Publicada em 24 de Julho de 2014 às 08h35
Na aula-espetáculo, Ariano misturava causos, informações sobre elementos da cultura popular nordestina.
O corpo do escritor Ariano Suassuna come?ou a ser velado no Pal?cio do Campo das Princesas, no Centro do Recife, ainda na noite de quarta (23). Por volta das 22h55, o caix?o foi recebido por familiares, amigos e pol?ticos, que participaram de uma celebra??o religiosa. As portas do pal?cio, que ? sede do governo de Pernambuco, s? foram abertas ao p?blico por volta das 23h30, meia hora ap?s o previsto inicialmente. Ariano morreu ?s 17h15 da quarta, v?tima de uma parada card?aca. Ele estava internado desde a noite de segunda (21) no Hospital Portugu?s, onde foi submetido a uma cirurgia na mesma noite ap?s sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) hemorr?gico.
Imagem: Costa Neto / Secretaria de Cultura de PernambucoNa aula-espet?culo, Ariano misturava causos, informa?es sobre elementos da cultura popular nordestina.?
Al?m dos familiares, muitos vestidos com a camisa do Sport Club do Recife, time de cora??o de Ariano, pol?ticos estiveram na cerim?nia realizada pelo frei franciscano Alo?sio Fragoso. O ex-governador de Pernambuco e candidato ? presid?ncia, Eduardo Campos; o atual governador do estado, Jo?o Lyra Neto, e o candidato ao Senado e ex-ministro da Integra??o, Fernando Bezerra Coelho, al?m de parentes carregaram o caix?o para o hall principal do Pal?cio. Ariano foi secret?rio de Cultura de Pernambuco e tamb?m assessor especial do governo de Campos.
Para a celebra??o familiar, o caix?o foi coberto com as bandeiras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde ele foi professor do curso de Letras, do Estado de Pernambuco e do Brasil. Durante a celebra??o religiosa, frei Alo?sio relembrou a trajet?ria do dramaturgo e destacou a religiosidade de Ariano. "L? em cima, Nossa Senhora pedir? que ele represente a pe?a O Auto da Compadecida", afirmou.
Na cerim?nia, Germana Suassuna, neta de Ariano, leu um texto em homenagem ao av?. Ela destacou que o escritor viveu os ?ltimos dias da forma que queria, no palco. Na ?ltima sexta-feira, ele apresentou sua ?ltima aula-espet?culo, no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), no Agreste pernambucano. Germana tamb?m destacou o apoio que todos os familiares dar?o a Z?lia Suassuna, agora vi?va de Ariano. "Meu av? foi o homem mais feliz do lado dela. E ela tamb?m foi a mulher mais feliz. [...] Meu av? ? simplesmente imortal", disse.
Imagem: Vitor Tavares/G1Caix?o foi coberto com as bandeiras da Universidade Federal de Pernambuco, onde ele foi professor do curso de Letras, do Estado de Pernambuco e do Brasil.
Na porta do Pal?cio, a fila de admiradores, que come?ou a se formar por volta das 23h, tinha muitos amigos e tamb?m f?s da figura p?blica de Ariano. O policial George Nascimento e sua m?e, Nelma Cristina, encontraram o escritor apenas uma vez na vida, mas guardaram o momento da lembran?a. "Foi numa igreja. Vou sempre lembrar da pessoa que ele foi, um exemplo de ser humano", comentou Nelma.
Amiga da fam?lia Suassuna e vizinha de rua de Rita Suassuna, m?e de Ariano, a matem?tica Jeanine Japiassu relembrou os tempos de adolesc?ncia. "Conhe?o ele desde os 13 anos de idade, quando ele j? era professor da minha irm?. Ele ? e sempre ser? um ?cone, uma pessoa que fez arte, criou movimentos como nenhuma outra aqui no Brasil. Agora, ele deixa um vazio”.
A previs?o ? que o vel?rio aconte?a durante toda o dia e s? termine ?s 15h desta quinta (24). O corpo ser? enterrado no Cemit?rio Morada da Paz, em Paulista, Grande Recife, por volta das 16h.
Internamentos
Em 2013, Ariano foi internado duas vezes. A primeira delas em 21 de agosto, quando sentiu-se mal ap?s sofrer um infarto agudo do mioc?rdio de pequenas propor?es, de acordo com os m?dicos, e ficou internado na unidade coron?ria, mas depois foi transferido para um apartamento no hospital. Recebeu alta ap?s seis dias, com recomenda??o de repouso e nenhuma visita.
Dias depois, um aneurisma cerebral o levou de volta ao hospital. Uma arteriografia foi feita para tratamento e ele saiu da UTI para um apartamento do hospital, de onde recebeu alta seis dias depois da interna??o, no dia 4 de setembro.
Na noite de segunda-feira (21), Ariano Suassuna deu entrada no hospital e foi operado ap?s o diagn?stico do AVC. A cirurgia foi para a coloca??o de dois drenos, na tentativa de controlar a press?o intracraniana. Na noite de ter?a, o quadro dele se agravou, devido a "queda da press?o arterial e press?o intracraniana muito elevada", conforme foi informado em boletim.
Ativo at? o fim
Ariano Suassuna nasceu em 16 de junho de 1927, em Jo?o Pessoa, e cresceu no Sert?o paraibano. Mudou-se com a fam?lia para o Recife em 1942. Mesmo com os problemas na sa?de, ele permanecia em plena atividade profissional. "No Sert?o do Nordeste a morte tem nome, chama-se Caetana. Se ela est? pensando em me levar, n?o pense que vai ser f?cil, n?o. Ela vai suar! Se vier com essas besteirinhas de infarto e aneurisma no c?rebro, isso eu tiro de letra", disse ele, em dezembro de 2013, durante a retomada de suas aulas-espet?culo.
Em mar?o deste ano, Ariano foi homenageado pelo maior bloco do mundo, o Galo da Madrugada. Ele pediu que a decora??o fosse feita nas cores do Sport, vermelho e preto, e ficou muito contente com a homenagem. “Eu acho o futebol uma manifesta??o cultural que tem muitas liga?es com o carnaval”, disse, na ocasi?o.
No mesmo m?s, o escritor concedeu uma entrevista ? TV Globo Nordeste sobre a finaliza??o de seu novo livro, “O jumento sedutor”. Os manuscritos come?aram a ser trabalhados h? mais de trinta anos.
Na ?ltima sexta-feira, Suassuna apresentou uma aula espet?culo no teatro Luiz Souto Dourado, em Garanhuns, durante o Festival de Inverno. No carnaval do pr?ximo ano, o autor paraibano deve ser homenageado pela escola de samba Unidos de Padre Miguel, do Rio de Janeiro.
Obra
A primeira pe?a do escritor, "Uma mulher vestida de sol", ganhou o pr?mio Nicolau Carlos Magno em 1948. Ariano escreveu um de seus maiores cl?ssicos, "O Auto da Compadecida", em 1955, cinco anos depois de se formar em direito. A pe?a foi apresentada pela primeira vez no Recife, em 1957, no Teatro de Santa Isabel, sem grande sucesso, explodindo nacionalmente apenas quando foi encenada – e ganhou o pr?mio – no Festival de Estudantes do Rio de Janeiro, no Teatro Dulcina. A obra ? considerada a mais famosa dele, devido ?s diversas adapta?es. Guel Arraes levou o “Auto” ? TV e ao cinema em 1999.
O escritor considera que seu melhor livro ? o “Romance d"A Pedra do Reino e o pr?ncipe do sangue do vai-e-volta”. A obra come?ou a ser produzida em 1958 e levou 12 anos para ficar pronta. Foi adaptada por Luiz Fernando Carvalho e exibida pela Rede Globo em 2007, com o nome de "A pedra do reino".
Na d?cada de 70, Ariano come?ou a articular o Movimento Armorial, que defendeu a cria??o de uma arte erudita nordestina a partir de suas ra?zes populares. Ele tamb?m foi membro-fundador do Conselho Nacional de Cultura.
Ap?s 32 anos nas salas de aula, Suassuna se aposentou do cargo de professor da Universidade Federal de Pernambuco, em 1989. O per?odo tamb?m ficou marcado pelo reconhecimento nacional do escritor – Ariano tomou posse na cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro, em 1990.