tecnologia, linguagem, textos verbais e n?o verbais". Por outro lado, "os textos liter?rios apresentaram uma dificuldade um pouco maior (at? pelo g?nero, mais metaf?rico)".
"A prova foi considerada com o mesmo padr?o dos anos anteriores, por?m muito cansativa e com muitos textos. Nesse momento, ela est? sendo comparada com uma prova l? atr?s, de 2012, que foi tamb?m uma prova muito extensa, com muitos textos de comparatividade entre os outros", afirmou Celed?nio, do SAS.
Segundo Vera L?cia, do Objetivo, o Enem seguiu seu padr?o de compet?ncias e habilidades na prova de linguagens. "Por exemplo, sempre cai muita arte, as fun?es da linguagem, interpreta?es de textos, que ? comum no Enem, textos cr?ticos. Ent?o, n?o houve inova??o. Seguiu aquele padr?o excelente."
Ela citou como exemplos as quest?es sobre refugiados, a viol?ncia contra a mulher, a quest?o de direitos humanos. "? realmente uma prova que n?o te d? trabalho. O ingl?s segue tamb?m a tradi??o, tem texto, tem a poesia, tem uma m?sica da Madonna, tem uma charge. Foi uma prova bem dentro do que se esperava em ingl?s, sem problema nenhum."
Daniel Perry, diretor do Anglo Vestibulares, a prova exigiu muita leitura, como costuma acontecer, mas aumentou o n?mero de quest?es que podiam ser respondidas apenas com a interpreta??o do texto.
"? marcante a maior quantidade de quest?es de entendimento de texto. Houve pouca cobran?a de literatura e artes e pouca cobran?a de gram?tica. Podemos perceber a cobran?a de quest?es que envolveram cr?nica, publicidade, reportagem, poema e infogr?fico", afirmou Perry.
As quest?es de artes, segundo Palos, do Etapa, "n?o fugiram da tradi??o (cubismo, futurismo e abstracionismo) e foram mais simples, isto ?, com comandos mais precisos. Apenas chamou a aten??o a aus?ncia de arte contempor?nea".
J? as quest?es de l?ngua estrangeira inovaram com textos mais longos, ressaltou Alexandre Antonello, do CPV. "Na prova de espanhol tivemos duas novidades: uma quest?o em forma de poema e outra trazendo uma receita. Uma prova que exigiu a interpreta??o. No ingl?s, das cinco quest?es, uma era letra de m?sica, que tamb?m ? uma novidade, em termos de formato. Mas tudo exigia interpreta??o de texto."
Reda??o mais pr?xima dos candidatos
De acordo com David Gon?alves, professor de reda??o do Col?gio De A a Z, o tema da reda??o, sobre a "Democratiza??o do acesso ao cinema no Brasil", se encaixa no hist?rico do exame de "refletir sobre as dificuldades de parcelas da popula??o em obter certos tipos de direitos". Nesse caso, trata-se do direito de acesso ? arte, de forma mais geral, e o acesso ao cinema, falando mais especificamente.
"Ent?o isso s? comprova que n?o ? interessante a gente estipular algumas teorias conspirat?rias que de alguma forma nos comprovariam o tema antes do conhecimento do tema. Quem partiu dessa premissa vai sentir um pouco de dificuldade de escrever sobre isso talvez porque n?o tenha refletido sobre isso ao longo do ano", explicou Gon?alves.
A professora Maria Catarina Bozio, coordenadora de reda??o do Poliedro, alertou que o tema "restringe a quest?o da cultura apenas ao cinema, ent?o n?o deixa muitas lacunas". Por outro lado, trata-se de um tema mais pr?ximo dos candidatos jovens, especialmente os que est?o terminando o ensino m?dio. O fato de alguns t?picos sobre cinema, como a Lei Rouanet e as quest?es relativas ? Ancine, tamb?m podem ajudar na hora de desenvolver o texto.
"Eles [candidatos adolescentes] s?o grandes usu?rios dos servi?os de streaming de v?deo, embora nem todas as cidades, pensando principalmente no interior, tenham cinemas ou recebam filmes fora do circuito hollywoodiano. Isso poderia ser explorado, pensando um pouco em capital cultural, em ind?stria cultural, trazendo conte?dos de filosofia e sociologia que eles tamb?m trabalharam durante o ensino m?dio", explicou ela.
Aus?ncia de pol?micas e mais atualidade
Marcelo Pavani, diretor pedag?gico do Oficina do Estudante, "mesmo com os temas abordados, nenhuma quest?o suscita pol?mica, esperando do candidato uma posi??o ideol?gica espec?fica para a sua compreens?o ou resolu??o. Nesse sentido, o Inep produziu uma prova neutra, sem qualquer postura ideol?gica expl?cita".
Na opini?o de Giba Alvarez, do Cursinho da Poli, as pol?micas de fato ficaram de fora, mas, segundo alguns professores do cursinho chamaram a aten??o "alguns temas de hist?ria do Brasil n?o ca?ram esse ano: Era Vargas, ditadura militar no Brasil. Foram temas que, daqueles recorrentes, de fato esse ano n?o ca?ram".
O governo de Get?lio Vargas e a ditadura militar no Brasil s?o dois assuntos de Hist?ria do Brasil considerados recorrentes na prova. Segundo um levantamento do Poliedro, a Era Vargas ? um dos cinco temas de hist?ria mais frequentes no Enem. Desde 2009, cerca de 11% das quest?es de hist?ria abordam o assunto.
"A aus?ncia de Vargas e ditadura civil-militar pode ser um sinal de evitar temas potencialmente constrangedores", avaliou Victor Rysovas, do Oficina. "Isso pois vis?es tidas como revisionistas buscam negar o fato de que tivemos uma ditadura entre 1964 e 1985, especialmente."
Segundo Perry, do Anglo, n?o houve quest?es que possam ser consideradas pol?micas. "A prova foi t?cnica, bastante semelhante aos anos anteriores. Os tema foram distribu?dos de forma bastante abrangente, na linha da busca pela contextualiza??o das compet?ncias, relacionando-a com o cotidiano, com o mundo contempor?neo", disse ele.
Leandro Almeida e Leandro Vieira, do ProEnem, ressaltaram ainda "o baixo n?mero de quest?es de hist?ria, al?m da aus?ncia de temas cl?ssicos como Revolu??o Francesa, Segunda Guerra Mundial e Guerra Fria".
"O MEC parece ter seguido a orienta??o do ministro da Educa??o, evitando algumas quest?es consideradas 'ideol?gicas'", afirmou Tanaka, coordenador pedag?gico do Maximize." Assuntos como racismo e intoler?ncia sexual ? popula??o LGBTQI n?o apareceram nesta edi??o. Mesmo assim, as provas trataram de assuntos atuais e importantes, como obesidade, bullying, viol?ncia contra as mulheres, liberdade de express?o, refugiados e acessibilidade."
Para Alexandre Antonello, "se uma maneira geral a prova atendeu a finalidade de selecionar os melhores alunos dentro do Sisu [Sistema de Sele??o Unificada]".
Espiritu Santu, do Poliedro, concorda. "Certamente a banca que elaborou o exame trabalhou bastante no final de 2018 e comecinho de 2019 para conseguir apresentar essa tem?tica mais antenada e mais atualizada. ? isso. Foi uma boa prova e ir? discriminar os melhores estudantes. Vamos aguardar o pr?ximo domingo."