Piaui em Pauta

Médico cubano vê vinda ao Brasil como chance de fazer pé-de-meia.

Publicada em 01 de Setembro de 2013 às 13h26



?"M?e, o que voc? acha de Carlos David?", pergunta Laura, 25, com uma barriga redonda em um vestido florido, a Ana, uma m?dica de 49 anos que deixar? Havana rumo ao Brasil no dia 10.

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"Gosto muito", diz a m?dica, que diz que o terceiro neto nasce em novembro. "Com o primeiro foi o mesmo. Eu estava na Venezuela, mas pude vir para o parto. Foi bom. Agora n?o sei como vai ser."

N?o s? Ana, funcion?ria de um hospital de Havana, mas tamb?m seu marido, em miss?o t?cnica pelo governo de Cuba num pa?s africano, podem perder o nascimento.

A m?dica n?o tem d?vida, no entanto, de que valer? a pena ser um dos 4.000 profissionais recrutados por Cuba para o Mais M?dicos.

Ela diz n?o saber quanto ganhar? no Brasil. Ouviu que ser?o US$ 1.000 (R$ 2.380) dos US$ 4.201 (R$ 10 mil) que o governo brasileiro pagar? ao cubano por m?dico, mas isso n?o lhe importa.

"Por pior que seja o pa?s, vale a pena. Sempre o sal?rio vai ser maior do que aqui. E o que ganhamos vale muito aqui em Cuba. Al?m do mais, ? uma coisa que n?o ? f?cil de entender. N?s somos formados desde pequenos com outra ideia de medicina, gostamos de servir", diz Ana.

Sem os sete anos em que ela e o marido passaram na Venezuela, em miss?o similar a que cumprir? no Brasil, ela jamais compraria a casa pr?pria subsidiada pelo Estado no valor de US$ 4.000.

Em Cuba, h? duas moedas vigentes. O peso cubano, da maioria dos sal?rios e de alguns produtos b?sicos, e o CUC, equivalente ao d?lar, que compra tudo o mais.

A m?dica, com mestrado em emerg?ncias m?dicas e professora, ganha algo como US$ 26 mensais --ou R$ 62.



META DE VIDA

O ?nico nome real do relato acima ? o do beb?. Ana, seus familiares e os demais profissionais de sa?de cubanos ouvidos pela Folha em Havana mant?m o anonimato por n?o estarem autorizados a falar com a imprensa.

Em muitas das hist?rias, a conclus?o de Ana se repetiu. Enquanto ao chegar ao Brasil profissionais cubanos foram chamados de "escravos" nesta semana, viajar ao exterior como funcion?rio do governo, mesmo sob restri?es, ? algo disputado.

No caso dos m?dicos, pode ser a oportunidade de fugir de sal?rios irris?rios e de dois ou tr?s bicos. Mais importante: pode ser a chance de obter o dinheiro que n?o conseguiriam a vida toda.

"Todos os cinco que trabalham comigo t?m outros trabalhos. Um vende perfume, o outro ? carpinteiro, outra aluga equipamento de som e outro ? taxista. Eu, que estudei para ter meu dinheiro e ser independente, vivo do meu marido, que tem curso t?cnico", explica a pediatra Consuelo, 43, que tenta se inscrever de maneira independente no Mais M?dicos.

Consuelo conta que as ferramentas do m?dico-carpinteiro e o equipamento de som do colega empreendedor foram conquistas dos dois ap?s voltarem da miss?o na Venezuela, onde, como Ana, ganhavam US$ 200 (R$ 476).

A fam?lia em Cuba recebia at? US$ 100 (R$ 238) mensais. Todos ganham ainda um cart?o que d? 30% de desconto nas lojas dolarizadas.

Para Roberto Veiga, editor da influente revista cubana ligada ? igreja "Espacio Laical", ? razo?vel que o governo cubano cobre um "imposto" dos m?dicos que leva para trabalhar no estrangeiro.

E o governo conseguiria esse recrutamento se o sal?rio em Cuba fosse maior?

"Os baixos sal?rios s?o a express?o-chave da crise econ?mica. Mas, ainda que houvesse em Cuba a possibilidade de um sal?rio digno, creio que a superpopula??o de m?dicos faria a possibilidade de trabalho no exterior atrativa, talvez de outra maneira", diz.

Pavel Vidal Alejandro, economista cubano que atua em universidade da Col?mbia, diz que para explicar o fen?meno inteiro ? preciso voltar ? queda da URSS, quando a ilha comunista perdeu seu aliado pol?tico e econ?mico. Os sal?rios s?o hoje 70% do que eram em 1989 e os pre?os se multiplicaram por oito.

"? verdade que os m?dicos cubanos v?o receber no Brasil bem mais do que recebem em Cuba. Mas tamb?m ? verdade que o Estado tamb?m vai receber bem mais alto rendimento. A empresa estatal tem um modelo de rentabilidade de neg?cio baseado em baix?ssimos sal?rios. O que est? ocorrendo ? uma extens?o desse modelo, levado ? Venezuela, ao Brasil."
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Fonte: UOL  |  Publicado por: Da Redação
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