Piaui em Pauta

Freire Gomes recebeu informações de Mauro Cid sobre evolução da trama golpista, diz PF.

Publicada em 16 de Fevereiro de 2024 às 09h04


?Di?logos obtidos pela Pol?cia Federal (PF) na investiga??o do plano golpista para reverter a vit?ria de Lula nas elei?es de 2022 demonstram que o ent?o comandante do Ex?rcito, Marco Ant?nio Freire Gomes, recebeu informa?es constantes do tenente-coronel Mauro Cid sobre os planos de golpe de Jair Bolsonaro e aliados ao longo de 31 dias, atrav?s de um aplicativo institucional da For?a militar.

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Na representa??o que embasou a opera??o Tempus Veritatis, deflagrada no ?ltimo dia 8 com autoriza??o do Supremo Tribunal Federal (STF), a PF cita cinco ?udios encaminhados pelo ent?o ajudante de ordens de Bolsonaro a um contato que, pela “an?lise dos dados e a contextualiza??o” a partir das demais evid?ncias colhidas pelos policiais, “indicam que as mensagens tinham como destinat?rio o ent?o comandante do Ex?rcito, general Freire Gomes”.

Entre os dias 8 de novembro e 9 de dezembro de 2022, Cid, que ? oficial da ativa, relatou ao general detalhes das tratativas golpistas discutidas a portas fechadas, entre eles a decis?o de Bolsonaro de “enxugar” a minuta do golpe e manter apenas a determina??o da pris?o do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ministro do STF, Alexandre de Moraes, e excluir outras autoridades da lista.

“Hoje o que ele [Bolsonaro] fez de manh?? Ele enxugou o decreto, n?? Aqueles considerandos [sic] que o senhor viu e enxugou o decreto, fez um decreto muito mais, ?… Resumido, n?o ??”, disse Mauro Cid no ?udio enviado ao celular que a PF diz ser de Freire Gomes ?s 12h33m do dia 9 de dezembro.

Veja os alvos da opera??o que mira Bolsonaro e aliados

Dois dias antes, de acordo com o que a PF constatou nos registros da portaria do Pal?cio da Alvorada, estiveram l? o chefe do Ex?rcito e seu contraparte da Marinha, Almir Garnier Santos, al?m do ministro da Defesa, o general da reserva e ex-comandante do Ex?rcito Paulo S?rgio Nogueira.

Em sua dela??o, o tenente-coronel Mauro Cid, que era ajudante de ordens do ex-presidente, afirmou que nesse dia Bolsonaro apresentou uma minuta de um decreto que previa a pris?o de Moraes – al?m da convoca??o de novas elei?es, e, por consequ?ncia, da anula??o da vit?ria de Lula – aos comandantes com o objetivo de sondar os ?nimos quanto ao plano que estava em curso.

Dois minutos depois da primeira mensagem, Cid ainda enviou outro ?udio que, para os investigadores, ratifica “[a rela??o das] pessoas que participaram da reuni?o no dia 07/12/2022 e a exist?ncia do decreto que foi alterado e limitado" por Bolsonaro.

“Ele mexeu naquele decreto, n?. Ele reduziu bastante [a minuta] e fez algo muito mais direto, objetivo, curto e limitado”, afirma a transcri??o.

Na dela??o, ele explicou que nessa ocasi?o o ex-presidente mandou tirar da minuta a ordem de pris?o do ministro do Supremo Gilmar Mendes e do presidente do Congresso Nacional, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), deixando apenas a ordem para prender Alexandre de Moraes.


Neste mesmo trecho, o tenente-coronel d? a entender que Bolsonaro estava ciente das potenciais implica?es de um fracasso da aventura golpista.

“Mas ele [Bolsonaro] ainda t? naquela linha do que foi discutido, [do] que foi conversado com os comandantes, n?, e com o ministro da Defesa”, afirmou Cid. “Ele entende o que pode acontecer”.

Embora traga a transcri??o dos ?udios de Cid, mas n?o especifica se Freire Gomes respondeu as mensagens enviadas pelo aplicativo de mensagens do Ex?rcito, o UNA.

Fontes da PF j? anteciparam que v?o chamar o ex-comandante a depor para esclarecer o teor das conversas com Bolsonaro. At? agora, de acordo com a pr?pria representa??o ao ministro Alexandre de Moraes, n?o est? descartada a hip?tese de omiss?o dos comandantes diante de uma tentativa de golpe.

O que o material revela ? que Mauro Cid n?o se preocupou sequer em disfar?ar nos ?udios o que estava sendo discutido.

Uma poss?vel explica??o para essa falta de cerim?nia ? o fato de que Cid e Freire Gomes j? vinham conversando sobre a mobiliza??o dos bolsonaristas desde novembro.

Na primeira comunica??o documentada pela PF, no dia 8 de novembro, Cid procurou o chefe do Ex?rcito para relatar que Bolsonaro teria desistido de “qualquer a??o mais contundente” no questionamento ?s urnas.

Mais tarde, no dia 11 de novembro, o ajudante de ordens de Bolsonaro comemorou a repercuss?o de uma carta conjunta dos comandantes das For?as Armadas que defendiam a “legitimidade” das manifesta?es que passaram a ocorrer nas portas dos quart?is depois da vit?ria de Lula nas elei?es.

O documento, que Freire Gomes tamb?m subscreveu, dizia que as institui?es reafirmavam “seu compromisso irrestrito e inabal?vel com o povo brasileiro” no contexto dos atos bolsonaristas e taxava como “conden?veis” eventuais restri?es ?s manifesta?es diante de instala?es militares por decis?o do Judici?rio ou outros agentes p?blicos.

“Ent?o, com a carta das For?as Armadas, o pessoal elogiou muito”, afirma Cid num ?udio enviado em 11 de novembro e transcrito na representa??o da PF.

“Eles est?o se sentindo seguro [sic] para dar um passo ? frente. Ent?o, os organizadores dos movimentos v?o canalizar todos os movimentos previstos [inaud?vel] o dia 15 como ?pice, a partir de agora. T? pro Congresso, STF, Pra?a dos Tr?s Poderes basicamente”.

O ajudante de ordens prossegue citando o medo de bolsonaristas de serem presos por ordem de Alexandre de Moraes.

“E o que eles entenderam dessa carta? Que, obviamente, os movimentos v?o ser convocados de forma pac?fica, e eles est?o sentindo o respaldo das For?as Armadas, porque agora esses movimentos, e ? o que os caras queriam, v?o botar o nome deles no circuito para aparecer [sic] lideran?as que puxam o movimento para o STF e o Congresso”.

A mobiliza??o de fato aconteceu no feriado da Proclama??o da Rep?blica e reuniu milhares de bolsonaristas em diversas capitais brasileiras que pediam por uma interven??o militar para manter Bolsonaro no poder.

Para a PF, o ?udio em quest?o demonstra a exist?ncia de uma interlocu??o entre as lideran?as dos atos golpistas com integrantes do governo Bolsonaro, com “alinhamento de condutas” e participa??o de militares para respaldar e intensificar “os movimentos de ataque ?s institui?es”.

“Percebe-se que no dia 11 de novembro de 2022 j? havia a inten??o de que as manifesta?es fossem direcionadas fisicamente contra o STF e o Congresso Nacional, fato que efetivamente ocorreu no dia 8 de janeiro de 2023”, afirmam os investigadores da PF na representa??o ao Supremo, em refer?ncia ? invas?o das sedes dos Tr?s Poderes por bolsonaristas golpistas.

A intera??o entre Cid e Freire Gomes continua no dia seguinte aos atos do feriado de 15 de novembro – dessa vez, para o ajudante de ordens de Bolsonaro manifestar preocupa??o com o bloqueio de 43 contas de pessoas f?sicas e jur?dicas ligadas ao agroneg?cio, determinado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes por envolvimento no bloqueio de rodovias e acampamentos nos quart?is em defesa de uma interven??o militar.

“General! Os l?deres, n?? Os empres?rios do agro que est?o financiando, colocando carro de som em Bras?lia aqui tiveram os bens bloqueados e foram chamados para depor”, relatou Cid na ocasi?o.

Cid chega a contar a Freire Gomes at? sobre a reuni?o entre Bolsonaro e o general Estevam Theophilo, ent?o comandante do Comando de Opera?es Terrestres (Coter) que, como contamos no blog, colocou suas tropas ? disposi??o para o golpe bolsonarista.

Nos ?udios, por?m, Cid conta uma hist?ria diferente, em uma aparente tentativa de n?o melindrar o comandante pelo fato de o presidente da Rep?blica estar falando diretamente com um subordinado hier?rquico.

“Acho que a ideia de falar com o general Theophilo ? conversar. Como ele [Bolsonaro], n?, t? muito preso no Alvorada ent?o ? uma maneira dele desabafar e falar um pouco [sobre] o que ele t? pensando e ouvir, n?”, disse Cid.

“N?o que [Theophilo] possa dar uma solu??o, mas que, n?… E eu acho que se n?o botar pilha, digamos assim, se n?o botar lenha na fogueira, ele mant?m aquela linha que tava sendo, que t? sendo tomada inicialmente”.

Freire Gomes at? agora tem se mantido em sil?ncio, apesar dos constantes recados e pedidos para que esclare?a os di?logos com Cid e as conversas fechadas com Bolsonaro. Fontes do Ex?rcito afirmam que ele n?o pretende se manifestar publicamente por enquanto.
Tags: Freire Gomes recebeu - Mauro Cid

Fonte: globo  |  Publicado por: Da Redação
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