Piaui em Pauta

Fantástico faz uma reportagem com a grande mulher Delegada Vilma.

Publicada em 07 de Maio de 2012 às 00h19


O Fant?stico deste domingo, 6 de maio, exibiu mat?ria especial sobre os ?ndices alarmantes da viol?ncia contra a mulher no Brasil. A reportagem destacou as diferen?as entre os estados do Esp?rito Santo e Piau?, que tem hoje o maior e menor ?ndice de homic?dios a mulheres, respectivamente.

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O programa mostrou que o trabalho de repreens?o aliado a a??o conjunta com a Justi?a pode fazer a diferen?a, tal qual, segundo a reportagem, ? feito no Piau?. O destaque foi para a titular da delegacia da Mulher em Teresina, a delegada Vilma Alves. Ela n?o tem medo de encarar os mach?es, faz valer seu poder de delegada e ainda d? li?es de moral.

VEJA ABAIXO A REPORTAGEM COMPLETA
Esta semana, o Minist?rio da Justi?a recebeu um relat?rio preocupante sobre a viol?ncia contra a mulher no Brasil. A cada cinco minutos, uma mulher ? agredida no pa?s. Em quase 70% dos casos, quem espanca ou mata a mulher ? o namorado, marido ou ex-marido. Qual ? o estado brasileiro onde mais ocorrem assassinatos de mulheres? E o que est? sendo feito para acabar com tanta barbaridade?

Namoradas, noivas, esposas - n?o importa. “Me arrastou pelo cabelo, me jogou dentro do banheiro, enfiou minha cabe?a dentro do vaso, me bateu muito, me chutou”, lembra uma v?tima. A cada cinco minutos, uma mulher ? espancada no Brasil. “Eu vi a morte na minha frente. O vi pegando uma faca e vindo para o meu lado”, conta a v?tima.

Pode ser uma rec?m-casada, gr?vida de seis meses: “O ?ltimo que ele ia me dar ia ser na barriga, porque, a todo momento que ele dava uma paulada, ele falava que ele ia me matar”, diz uma mulher.

Pode ser algu?m apanhando em sil?ncio por mais de dez anos: “Aquilo j? virou t?o rotina, que voc? n?o conta mais quantas agress?es foram, se foram tr?s em um m?s, se foram dez”.

Nem a pol?cia consegue evitar. “Infelizmente, determinados homens botam na cabe?a que a mulher ? um objeto dele, que pertence a ele, que ele pode tudo sobre ela, que ele pode bater, que ele pode brigar e que ele pode at? matar”, afirma o delegado Adroaldo Rodrigues.

O mapa da viol?ncia de 2012, pesquisa coordenada e rec?m conclu?da pelo soci?logo J?lio Jacobo, mostra uma clara diferen?a entre assassinatos de homens e mulheres: “Homem morre primordialmente na rua. Homem morre primordialmente por viol?ncia, entre os pares, entre os jovens, na rua. Mulher morre no domic?lio, na resid?ncia”, explica Jacobo.

Ao todo, 68% das mulheres que procuraram o Sistema ?nico de Sa?de em 2011 para tratar ferimentos disseram que o agressor estava dentro de casa. Em 60% dos casos, quem espanca ou mata ? o namorado, o marido ou ex-marido.

“Minha vida j? estava um inferno na companhia de algu?m que dizia que amava, mas horas depois estava me batendo”, conta uma mulher.

Entre 87 pa?ses, o Brasil ? o 7? que mais mata. S?o 4,4 assassinatos em cada grupo de 100 mil mulheres. O estado mais violento ? o Esp?rito santo, com 9,4 homic?dios por 100 mil. E o que mata menos ? o Piau?, com 2,6 homic?dios por 100 mil mulheres. O Fant?stico foi aos dois estados para entender as raz?es dessa diferen?a.

Trezentas mulheres s?o atendidas na Delegacia da Mulher da Cidade de Serra, na Regi?o Metropolitana de Vit?ria, e pelo menos 200 homens s?o investigados todos os meses. Como Renildo, que jura inoc?ncia: “Mulher, a gente... N?o se bate. Se bate com uma rosa”, afirma.

O que n?o quer dizer que Luzia tenha paz: “Ele quebra a janela, invade a casa, entra dentro de casa. Ele quebra a fechadura da porta e entra dentro de casa, fica me esperando dentro de casa. Quando eu vejo que ele est? dentro de casa, em vez de entrar dentro de casa, eu saio e ligo para a pol?cia. S? que na hora que eu ligo para a pol?cia, ele se manda, vai embora, e a pol?cia nunca pega”, ela relata.

Nenhum argumento o convence: “Eu gosto dela, eu n?o me esque?o dela”, ele garante. “Eu j? falei com ele: ‘me d? um tempo, me deixa viver em paz, deixa eu viver minha vida. Eu j? perdi meus empregos por causa de voc?’. Mesmo assim, ele n?o me deixa em paz”, ela diz.

“Eu tenho o n?mero dela aqui. N?o vou falar que n?o. Eu ligo”, Renildo confessa. “Enquanto eu estou conversando com voc? aqui ele j? ligou! Pode olhar, enquanto eu estou conversando com voc?s aqui. Ele liga 24 horas para o meu celular”, diz Luzia.

A delegada da mulher Susane Ferreira o chamou para explicar que ele tem de ficar pelo menos 200 metros longe dela. ? ordem do juiz: “O desrespeito a essa decis?o acarreta a sua pris?o”, avisa.

Renildo prometeu ? delegada que ia respeitar a ordem. Mas a convic??o n?o passou da porta: “Eu n?o vou desistir, n?o. Eu vou correr atr?s”, confessou. O resultado foi a pris?o dele na semana seguinte. Mas nem algemado, nem levado ao xadrez, ele se convenceu: “Ela gosta de mim ainda. Tenho certeza absoluta. Ela falou que vai retirar a queixa. ? para eu pagar meu erro. Ent?o vou pagar. Acho que meu erro foi pressionar ela demais. Reconhe?o que pressionei ela demais. Ajudei ela bastante, o que eu pude fazer por ela eu fiz”, afirma.

Argumentos econ?micos como esse s?o bastante comuns. “Eu paguei um curso, eu paguei uma faculdade. E a?, para eles, isso ? uma d?vida eterna. A companheira tem que se submeter ? estrita vontade dele”, explica a delegada Susane.

A depend?ncia econ?mica fez com que uma mulher esperasse 13 anos para denunciar o marido. “Ele era agressivo no come?o. Teve uma vez que eu tentei terminar com ele e simplesmente ele foi l? e me deu um tapa na cara”, ela lembra.

Houve um tempo em que apanhava dia sim, dia n?o: “Eu j? criei aquele medo dele, que eu comecei a n?o ligar mais, a falar: ‘eu tenho que obedecer ele e acabou. Eu vou continuar com ele’. J? n?o questionava mais, obedecia. Agia assim por medo dele”, revela.

No dia em que ela prop?s separa??o, o marido se enfureceu: “Ele me empurrou. E nisso que eu abaixei para pegar a minha bolsa ele me deu uma paulada a? eu desmaiei. Com um peda?o de pau a paulada”, ela diz.

S? na cabe?a, foram 24 pontos, mais dois no rosto e um bra?o quebrado: “Fiquei sete dias na cama. Parou minha vida, eu fico perguntando para Deus: ‘Por qu?? Todo mundo se separa numa boa, por que ele fez isso comigo?’. Acabou comigo, eu olho no espelho a minha cabe?a raspada, meu rosto feio”, lamenta a v?tima.

O marido pagou fian?a e responde processo em liberdade, mas a Justi?a o proibiu de se aproximar dela. “N?o me sinto protegida com isso. At? a pol?cia chegar, ele j? me matou”, diz.

Outra mulher que foi agredida e amea?ada de morte pelo marido est? com os filhos sob a prote??o do estado em um abrigo cujo endere?o ? mantido sob absoluto sigilo. A casa ? vigiada 24 horas por dia. E a mo?a vai permanecer no local at? que a Justi?a decida o que fazer com o agressor. O problema ? que as chamadas medidas protetivas determinadas por um juiz nem sempre conseguem conter a f?ria de um assassino.

Quando foi assassinada, aos 47 anos, Anita Sampaio Leite trazia um papel que obrigava o marido a ficar pelo menos um quil?metro longe dela. “Andava com a medida protetiva dentro da bolsa, na esperan?a de que, quando o visse, entrasse em contato e fosse imediatamente para a deten??o, para o pres?dio”, lembra Ant?nio Sampaio, irm?o de Anita.

Anita e o marido, o pedreiro Hercy de Sousa Leite, de 52 anos, viveram juntos por mais de 30 anos. Os filhos do casal j? n?o suportavam ver a m?e apanhar. “Ele mantinha minha m?e completamente em c?rcere privado. Minha m?e n?o podia sair. Para ela sair, era tudo programado do jeito dele. Se passasse do jeito dele, dava problema. Ele batia nela”, conta Wellington Sampaio.

Quando Anita pediu a separa??o, em 2011, Hercy voltou a agredi-la e chegou a ser preso. Mas pagou a fian?a e foi embora. “A vida da minha irm? valeu R$ 183”, lamenta o irm?o de Anita. Anita foi morta a facadas no quintal da casa dela, em agosto de 2011. Hercy ainda est? foragido. Ele j? respondia a um processo por agress?o.

Um dia depois do assassinato, um oficial de Justi?a chegou a procurar Anita para intim?-la a depor como v?tima. “Ela est? l? no cemit?rio de Ponta da Fruta, voc? vai encontrar ela l? agora. Porque ela j? morreu. Demorou demais para chegar essa intima??o”, relata o irm?o, sobre o encontro com o oficial.

S?o tantos crimes que a pol?cia do Esp?rito Santo teve de criar a primeira delegacia do Brasil especializada em investigar homic?dios de mulheres. Quase todos os assassinos agem da mesma forma. “H? um hist?rico de agress?o anterior. Ou seja, o homem n?o chega e, em uma ocasi?o fortuita, tira a vida da mulher. N?o, isso vem como uma bola de neve, aumentando, cada vez maior, cada vez a agress?o vem de forma mais violenta, at? que culmina com um homic?dio”, explica o delegado Adroaldo Rodrigues.

Foi o que aconteceu com Josil?ia Morogeski, de 33 anos. “Ele falou que se ela largasse dele, ele mataria ela”, diz um parente da v?tima. Inconformado com a separa??o, o ex-namorado Adalberto Campos atirou cinco vezes contra Josil?ia na frente da fam?lia dela. Sexta-feira (27) ele foi preso nos arredores de Vit?ria.

Para a pol?cia do Esp?rito Santo, a raiz de todos esses crimes ? uma s?: “Traduz muitas vezes a quest?o do machismo mesmo, do homem querer resolver o problema por se fazer homem”, destaca o chefe da Pol?cia Civil do estado, Joel Lyrio.

O que faz o Piau? andar na contram?o dessa tend?ncia? “O Piau? tamb?m ? machista, s? que aqui o trabalho ? com efic?cia. Na pol?cia n?o se deve cochilar. N?o deixe a madrugada chegar, tem que ser imediato”, alerta a delegada Vilma Alves.

?s 9h50 da manh?, a delegada recebe a den?ncia. ?s 10h05, ela liga para a Pol?cia Militar pedindo uma guarni??o: “Uma senhora foi espancada e o marido quer matar. Ela est? com medo de retornar e eu quero prend?-lo”, avisou.

?s 10h20, um PM est? na delegacia recebendo instru?es. ?s 11h05, a delegada j? est? diante do acusado, preso, na Central de Cust?dia de Teresina.

Delegada: O senhor sempre bate nela?
Acusado: N?o.
Delegada: Ela disse que j? n?o aguenta mais, n?o quer mais viver com o senhor. O senhor est? sabendo que quando sair n?o vai ficar com ela, n?o ??

A pressa da delegada ? a urg?ncia do juiz. “Quando nos chega ?s m?os, a gente decide no m?ximo em 24 horas, talvez no mesmo hor?rio do expediente”, afirma o juiz Jos? Olindo Gil Barbosa.

Uma azeitada articula??o entre pol?cia e Justi?a n?o deixa den?ncias se acumularem. “At? em tom de brincadeira eu digo: ‘aqui no Piau?, a gente trabalha igual a pai de santo, a gente recebe, mas tamb?m despacha’”, diz o destaca o promotor Francisco de Jesus Lima.
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Na linha de frente dessa for?a-tarefa, uma mulher sempre perfumada, de brincos e colar de p?rolas. “Como eu ensino as mulheres a andarem bonitas, a se amarem em primeiro lugar, ent?o eu procuro andar sempre assim. Porque eu me amo”, ela garante.

Sobre a mesa de trabalho, um salto plataforma modelo Lady Gaga. E outra mesa repleta de santos. “Os meus santos est?o a? para me proteger”, diz. O resto ? com a delegada: “Eu aprendi que rem?dio de doido ? doido e meio. Mas dentro da educa??o, sem bater”, avisa.

Com educa??o, mas falando grosso: “Aqui ? olho no olho. Eu pergunto: ‘voc? comprou a sua mulher no mercado velho ou no shopping?’”.

Em audi?ncias informais, ela p?e v?tima e acusado lado a lado e d? li?es de boas maneiras. “Eu n?o sei como voc? foi educado. Mas voc? precisa de umas pinceladas de como tratar uma mulher. N?o se trata mulher na ponta do p?”.

N?o hesita em enquadrar um mach?o: “Como foi que come?ou? Olhe nos meus olhos! Como foi que come?ou essa droga?”.

E deixa claro que ordem judicial ? para ser cumprida: “Vamos resolver a situa??o. A situa??o ? essa: ela n?o quer mais voc?. Est? com um m?s que separou. Como voc? foi l?? Preste bem aten??o: voc? foi preso agora. N?o tem mais direito ? fian?a. Porque se voc? voltar, voc? vai ser preso e vai diretamente para a penitenci?ria”.

N?o importa se a mo?a de olho roxo mora em bairro chique: “Nunca vi isso na minha fam?lia, na fam?lia dele. Os dois t?m curso superior. Nossa fam?lia tamb?m tem curso superior. Classe m?dia alta”, relata uma v?tima.

A delegada assegura: ningu?m escapa do indiciamento: “Aqui ? de tudo, pol?tico e tudo. Bateu, se faz o procedimento”, garante.



Os movimentos feministas e o Minist?rio P?blico se uniram em campanha. E a pr?pria delegada, professora de forma??o, vai aonde for preciso para passar o seu recado.

“A mulher n?o ? piano, mas gosta de ser tocada. Um beijinho no pesco?o, um carinho. O certo ? voc? chegar: ‘est? aqui, meu amor, minha vida, meu perfume, minha rosa’. ? assim! Quem foi que deu um cheiro na mulher hoje?”, questiona a um grupo.

A Lei Maria da Penha ? explicada ponto a ponto. “Se voc? estiver achando que voc? ? dono de sua mulher, xinga a sua mulher, espanca todo dia, ela pode chegar na delegacia e dizer: ‘doutora, eu n?o quero mais, eu quero que meu marido saia’. E ele sai em 48 horas. Eu adoro fazer isso”, avisa.

Os maridos ouvem atentamente o alerta final: “Se voc? for?ar ? estupro. E se ela chegar na delegacia e disser que voc? estuprou, eu lhe prendo, tranquilo, meu bem”. O resultado desse esfor?o coletivo ? a queda da viol?ncia, mas se engana quem acha que os n?meros do Piau? agradam a delegada.

“Nenhum n?mero ? aceit?vel para mim. Nenhuma morte. Viver em paz ? o que ? importante. Como se admite uma mulher ser morta pelo seu marido? Porque a mulher n?o ? mais coisa, n?o ? objeto, n?o ? propriedade. Mulher ? cidad? e deve ser respeitada”, destaca.

Confira a tabela completa com o mapa de homic?dios de mulheres no Brasil

Taxas de homic?dio de mulheres (em 100 mil) por unidade federativa*

POSI??O UNIDADE FEDERAL TAXA
1? Esp?rito Santo 9,4
2? Alagoas 8,3
3? Paran? 6,3
4? Para?ba 6,0
5? Mato Grosso do Sul 6,0
6? Par? 6,0
7? Distrito Federal 5,8
8? Bahia 5,6
9? Mato Grosso 5,5
10? Pernambuco 5,4
11? Tocantins 5,1
12? Goi?s 5,1
13? Roraima 5,0
14? Rond?nia 4,8
15? Amap? 4,8
16? Acre 4,7
17? Sergipe 4,2
18? Rio Grande do Sul 4,1
19? Minas Gerais 3,9
20? Rio Grande do Norte 3,8
21? Cear? 3,7
22? Amazonas 3,7
23? Santa Catarina 3,6
24? Maranh?o 3,4
25? Rio de Janeiro 3,2
26? S?o Paulo 3,1
27? Piau? 2,6

Tags: Fantástico faz uma - Delegada Vilma.

Fonte: 180º  |  Publicado por: Da Redação
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