
Na tarde deste domingo (12), o ministro da Sa?de Luiz Henrique Mandetta deu entrevista ao rep?rter Murilo Salviano, do Fant?stico. De Goi?nia, no Pal?cio das Esmeraldas, sede do governo goiano, Mandetta falou sobre os meses que vir?o, o que projeta para frente e a rela??o com o presidente Jair Bolsonaro. Confira:
Fant?stico: Ministro, primeiramente obrigado pela entrevista. Estou aqui no Rio de Janeiro e o senhor em Goi?nia, no Pal?cio das Esmeraldas, sede do Governo do Estado de Goi?s.
Luiz Henrique Mandetta: ? isso. Eu vim aqui hoje, minha fam?lia, eu e minha esposa, estamos sem os filhos, sem meu pai, minha m?e. Em nome das nossas fam?lias, eu cumprimento todas as fam?lias brasileiras e a fam?lia do jornalismo do Fant?stico nesse domingo de P?scoa t?o at?pico para todos n?s.
Fant?stico: O senhor sempre d? orienta?es para os brasileiros, sobre os cuidados a serem tomados. Na vida pessoal do senhor, que cuidados o senhor tem tomado?
Mandetta: Dentro do Minist?rio da Sa?de, como a equipe ? uma equipe que est? trabalhando comigo, muito j? formada, muito bem distribu?da, a nossa dist?ncia entre um e outro ? de 2,5 a 3 metros, em qualquer circunst?ncia. At? agora, n?s n?o tivemos nenhum colaborador nosso que tenha tido a gripe, a virose.
? um cuidado muito grande, uma saudade muito grande do meu neto, dos meus filhos que est?o em Mato Grosso do Sul, do meu pai, da minha m?e. Esses eu falo com eles normalmente, por telefone, vendo as imagens. Uma parte que ? dura para todo mundo. A gente tamb?m tem feito esse exerc?cio de distanciamento de quem gosta, de quem ama a pessoa, e que sabe que nesse momento temos que ficar distante para proteger. Acho que no dia a dia n?o ? diferente do que cada brasileiro est? passando para tentar passar por isso junto. Quando a gente protege a fam?lia da gente, a gente est? protegendo a fam?lia de todo mundo.
Fant?stico: J? teve algum momento de fragilidade durante essa crise?
Mandetta: Acho que sim. ?s vezes a gente tamb?m se pega profundamente emocionado quando um neto pergunta por que n?o est? indo v?-lo. ?s vezes voc? fica um pouco emocionado, a voz fica um pouco embargada, mas voc? respira fundo.
Fant?stico: Ministro, vamos aos n?meros aqui. Neste feriado da Semana Santa, o Brasil ultrapassou a marca de mil mortes por coronav?rus. Qual a expectativa do senhor para esta pr?xima semana?Mandetta: Primeiro, n?s sabemos que esses n?meros est?o subestimados. Dentro do que a gente pensava l? no in?cio, em fevereiro, fazendo simula?es com outros pa?ses, fazendo adequa?es pro nosso clima, mais ou menos a gente sabia que chegaria na primeira quinzena de abril a aproximadamente com esses n?meros. Sabemos tamb?m desde o in?cio que fizemos a proje??o que a segunda quinzena de abril seria a quinzena que aumentar?amos e que o m?s de maio e junho seriam os meses de maior estresse pro nosso sistema de sa?de. N?s estamos agora vivendo um pouco do que fizemos duas semanas pra tr?s. Se iniciarmos precocemente uma movimenta??o, n?s vamos voltar a ter aquele mesmo padr?o do in?cio aonde voc? tinha dia ap?s dia um aumento do surgimento de brotes epid?micos. A gente imagina que os meses de maio e junho ser?o os sessenta dias mais duros para as cidades. A gente tem diferentes realidades. O Brasil a gente n?o pode comparar com a Espanha, com a It?lia, a Gr?cia, Maced?nia e at? a Inglaterra. N?s somos o pr?prio continente. Sabemos que ser?o dias duros. Seja conosco ou qualquer outra pessoa. Maio, junho, teremos dias muito duros.
Fant?stico: O que s?o dias muito duros?
Mandetta: Dias duros. Dias em que n?s seremos taxados de “olha, voc?s n?o fizeram o que tinham que fazer, por isso o sistema est? entrando em colapso. Olha, voc?s deveriam ter sido mais duros, menos duros, porque a economia est? assim, est? assado”. Sempre haver? engenheiros de obra pronta. Pessoas que depois que voc? trabalha, que faz o poss?vel e o imposs?vel para enfrentar a situa??o, que depois da situa??o passada fala “ah n?o, mas isso deveria ter sido feito assim ou assado”.
N?s teremos uma confronta??o entre o que somos e para onde queremos ir constante nesses meses que temos pela frente. Ser?o dois a tr?s meses de muito questionamento das pr?ticas de todos. E obviamente que o Minist?rio da Sa?de vai ser o mais questionado.
Essas semanas agora o comportamento da sociedade ? que dita. Esse v?rus, a hist?ria natural dele, como ele vai se comportar aqui, quem vai escrever essa hist?ria ? o comportamento da sociedade, n?o ? a pol?cia, o decreto. ? como cada um de n?s brasileiros vamos ter a consci?ncia do cuidado individual, sendo o respons?vel pelo cuidado coletivo. Ele ? uma coisa muito mais de como vamos encarar essa rela??o da din?mica social e do sistema de sa?de, da capacidade de atender.
Fant?stico: Quantos casos de coronav?rus s?o estimados para o Brasil neste ano?
Mandetta: Esse n?mero muda muito ao sabor de como a gente vai se comportar. Se n?o fizermos absolutamente nada e tivermos como se nada estivesse acontecendo, se a gente falar assim: vamos todos trabalhar, deixa s? quem tem mais de 60 anos em casa, como o pa?s vai lidar com isso... Voc? tem de n?meros menores, voc? tem cen?rios extremamente otimistas e tem cen?rios extremamente pessimistas. A gente tem a proje??o, mas sabe que isso tudo ? em fun??o do comportamento das pessoas. N?o existe absolutamente nada que influencie mais essa resposta do que como que a sociedade brasileira vai se comportar no pr?ximo m?s e dias.
N?s n?o experimentamos no Brasil at? agora o lockdown, o fechamento total. N?s estamos com diminui??o social, importante, chegamos a ter uma diminui??o expressiva, relaxamos, estamos em torno de 50%, 55%. Chegamos a ter 70%. Se cada empres?rio, se cada setor achar que o dele ? essencial e que ele tem que trabalhar, e come?ar um efeito cascata, tudo ? essencial e tem que funcionar, o Minist?rio da Sa?de vai mostrar: olha, essa atividade fez isso aqui com cada uma das cidades.
Fant?stico: Em v?rias cidades, como aqui no Rio de Janeiro, ? vis?vel um desrespeito de muitas pessoas, principalmente durante a semana, ?s medidas de isolamento social. A que o senhor atribui esse afrouxamento?
Mandetta: Acho que ? um conjunto, somat?ria, acho que tem muita gente que gosta da internet, que v? na internet alguma fake news dizendo que isso ? uma inven??o de pa?ses para ganharem vantagem econ?mica. Outras pessoas porque (acham que) existe um compl? mundial contra elas. Como se tivesse alguma solu??o, com passe de m?gica e que n?o precisasse que ningu?m fizesse sacrif?cio. Quando voc? v? as pessoas entrando em padaria, entrando em supermercado, fazendo filas uma atr?s da outra, encostadas, grudadas, pessoas fazendo piquenique em parque, isso ? claramente uma coisa equivocada.
Fant?stico: N?o tem teste em massa para os brasileiros?
Mandetta: N?o existe capacidade de se fazer uma testagem de 200 milh?es de habitantes. E, ?s vezes, voc? testa e ele d? negativo, tem que repetir teste v?rias vezes. A gente vai trabalhando basicamente como trabalhadores que s?o mais importantes no momento. Vamos testar, principalmente, aquele que precisamos que voltem ao trabalho. Se m?dico e enfermeira j? t?m anticorpos e v?o trabalhar com seguran?a porque n?o vai mais adoecer daquela doen?a: teste para eles. E para seguran?a que s?o servi?os muito essenciais: policiais, bombeiros, que precisam dessa informa??o. Dois grupos de trabalhadores.
O problema ? que a gente tem hoje mercado concentrado e aquecido que n?o tem testes suficientes para o planeta. Se a gente se comprometer a testar todos os brasileiros, n?o seria correto frente ao mercado que a gente v?. O planeta Terra inteiro quer o mesmo produto que n?s queremos. O que, portanto, nos faz ter muita cautela de nos comprometer se termos essa semana ou na outra. O Brasil ? um sistema forte e est? tentando atingir um ponto de equil?brio para os brasileiros.
Fant?stico: se a popula??o n?o ? testada, n?o tem como prever o avan?o real da doen?a. A gente est? no escuro?
Mandetta: N?o, a gente n?o est? no escuro, porque mesmo com essa testagem, a gente tem modelos matem?ticos. Com esses exames que n?s fazemos, a gente tem estat?sticas, modelos matem?ticos que nos permitem dimensionar, onde est?, deslocando para qual faixa et?ria, se est? internando quem, qual ? a capacidade instalada. N?s temos modelos matem?ticos que nos d?o muita informa??o sem testar 100% das pessoas. N?o tem receita de bolo, o que tem ?: o Minist?rio da Sa?de diz “tomem cuidado com quem tem n?vel mais alto de transmiss?o”. A?, cada governador, cada prefeito sabe o que est? fazendo.
Fant?stico: Ministro, o senhor tem dito nas coletivas que m?dico n?o abandona paciente. Mas ao mesmo tempo, disse que precisa de paz para trabalhar, reclamou de solavancos internos. J? houve insinua??o de demiss?o, o pr?prio presidente n?o respeita suas orienta?es. Ontem mesmo voc?s estiveram juntos em um hospital de campanha na regi?o de Bras?lia, ele foi em dire??o a populares e ele fez quest?o de contrariar suas recomenda?es na frente do senhor. Essa rela??o tem constrangido o senhor?
Mandetta: Ela preocupa, porque a popula??o olha e fala: mas ser? que o ministro ? contra o presidente? N?o h? ningu?m contra nem a favor de nada. O nosso inimigo, o nosso problema ? o coronav?rus. Esse ? o nosso advers?rio, inimigo. Se eu estou ministro da Sa?de, ? por obra de nomea??o do presidente. O presidente olha pelo lado da economia. O Minist?rio da Sa?de entende a economia, entende a cultura e educa??o, mas chama pelo lado de equil?brio de prote??o, ? vida. Eu espero que essa valida??o dos diferentes modelos de enfrentamento possa ser comum e termos uma ala ?nica, unificada. Por isso leva para o brasileiro uma dubiedade: n?o se sabe se escuta o ministro, o presidente.
Fant?stico: E numa situa??o como essa, a quem ouvir?
Mandetta: A gente pode ter uma disciplina e pedir disciplina para as pessoas que fa?am tamb?m seu sacrif?cio, para que a gente possa bloquear o m?ximo poss?vel. Eu estou dizendo qual o caminho: vamos por aqui. Se voc? vai ao m?dico e diz que n?o coma doce porque voc? ? diab?tico, tem pessoas que comem doce sistematicamente mesmo sendo (diab?tico). A gente diz o que pode acontecer e a pessoa continua comendo doce. Mesmo que ela tenha todas as complica?es, a gente vai l? para minimizar as complica?es.
Eu estou aqui para tentar ajudar ao m?ximo encontrar o caminho para superar o que pode no Brasil ser uma coisa com mais ou menos estresse para a nossa sociedade. Infelizmente n?o vai ser num toque de m?gica que vamos passar por isso. Foco, disciplina e ci?ncia e ficar muito firme nesse trip?, e planejamento para que possamos sair disso juntos.