Piaui em Pauta

FHC pede serenidade e união entre partidos para que futuro presidente promova ajustes necessários.

Publicada em 21 de Setembro de 2018 às 06h55


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) divulgou uma carta na noite desta quinta-feira (20) direcionada aos eleitores, na qual pede serenidade e prega uni?o entre partidos para que o futuro presidente promova os ajustes necess?rios para evitar uma "crise econ?mica ainda mais profunda".

? Siga-nos no Twitter

"Em minha j? longa vida recordo-me de poucos momentos t?o decisivos para o futuro do Brasil em que as solu?es dos grandes desafios dependeram do povo", diz o ex-presidente na abertura da carta, referindo-se ?s elei?es que ocorrem em outubro.

Veja abaixo a ?ntegra da carta de Fernando Henrique Cardoso:

Carta aos eleitores e eleitoras

Em poucas semanas escolheremos os candidatos que passar?o ao segundo turno. Em minha j? longa vida recordo-me de poucos momentos t?o decisivos para o futuro do Brasil em que as solu?es dos grandes desafios dependeram do povo. Que hoje dependam, ? m?rito do pr?prio povo e de dirigentes pol?ticos que lutaram contra o autoritarismo nas ruas e no Congresso e criaram as condi?es para a promulga??o, h? trinta anos, da Constitui??o que nos rege.

Em plena vig?ncia do estado de direito nosso primeiro compromisso h? de ser com a continuidade da democracia. Ganhe quem ganhar, o povo ter? decidido soberanamente o vencedor e ponto final.

A democracia para mim ? um valor p?treo. Mas ela n?o opera no vazio. Em poucas ocasi?es vi condi?es pol?ticas e sociais t?o desafiadoras quanto as atuais. Fui ministro de um governo fruto de outro impeachment, processo sempre traum?tico. Na ?poca, a infla??o beirava 1000 por cento ao ano. O presidente Itamar Franco percebeu que a coes?o pol?tica era essencial para enfrentar os problemas. Formou um minist?rio com pol?ticos de v?rios partidos, inclu?da a oposi??o ao seu governo, tal era sua ang?stia com o poss?vel despeda?amento do pa?s. Com meu apoio e de muitas outras pessoas, lan?ou-se a estabilizar a economia. Criara as bases pol?ticas para tanto.

Agora, a fragmenta??o social e pol?tica ? maior ainda. Tanto porque as economias contempor?neas criam novas ocupa?es, mas destroem muitas outras, gerando ang?stia e medo do futuro, como porque as conex?es entre as pessoas se multiplicaram. Ao lado das m?dias tradicionais, as “m?dias sociais” permitem a cada pessoa participar diretamente da rede de informa?es (verdadeiras e falsas) que formam a opini?o p?blica. Sem m?dia livre n?o h? democracia.

Mudan?as bruscas de escolhas eleitorais s?o poss?veis, para o bem ou para o mal, a depender da a??o de cada um de n?s.

Nas escolhas que faremos o pano de fundo ? sombrio. Desatinos de pol?tica econ?mica, herdados pelo atual governo, levaram a uma situa??o na qual h? cerca de treze milh?es de desempregados e um d?ficit p?blico acumulado, sem contar os juros, de quase R$ 400 bilh?es s? nos ?ltimos quatro anos, aos quais se somar?o mais de R$ 100 bilh?es em 2018. Essa sequ?ncia de d?ficits prim?rios levou a d?vida p?blica do governo federal a quase R$ 4 trilh?es e a d?vida p?blica total a mais de R$ 5 trilh?es, cerca de 80% do PIB este ano, a despeito da redu??o da taxa de juros b?sica nos ?ltimos dois anos. A situa??o fiscal da Uni?o ? prec?ria e a de v?rios Estados, dram?tica.

Como o novo governo ter? gastos obrigat?rios (principalmente sal?rios do funcionalismo e benef?cios da previd?ncia) que j? consomem cerca de 80% das receitas da Uni?o, al?m de uma conta de juros estimada em R$ 380 bilh?es em 2019, o quadro fiscal da Uni?o tende a se agravar. O agravamento colocar? em perigo o controle da infla??o e for?ar? a eleva??o da taxa de juros. Sem a revers?o desse c?rculo vicioso o pa?s, mais cedo que tarde, mergulhar? em uma crise econ?mica ainda mais profunda.

Diante de t?o dram?tica situa??o, os candidatos ? Presid?ncia deveriam se recordar do que prometeu Churchill aos ingleses na guerra: sangue, suor e l?grimas. Poucos t?m coragem e condi??o pol?tica para isso. No geral, acenam com promessas que n?o se realizar?o com solu?es simplistas, que n?o resolvem as quest?es desafiadoras. ? necess?ria uma clara defini??o de rumo, a come?ar pelo compromisso com o ajuste inadi?vel das contas p?blicas. S?o medidas que exigem explica??o ao povo e tempo para que seus benef?cios sejam sentidos. A primeira dessas medidas ? uma lei da Previd?ncia que elimine privil?gios e assegure o equil?brio do sistema em face do envelhecimento da popula??o brasileira. A fixa??o de idades m?nimas para a aposentadoria ? inadi?vel. Ou os homens p?blicos em geral e os candidatos em particular dizem a verdade e mostram a insensatez das promessas enganadoras ou, ganhe quem ganhar, o pi?o continuar? a girar sem sair do lugar, sobre um terreno que est? afundando.


Ante a dramaticidade do quadro atual, ou se busca a coes?o pol?tica, com coragem para falar o que j? se sabe e a sensatez para juntar os mais capazes para evitar que o barco naufrague, ou o remendo eleitoral da escolha de um salvador da P?tria ou de um demagogo, mesmo que bem intencionado, nos levar? ao aprofundamento da crise econ?mica, social e pol?tica.

Os partidos t?m responsabilidade nessa crise. Nos ?ltimos anos, lan?aram-se com voracidade crescente ao butim do Estado, enredando-se na corrup??o, n?o apenas individual, mas institucional: nomeando agentes pol?ticos para, em coniv?ncia com chefes de empresas, privadas e p?blicas, desviarem recursos para os cofres partid?rios e suas campanhas. ? um fato a desmoraliza??o do sistema pol?tico inteiro, mesmo que nem todos hajam participado da sanha devastadora de recursos p?blicos. A prolifera??o dos partidos (mais de 20 na C?mara Federal e muitos outros na fila para serem registrados) acelerou o “d?-c?, toma-l?” e levou de rold?o o sistema eleitoral-partid?rio que montamos na Constitui??o de 1988. Ou se restabelece a confian?a nos partidos e na pol?tica ou nada de duradouro ser? feito.

? neste quadro preocupante que se v? a radicaliza??o dos sentimentos pol?ticos. A gravidade de uma facada com inten?es assassinas haver ferido o candidato que est? ? frente nas pesquisas eleitorais deveria servir como um grito de alerta: basta de pregar o ?dio, tantas vezes estimulado pela pr?pria v?tima do atentado. O fato de ser este o candidato ? frente das pesquisas e ter ele como principal opositor quem representa um l?der preso por acusa?es de corrup??o mostra o ponto a que chegamos.

Ainda h? tempo para deter a marcha da insensatez. Como nas Diretas-j?, n?o ? o partidarismo, nem muito menos o personalismo, que devolver? rumo ao desenvolvimento social e econ?mico. ? preciso revalorizar a virtude da toler?ncia ? pol?tica, requisito para que a democracia funcione. Qualquer dos polos da radicaliza??o atual que seja vencedor ter? enormes dificuldades para obter a coes?o nacional suficiente e necess?ria para ado??o das medidas que levem ? supera??o da crise. As promessas que t?m sido feitas s?o irrealiz?veis. As demandas do povo se transformar?o em insatisfa??o ainda maior, num quadro de viol?ncia crescente e expans?o do crime organizado.


Sem que haja escolha de uma lideran?a serena que saiba ouvir, que seja honesto, que tenha experi?ncia e capacidade pol?tica para pacificar e governar o pa?s; sem que a sociedade civil volte a atuar como tal e n?o como massa de manobra de partidos; sem que os candidatos que n?o apostam em solu?es extremas se re?nam e decidam apoiar quem melhores condi?es de ?xito eleitoral tiver, a crise tender? certamente a se agravar. Os maiores interessados nesse encontro e nessa converg?ncia devem ser os pr?prios candidatos que n?o se aliam ?s vis?es radicais que op?em “eles” contra ”n?s”.

N?o ? de estagna??o econ?mica, regress?o pol?tica e social que o Brasil precisa. Somos todos respons?veis para evitar esse descaminho. ? hora de juntar for?as e escolher bem, antes que os acontecimentos nos levem para uma perigosa radicaliza??o. Pensemos no pa?s e n?o apenas nos partidos, neste ou naquele candidato. Caso contr?rio, ser? imposs?vel mudar para melhor a vida do povo. ? isto o que est? em jogo: o povo e o pa?s. A Na??o ? o que importa neste momento decisivo.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
Tags: FHC pede serenidade - O ex-presidente

Fonte: globo  |  Publicado por: Da Redação
Comente através do Facebook
Matérias Relacionadas