Por Julia Affonso
Era madrugada de 12 de fevereiro de 2011, na Lagoa, zona sul do Rio de Janeiro, quando uma caminhonete preta foi parada na Opera??o Lei Seca. A agente de tr?nsito Luciana Tamburini n?o tinha visto o carro ser abordado. Ela participava de mais uma blitz rotineira em tr?s anos. De dentro da barraca, ela viu um reboquista entrar no local dizendo a ela que precisava levar um carro, mas o dono n?o deixava. O propriet?rio do ve?culo era Jo?o Carlos de Souza Correa, juiz de Direito.
O carro n?o tinha placas e documentos e o juiz estava sem a carteira de motorista. Segundo ela, o magistrado achou que ela estivesse sendo abusada na abordagem e disse que ela deveria ser levada para a delegacia. Neste momento, a agente conta que disse: “Ele quer, mas n?o ? Deus.” Nesta semana, a frase foi repetida milhares de vezes nas redes sociais e virou hashtag no Twitter: #juiznaoedeus.
A confus?o saiu da barraca da Lei Seca e terminou na delegacia. Dias depois, segundo Luciana, o juiz foi ao Detran e entrou com uma representa??o interna contra ela. Sentindo-se injusti?ada, ela recorreu ? Justi?a comum e o processou por danos morais. Mais de dois anos depois, ela perdeu a a??o e foi condenada a pagar R$ 10 mil a ele. Luciana recorreu e perdeu mais uma vez. No ?ltimo dia 22 de outubro, o desembargador Jos? Carlos Paes, relator do caso no Tribunal de Justi?a do Rio, decidiu que ela deveria pagar R$ 5 mil ao juiz.
Indignados com a decis?o judicial, internautas criaram uma vaquinha online para arrecadar o valor da indeniza??o da agente, que recebe cerca de R$ 3.7 mil mensais de sal?rio. Em quatro dias, a quantia passou de R$ 20 mil. Luciana vai recorrer da decis?o. Se ganhar, promete doar a quantia toda para uma institui??o de caridade. O juiz n?o quis se pronunciar sobre o caso.
Luciana falou. A ga?cha de nascimento e carioca de cora??o contou o que se passou naquela noite e o que espera do caso daqui para a frente. Ex-atleta de t?nis, ela passou 5 anos morando nos EUA, onde se formou em Economia. Voltou ao Brasil e revalidou o diploma estudando Administra??o. Depois do epis?dio na blitz da Lei Seca, a agente passou a trabalhar internamente. Hoje, est? licenciada do Detran e aguarda ser chamada em um concurso para escriv? da Pol?cia Federal.
ESTAD?O: O que aconteceu naquela noite?
LUCIANA TAMBURINI: Quando eu cheguei para conversar, ele j? tinha dito que era juiz, mas n?o tinha se identificado para mim. Eu disse: ‘Senhor, o seu carro vai ser removido, porque est? sem registro’. Ele falou que n?o sabia da exist?ncia dessa lei. Eu expliquei que ningu?m pode alegar desconhecimento da lei para se beneficiar dela. A lei existe e eu vou ter que aplicar. Nesse momento, ele afirmou que eu estava sendo abusada. Eu disse que n?o. Ele perguntou se eu n?o achava a lei abusiva. Eu disse que eu n?o era legisladora.
ESTAD?O: Para onde voc? foi?
LUCIANA TAMBURINI: O coordenador falou comigo que aquilo estava gerando muita confus?o e pediu para a gente resolver tudo na delegacia. Fiquei l? at? as 10h. Sa? e fui direto para casa. Estava extremamente cansada, f?sica e emocionalmente. Tomei um banho, desliguei o celular e tentei dormir. Recebi um telefonema do Detran e do meu chefe pedindo para enviar um relat?rio sobre o ocorrido na opera??o da noite anterior.
ESTAD?O: De quem voc? recebeu solidariedade nos primeiros dias?
LUCIANA TAMBURINI: Minha fam?lia sempre esteve do meu lado, assim como os colegas de trabalho. Recebi liga?es da minha chefia, do coordenador da opera??o Lei Seca, que me ajudou muito e inclusive foi me encontrar na delegacia. Ouvi de outras pessoas que deveria ter liberado o magistrado para evitar maiores problemas. Coment?rios que entristecem, uma vez que muitas das vezes deixamos de buscar os nossos direitos por medo e descr?dito no Judici?rio.
ESTAD?O: O que muda na sua vida depois desse epis?dio?
LUCIANA TAMBURINI: Sempre procurei agir correta e dignamente, mas com certeza cresce o sentimento de injusti?a, de insatisfa??o pelo que estamos vivenciando atualmente no Brasil. Cresce a vontade de fazer a diferen?a, nem que seja dentro de casa, a vontade de ver o Pa?s mudar, evoluir. Acho que cresce a necessidade de ver o nosso Pais democr?tico sendo governado por pessoas honestas e id?neas.
ESTAD?O: Seu caso pode influenciar as pessoas a fazerem a coisa certa?
LUCIANA TAMBURINI: Com certeza. A mudan?a ? essencial e necess?ria. Essa como??o social s? demonstra isso. Todo querem ver um Brasil melhor, diferente, justo. A popula??o ? carente de informa??o. Com as redes sociais, a m?dia, hoje temos muito mais recursos e informa?es. Sabemos que temos direitos e deveres perante a sociedade. N?o temos mais medo.
ESTAD?O: Depois da repercuss?o desses dias, quem ligou se solidarizando? O juiz entrou em contato?
LUCIANA TAMBURINI: V?rias pessoas ligaram apoiando, desde amigos, colegas de trabalho, parentes, desconhecidos, imprensa. O apoio est? vindo de todas as partes.
ESTAD?O: Gostaria que ele pedisse desculpas a voc??
LUCIANA TAMBURINI: Acho que ele deve desculpas ? magistratura em geral, porque atitudes como a dele mancham a classe.