Piaui em Pauta

Goleiro Bruno: um exemplo para a rapaziada do futebol.

Publicada em 09 de Março de 2013 às 23h34


?Henry Castro n?o comete infra??o de tr?nsito. Ao entrar no carro, o promotor de Justi?a de 35 anos verifica se todos os passageiros est?o com cinto de seguran?a, inclusive os do banco de tr?s. N?o faz retorno em local proibido. Na dire??o, s? atende ao celular em um caso: quando a mulher ? quem chama. "Eu preciso cuidar dela, uai!". O potiguar se sente em casa em Minas Gerais, onde vive h? nove anos. Henry ? um perna-de-pau com a bola nos p?s, desde os tempos do recreio nas escolas de Natal. J? nos campos da Justi?a, o aluno, sempre n?mero 1 da turma, acumula vit?rias. A mais not?ria delas foi conquistada no caso sobre a morte de Eliza Samudio. Um dia depois do j?ri que sentenciou o goleiro Bruno Fernandes a 22 anos e tr?s meses de pris?o, o promotor exibia satisfa??o com a condena??o. Para Henry, o resultado ? mais um elemento relevante para condenar Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, como executor de Eliza, no julgamento que come?ar? em 22 de abril. Ele acredita que um dos grandes mist?rios desse caso, no entanto, jamais ser? desvendado: "N?o tem corpo para entregar. Ele foi destru?do. Eu me surpreenderia enormemente se houvesse um corpo a ser entregue". Nos ?ltimos meses, dedicou-se a destrinchar as 17.000 p?ginas do processo de maior repercuss?o da sua curta e prodigiosa carreira. Ainda assim, encontrou tempo para fazer aulas de t?nis, estudar italiano e franc?s e cultivar seu apre?o pela astrologia e a numerologia. Na tarde desta sexta-feira, Henry Castro falou com exclusividade ao site de VEJA:

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Como a condena??o do Bruno pode servir de exemplo para a sociedade?
Pedagogicamente, a condena??o do Bruno demonstra que algu?m que alcan?a proje??o e acesso a bens n?o est? blindado perante a Justi?a. Bruno manipulou todos os recursos humanos e financeiros n?o s? para a execu??o do crime, como tamb?m para se blindar. Mas essas blindagens costumam ser fr?geis e pass?veis de fissuras. Dinheiro, influ?ncia e poder n?o asseguram que o estado e a sociedade transijam com o crime. Dinheiro n?o garante a irresponsabilidade de ningu?m. Por isso, a condena??o do ex-goleiro foi um exemplo para os jogadores, para a rapaziada toda do futebol.

Mas com dinheiro ? poss?vel contratar os melhores advogados.
A contrata??o de bons advogados n?o ? e nem deveria ser um facilitador para um criminoso. Neste caso, n?o foi. N?o foi relevante a contrata??o de profissionais caros e o manejo de testemunhas mentirosas. Nem mesmo a torcida que a sociedade tinha, mais ou menos velada, para que o Bruno fosse inocente.

O senhor acha que as pessoas torciam pelo ?dolo Bruno?
A sociedade torcia pela sua inoc?ncia, e n?o pela sua absolvi??o. S?o coisas bem diferentes. As pessoas queriam que ele fosse inocente, afinal, era uma hist?ria escabrosa protagonizada por um ?dolo que saiu da mis?ria para o estrelato esportivo. Seria mais confort?vel para o inconsciente coletivo a hist?ria do Macarr?o ciumento, talvez homossexual, que queria eliminar um inc?modo ou uma rival.

Quando a sociedade parou de torcer por ele?
Quando o Macarr?o falou. Ali come?ou a haver uma invers?o dessa torcida. Comecei a perceber isso nas ruas, mas principalmente nos coment?rios que as pessoas publicam nas mat?rias da internet. Leio os coment?rios todos. Porque ali ? coisa de cidad?o, de jurado em potencial. Ele ? meu jurado de amanh? e peguei muitas dicas ali. Uma coisa ? o coment?rio do jornalista, outra ? o cidad?o que est? opinando ali. O j?ri ? popular, coisa que a defesa esquece.

S? neste momento?
E agora, quando o Bruno falou. Ele n?o disse que mandou, nem que pediu. Mas quando falou que imaginava, que sabia, que aceitou e beneficiou-se, acabou de uma vez por todas. Sepultou qualquer empatia entre ele e a sociedade. Claro que tem os cegos, mas no geral, agora, a empatia est? rompida em definitivo.

Ele esteve confuso e, segundo o senhor, mentiu em determinados momentos do interrogat?rio. Qual foi a pior das frases dele?
Para mim, quando ele admitiu que aceitou. ? pior do que falar que se beneficiou, j? que qualquer pessoa pode beneficiar-se sem aceitar aquele fato.

O Bruno foi condenado a 22 anos e tr?s meses. Por causa da progress?o de regime, deve ir para a rua em 2017. Nas redes sociais, as pessoas t?m falado que a pena foi baixa. O senhor concorda?
Exatamente. A frustra??o est? conectada diretamente. Partiu-se da torcida pela inoc?ncia para o inconformismo com a pena. N?o foi uma pena, foi uma pluma, uma penugem. Segunda-feira, inclusive, vou apresentar o recurso. A pena deveria tangenciar trinta anos. ? extremamente razo?vel a frustra??o da popula??o.

O senhor acha que o Bruno queria matar o pr?prio filho?
Entendo que sim. Mas o Bola n?o quis. Temos que entender que o Bola ? psicopata, mas o Bruno ? perverso. Existe uma diferen?a entre eles. O psicopata ? consciente nas consequ?ncias dos seus atos. Ele ? mais requintado, mais elaborado, deixa menos rabo para tr?s. ? o Bola! O perverso ? ejaculat?rio, descontrolado, sabe? Ele sai fazendo porque ele dita, mas ? tamb?m um trapalh?o inconsequente. O perverso ? uma for?a da natureza. Ele quer, ele ? desejo. ? o Bruno, a bruta flor do querer, como na m?sica do Caetano Veloso.

Por isso nunca foi encontrado o corpo?
Exatamente. O psicopata tem rito, e o Bola ? um psicopata.

Quem planejou tudo?
O Bruno desejou e deu comando, tipo 'fa?a-se a luz'. E quem planejou mesmo foi o Macarr?o e o Zez? (Jos? Lauriano de Assis Filho, policial civil aposentado). O Bola executou.

E quando o senhor vai denunciar o Zez??
N?o vou falar sobre isso ainda. O fato ? que n?o existe mandado de pris?o algum.

Os dois pilares da defesa do Bola, que ser? julgado no pr?ximo dia 22 de abril, s?o, primeiro, o de n?o existir corpo. Em segundo, o de n?o ter sido encontrado sangue dentro da casa dele em Vespasiano, onde Eliza teria sido morta por asfixia e teve a m?o cortada e dada aos cachorros...
Certo. E tamb?m n?o havia sangue nem da carne com a qual normalmente se alimenta um cachorro. N?o ? interessante? A casa caiu para eles muito antes de a pol?cia chegar ?quele endere?o, quando a crian?a foi resgatada, ou seja, na noite do dia 25 de junho. A pol?cia s? esteve na casa do Bola no dia 7 de julho, e o crime foi praticado em 10 de junho, houve esse hiato de quase um m?s. N?o se achou sangue nenhum. Absolutamente nenhum.

O depoimento do Bruno ? relevante para a condena??o do Bola?
Em primeiro lugar, o j?ri entendeu que o Bruno foi o mandante. E ele afirma que eles contrataram o Bola para matar a Eliza. O Macarr?o foi o intermedi?rio. Macarr?o que, por sua vez, disse que o homem para quem ele entregou a Eliza ? o mesmo que tinha as tais 'conversas sinistras' com o Bruno. Ele diz: 'Ele ligava para o meu celular pedindo para falar com o Bruno'. A condena??o do Bruno foi terr?vel para o Bola. O bom mo?o dessa hist?ria foi condenado.

Mas o Bruno fala que foi o Macarr?o quem contratou o Bola.
Quem confessa, confessa sempre ao seu modo, sempre atenuando a pr?pria responsabilidade. E para isso ? preciso agravar a responsabilidade do outro. Agora eu tenho o mandante, o Bruno, o intermedi?rio, o Macarr?o, e falta o assassino.

Voc? vai lev?-los ao Tribunal do J?ri para o julgamento do Bola?
N?o tem nenhuma chance de eu dar conversa pra esses caras. S?o bandidos! J? chega o que eles disseram, n?o quero saber de mais nada vindo deles. Macarr?o, na situa??o em que est? hoje, por qualquer 5.000 reais ele fala o que mandarem.

O senhor conta com a possibilidade de achar o corpo?
N?o tem corpo para entregar. Esse corpo foi destru?do. Psicopata tem uma metodologia. Ele destruiu os corpos como fez em casos anteriores. Eu me surpreenderia enormemente se houvesse um corpo a ser entregue.

Ent?o o senhor acha que n?o ser? poss?vel o sepultamento que a m?e de Eliza quer?
Infelizmente, n?o.

Houve algum acordo para beneficiar o Macarr?o e a Dayanne, que acabou absolvida?
N?o houve. A Dayanne foi presa, denunciada e processada por responsabilidade, ou irresponsabilidade dela e do ex-marido dela, que se blindaram com mentiras. Provavelmente n?o teria ficado quatro meses presa se tivesse dito a verdade desde o in?cio. Se falasse que fez constrangida pelo Zez? l? atr?s...Mas ela colheu o fruto da mentira dela.

Mas o senhor acredita na absolvi??o dela?
Acredito. Pedi a absolvi??o e foi dada da maneira que eu pedi. A autoria do sequestro foi reconhecida. Foi perguntado se a crian?a Bruno Samudio foi sequestrada. Sim! A r? Dayanne concorreu para este crime? Sim. A? depois o jurado absolve a r?, no quesito que pedi.

E com Macarr?o, houve acordo?
O Macarr?o fez uma confiss?o parcial e a doutora sobrevalorizou a confiss?o dele, reduzindo em oito anos a pena, sim. Mas n?o recorri (12 anos por homic?dio triplamente qualificado) por uma quest?o estrat?gica, que todo mundo descobriu semanas depois. Para eu pedir o registro de ?bito de Eliza, tinha que ter a condena??o do Macarr?o transitada em julgado. N?o foi acordo. Foi estrat?gia de atua??o no processo para ter o atestado de ?bito de que ela foi morta na Rua Araruama, 173, bairro Santa Clara, Vespasiano. O atestado diz que ela morreu por asfixia na casa do Bola! ? o endere?o da morte, baseado na decis?o do j?ri. E agora o j?ri do Bruno reconheceu de novo.

E como ficou a situa??o do Bola?
(Garagalhadas). Isso veremos dia 22 de abril...

No Tribunal de J?ri h? algumas trocas de ofensas entre acusa??o e defesa. O senhor guarda alguma coisa pessoal?
Nunca. N?o me incomodo, porque eu sou atacado, mas bato tamb?m. N?o fa?o ataques pessoais. Se chamo de mentiroso, mostro a mentira.

Chamar o L?cio Adolfo (advogado de Bruno, baixinho e gordinho) de tamborete de forr? ? um pouco pessoal.
Ele ficou magoado, n?? (risos) Tamborete ? o apoio que serve para o cara que toca o tri?ngulo ou a sanfona num forr?. Que fica dando o equil?brio do p? de quem est? tocando, em cima.

E o apoio ? para quem? Para o ?rcio (Quaresma, advogado do ex-policial Bola)?
Eles se tra?ram (Henry Castro gargalha).

O Bruno chorou durante o depoimento, mas n?o chorou na senten?a. O senhor acreditou nas l?grimas dele?
Foi falso. Foram l?grimas de crocodilo. Ele tentou se fazer de coitado para comover o j?ri. Na leitura da senten?a, j? sabendo que o jogo estava perdido, Bruno resgatou sua postura pedante e sequer fingiu um novo choro.

O senhor foi muito elogiado pela sua sustenta??o oral, com frases de efeito. O senhor tinha um roteiro preparado?
N?o. Todo nordestino ? repentista (gargalhadas).
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Fonte: veja  |  Publicado por: Da Redação
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