Publicada em 09 de Maio de 2014 às 10h40
Pax Dickinson, na esquerda, e Elissa Shevinsky, que encerraram sua parceria profissional
Imagem: Representa??oPax Dickinson, na esquerda, e Elissa Shevinsky, que encerraram sua parceria profissional?
Elissa Shevinsky assistia em seu laptop e no iPhone ? transmiss?o ao vivo da maratona hacker TechCrunch Disrupt, em 8 de setembro do ano passado. Empreendedores exibiam seus produtos, e dois jovens australianos, David Boulton e Jethro Batts, ficaram de p? para fazer sua apresenta??o.
"O Titstare ? um aplicativo em que voc? tira fotos de si mesmo olhando tetas", come?ou Boulton. saiba mais Artes? supera perda de vis?o e vira empres?ria em Roraima Leia mais sobre Empreendedores
Shevinsky, 35, n?o foi a ?nica a ficar incomodada com a apresenta??o. O Twitter ficou em polvorosa. Ela embarcou e escreveu em um blog: "Achei que n?o precis?vamos de mais mulheres na tecnologia. Eu estava errada".
No dia seguinte, Pax Dickinson, s?cio dela na start-up Glimpse Labs e diretor de tecnologia do site Business Insider, defendeu os criadores do Titstare.
"N?o ? misoginia contar uma piada machista, nem o fato de n?o levar uma mulher a s?rio, nem gostar de seios", escreveu ele
Shevinsky se sentiu levada ao limite. Mulheres que entram em ?reas dominadas por homens costumam se sentir assim. Querem fazer o trabalho e se adequar, mas a? acontece algo que faz com que elas se sintam marginalizadas.
Hoje, quando tantas barreiras j? ca?ram para as mulheres, o mais inovador setor da economia continua para tr?s em suas atitudes sexuais: 56% das suas profissionais saem antes da metade da carreira, o dobro do ?ndice para os homens, segundo a Escola de Administra??o de Harvard.
A culpa, segundo muitas pessoas da ?rea, ? de uma cultura sexista, que pode levar mulheres e pessoas fora dos padr?es a se sentirem indesejadas.
"? como mil pequenos cortes com papel", diz Ashe Dryden, atualmente consultora para diversidade em tecnologia, ao descrever o trabalho nessa ?rea.
"Fui assediada, pessoas me fizeram coment?rios sugestivos. Recebi amea?as de estupro e morte apenas por falar sobre isso."
Shevinsky tamb?m teve seus dissabores. Dias depois do tu?te de Dickinson, ela deixou a Glimpse. "S? queria trabalhar, programar e fazer softwares, mas o Titstare me mostrou que era invi?vel."
O Business Insider obrigou Dickinson a se demitir. Os empreendedores australianos e a TechCrunch pediram desculpas.
"Vemos essas mat?rias, "Por que n?o h? mais mulheres na engenharia e ci?ncia da computa??o?", e v?m todas aquelas respostas complicadas", disse Lauren Weinstein, um homem que passou 40 anos no setor, trabalhando principalmente com homens.
"Mas acho que h? uma raz?o mais simples: esses caras s?o simplesmente uns imbecis, e as mulheres sabem disso."
As start-ups s?o um terreno f?rtil para o machismo. O limite entre trabalho e vida social costuma ser t?nue, e os criadores e os primeiros empregados das empresas geralmente s?o amigos.
O resultado pode ser um ambiente sem regras, disse Julie Ann Horvath, designer e desenvolvedora de software. Em mar?o, ela pediu demiss?o de forma p?blica do site de programa??o GitHub, apontando uma cultura de intimida??o contra as mulheres.
A ci?ncia da computa??o nem sempre foi dominada por homens. "No come?o, a palavra "computadores" queria dizer "mulheres"", diz Ruth Oldenziel, professora da Universidade de Tecnologia de Eindhoven, na Holanda, que estuda hist?ria, g?nero e tecnologia.
Seis mulheres programaram um dos mais famosos computadores da hist?ria, o Eniac, para o Ex?rcito dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.
Mas, segundo Oldenziel, as mulheres deixaram a carreira ? medida que essa ?rea ganhou prest?gio. Em 2012, apenas 18% dos p?s-graduados em ci?ncias da computa??o eram mulheres, contra 37% em 1985, segundo o Centro Nacional para as Mulheres e a Tecnologia da Informa??o.
No entanto, "as mulheres s?o cada vez mais consumidoras; elas n?o v?o gostar de produtos que n?o funcionem para elas", disse Londa Schiebinger, da Universidade de Stanford, na Calif?rnia.
E as principais empresas de tecnologia dizem que recrutar mulheres ? uma prioridade por causa do crescente n?mero de vagas dispon?veis no setor.
Depois que Shevinsky saiu da Glimpse, Dickinson fez da sua volta uma miss?o. Meses atr?s, ele publicou em um blog de tecnologia um pedido de desculpas.
Shevinsky voltou ? Glimpse. Seu t?tulo ? o de "chefona" - que, segundo ela, passa a ideia de haver mulheres no comando. Tr?s das seis pessoas que trabalham na empresa s?o mulheres, assim como dois dos tr?s membros do conselho de gest?o.
Mas Shevinsky decidiu trabalhar novamente com Dickinson em parte porque diz acreditar em outro tempo de diversidade: a de pensamento. "? perigos?ssimo para n?s, enquanto comunidade", afirmou ela, "dizer que s? trabalharemos com pessoas que partilham das nossas cren?as".