?A crise no setor el?trico gera, at? o momento, duas expectativas ruins e uma “v?tima” real. Para o futuro se espera um forte aumento de conta de luz, que poder? ficar ainda mais cara at? 2019, e o temor de racionamento. No presente, a grande perdedora ? a Eletrobras. A estatal, que engloba Eletronorte, Eletrosul, Chesf e Furnas, amarga preju?zos bilion?rios, recebe valores que n?o cobrem seus custos, atrasa o pagamento de fornecedores, ? obrigada a entrar em cons?rcios pouco conhecidos e com retorno duvidoso e perde seu corpo t?cnico. Especialistas acreditam que, devido ao preju?zo acumulado em 2012 e 2013, de R$ 13,217 bilh?es, a empresa precisar? de socorro do governo nos pr?ximos anos. Este ano a conta n?o deve fechar de novo.
A Eletrobras tem sofrido com a interfer?ncia pol?tica, usada como bra?o empresarial para projetos do governo que causaram os atuais desequil?brios do setor el?trico. Com isso, seu valor de mercado desabou de R$ 46 bilh?es, em 2010, para os atuais R$ 11,094 bilh?es, queda de 75,89%. saiba mais Eletrobras Piau? descentraliza atividades do Conselho de Consumidores Consumidores em d?bito com a Eletrobras t?m at? hoje (28) para pagar d?vidas com desconto Eletrobras decide at? fim do ano se vender? distribuidoras, diz presidente Eletrobras prepara plano para garantir fornecimento de energia no 2? turno A partir desta quarta (04),servidores da Eletrobras paralisam os servi?os por 72h Leia mais sobre Eletrobras
As dificuldades da estatal — cuja dire??o tem forte liga??o com o PMDB, mas que est? tamb?m sob influ?ncia direta da presidente Dilma Rousseff, que vem do setor el?trico — n?o s?o poucas nem pequenas. A empresa, que em 2006 estava se preparando para se internacionalizar e crescer, come?ou a ter problemas quando o governo a obrigou a usar suas subsidi?rias para participar dos leil?es de constru??o das usinas de Santo Ant?nio e Jirau, no Rio Madeira. Desde ent?o, a estatal entra com mais de 40% em todo grande projeto de energia do pa?s.
As decis?es para estas participa?es s?o baseadas no desejo do governo de fazer grandes projetos sa?rem do papel. Um dos casos mais recentes foi o leil?o da Usina Tr?s irm?os, da Companhia Energ?tica de S?o Paulo (Cesp), quando a estatal apoiou um grupo de fundos de investimentos que n?o s?o do setor e sem conhecer seus controladores. Na sequ?ncia, a Eletrobras teve que assumir seis distribuidoras estaduais que foram federalizadas, geram preju?zos e precisam de aportes altos.
Empresa espera ter lucro este ano
O golpe de miseric?rdia foi dado em 2012, com a Medida Provis?ria (MP) 579, que tentou baixar ? for?a o pre?o da energia no pa?s, com uma proposta de renova??o antecipada dos contratos do setor em troca de tarifas menores. Para isso, a estatal viu o valor de seus ativos ca?rem em R$ 10 bilh?es e teve que celebrar contratos em que se compromete a vender energia el?trica a R$ 9 o megawatt hora (MWh), pre?o 92,5% menor que a m?dia de R$ 120 praticada pelo setor hidrel?trico. Para piorar, a estatal, com seu Programa de Demiss?o Volunt?ria, tem perdido profissionais competentes, desmontando seu corpo t?cnico.
— O governo est? matando a Eletrobras a agulhadas — afirma Erik Eduardo Rego, do Departamento de Engenharia de Produ??o da Escola Polit?cnica da USP.
A Eletrobras diz estar em fase de reestrutura??o. O objetivo da companhia, oficialmente, ? voltar ao azul ainda este ano. “Est?o sendo finalizados os estudos para a reestrutura??o do modelo de gest?o empresarial, da governan?a corporativa e societ?ria. Eles devem ser apresentados at? o fim deste semestre. A empresa deixou de receber receitas no valor de R$ 8,5 bilh?es e est?, no momento, adequando-se a essa situa??o”, informou a empresa por e-mail.
Apesar de ser a maior empresa de energia do pa?s, respondendo por 34% da gera??o nacional e com faturamento anual de R$ 23,8 bilh?es, a empresa ? apenas a 33? mais valiosa da Bolsa. Seu valor de mercado (R$ 11,094 bilh?es) est? inferior ao de outras empresas menores do setor, como Tractebel (avaliada em R$ 20,8 bilh?es e com receita anual de R$ 5,6 bilh?es), Cemig (valor de mercado em R$ 20,2 bilh?es e receita de R$ 14,6 bilh?es) e CPFL Energia (avaliada em R$ 18,7 bilh?es e receita de R$ 14,6 bilh?es).
— O que ocorreu com a Eletrobras eu nunca vi em nenhum outro lugar do mundo. O governo determinou em 2012 a venda do MWh a R$ 9 baseado em estudos do per?odo p?s-apag?o, quando a estatal teve preju?zo. Este valor n?o paga os custos. No futuro, o Tesouro Nacional ter? que socorrer a empresa — diz Roberto D’Ara?jo, presidente do Instituto para o Desenvolvimento Estrat?gico do Setor El?trico.
Gra?as ? MP 579, diz D’Ara?jo, outra hidrel?trica vende o MWh a R$ 270 a 15 quil?metros de onde Furnas fornece a R$ 9, ambas geradas no mesmo Rio Grande.
Meta era ser ‘Petrobras do setor el?trico’
Presidente da Eletrobras entre 2003 e 2004, o diretor do Coppe/UFRJ Luiz Pinguelli Rosa recorda da meta central da empresa nos primeiros anos do s?culo: transform?-la na Petrobras do setor el?trico.
— Mas a MP 579 causou uma inviabilidade econ?mica gigantesca para a empresa. A deprecia??o foi enorme. O plano de demiss?o volunt?ria provocou a perda de bons engenheiros, de bons t?cnicos. Al?m disso, h? dificuldade de manuten??o na estrutura atual e problemas com distribuidoras e geradoras do Norte e do Nordeste.
Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor El?trico (Gesel) da UFRJ, afirma que a empresa tem que buscar investimentos que aumentem rapidamente seu fluxo de caixa: linhas de transmiss?o e gera??o e?lica:
— O que vemos na Eletrobras n?o ? um abacaxi, ? uma planta??o de abacaxis — diz, defendendo que a empresa feche seu capital para ficar menos pressionada.
Karina Freitas, analista da Conc?rdia Corretora, diz que o problema ? a interfer?ncia pol?tica. Sem isso, a Eletrobras poderia n?o ter renovado algumas das concess?es dentro da MP 579. Para ela os pap?is da estatal est?o vol?teis, ao sabor das pesquisas eleitorais, mas nem a piora da presidente — que pode indicar nova gest?o — deve melhorar a cota??o das a?es.
Funcion?rios preocupados
A participa??o da estatal em grandes projetos, com fundos poucos conhecidos, gera desconfian?a em Ildo Sauer, diretor do Instituto de Eletrot?cnica e Energia (IEE) da USP:
— A Eletrobras ? hoje uma muleta para o governo fazer neg?cios obscuros. E ela precisou assumir isso depois que o governo reduziu o valor de seu recebimento na canetada, sem estudo, pagando valores inexequ?veis.
Na semana passada, os funcion?rios fizeram greve de dois dias para cobrar o pagamento da participa??o nos lucros e resultados. Segundo a Associa??o dos Empregados da Eletrobras (Aeel), a empresa alega que n?o houve lucros para o pagamento das bonifica?es.
Procurado, o governo informou “que os entes p?blicos que falam sobre o setor el?trico s?o: Eletrobras, Minist?rio de Minas e Energia, EPE, ONS e Aneel. Sobre aporte do Tesouro, a fonte deve ser o Minist?rio da Fazenda”.