Publicada em 05 de Maio de 2014 às 07h38
Movimento Pastoral Africano
Imagem: Reprodu??o/BBCMovimento Pastoral Africano
Nascida na Guin?-Bissau, pa?s na ?frica Ocidental que ? um dos mais pobres e inst?veis do mundo, Ciserina Santos se mudou para Fortaleza h? quatro anos para cursar uma faculdade privada, paga do pr?prio bolso.
Neste ano, a jovem de 29 anos se formou em tecnologia da informa??o e descobriu que estava gr?vida do companheiro.
Dois meses depois de sua formatura, em mar?o, Santos deu entrada no hospital estadual C?sar Cals com febre e dores no corpo. Segundo amigos, ela temia estar com dengue.
Na madrugada seguinte, a jovem perdeu o beb?. Ela passou um m?s internada e, no dia 24, morreu ap?s sofrer um derrame.
Em janeiro, outro estudante guineense morreu em Fortaleza. Lester Raul Indeque, de 31 anos, havia ido ao hospital estadual S?o Jos? para uma consulta. Acabou internado e diagnosticado com pneumonia. Ele morreu no hospital alguns dias depois.
Como sua fam?lia n?o tinha dinheiro para transportar o corpo at? a Guin?-Bissau, amigos e parentes fizeram uma campanha no Facebook para arrecadar recursos para o translado.
A campanha teve o apoio do Movimento Pastoral Africano, grupo criado pela primeira leva de estudantes guineenses a aportar em Fortaleza, em 2009. O movimento diz que o transporte custou cerca de R$ 25 mil.
Menos de tr?s meses ap?s conseguir levar o corpo do jovem de volta ? Guin?-Bissau, o grupo agora colhe doa?es para devolver o corpo de Ciserina Santos ? sua fam?lia. As mortes revoltaram os guineenses em Fortaleza.
"N?o ? poss?vel que duas pessoas deem entrada no hospital e nenhuma delas sobreviva", diz Alberto Imbunde.
Imbunde afirma que os m?dicos n?o deram a devida aten??o aos seus compatriotas e que o hospital C?sar Cals n?o esclareceu a morte de Ciserina Santos. "N?o sabemos de nada. Queremos que um m?dico fa?a um laudo, nos mostre o que aconteceu".
Em nota ? BBC Brasil, o hospital C?sar Cals disse que Santos deu entrada no hospital com suspeita de aborto e foi prontamente atendida.
Segundo o hospital, o aborto "desencadeou o surgimento de doen?a tromb?tica que evoluiu para insufici?ncia de m?ltiplos ?rg?os".
A paciente, diz a nota, respondeu bem ao tratamento e foi transferida para a enfermaria "consciente e em bom estado cl?nico". "Ap?s cerca de quatro dias, apresentou acidente vascular cerebral hemorr?gico, evoluindo com morte encef?lica."
O hospital diz que m?dicos, psic?logos e assistentes sociais se reuniram com os familiares para explicar a situa??o cl?nica da paciente, e que o corpo passou por necropsia no curso de medicina da Universidade Federal do Cear?.
Procurado, o hospital S?o Jos? n?o respondeu questionamentos sobre a morte de Lester Raul Indeque.
Dificuldades em Guin?-Bissau
Indeque e Santos integravam um grupo cada vez mais numeroso de estudantes da Guin?-Bissau no Cear?.
Segundo o Movimento Pastoral Africano, h? hoje entre 700 e 800 jovens do pa?s africano em Fortaleza, a maioria matriculada em universidades privadas.
Outros 181 jovens guineenses moram no interior do Estado, em Reden??o, sede da Unilab (Universidade da Integra??o Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira). Criada em 2010 pelo governo federal, a universidade atraiu ainda mais estudantes estrangeiros – principalmente africanos de pa?ses lus?fonos – para o Cear?.
Hoje, al?m dos 181 guineenses, estudam na Unilab 32 alunos de Angola, 12 de Mo?ambique, 72 de Timor Leste, 50 de Cabo Verde e 29 de S?o Tom? e Pr?ncipe.
Presidente do Movimento Pastoral Africano, Alberto Imbunde diz que seus compatriotas t?m buscado o Brasil por causa das dificuldades para cursar universidades na Guin?-Bissau.
Neste m?s, dois anos ap?s sofrer um golpe militar, o pa?s realizou o primeiro turno de elei?es para a Presid?ncia e o Parlamento. Espera-se que o novo governo possa estabilizar o pa?s e se dedicar aos problemas mais urgentes dos guineenses.
Imbunde diz esperar que as autoridades nacionais deem maior assist?ncia aos guineenses no Brasil.
Segundo ele, a embaixada guineense n?o ofereceu nenhuma ajuda para o translado dos corpos.
A BBC Brasil procurou a embaixada da Guin?-Bissau em Bras?lia, mas foi informada de que a embaixadora Eug?nia Saldanha Ara?jo estava fora do pa?s. O funcion?rio encarregado de tratar das mortes n?o foi localizado.
"Se n?o procuram nem saber como est?o os vivos, como v?o se preocupar com os mortos? ? triste. Estamos nos sentindo sem Estado nem governo, como que jogados para sobreviver", diz Imbunde.