
Sete meses depois de Sergio Moro deixar o comando do Minist?rio da Justi?a e se ver transformado em inimigo declarado do governo Bolsonaro, Rosangela Wolff Moro, casada h? 21 anos com o ex-juiz da Lava-Jato, mostra as cartas sobre o que viveu nos bastidores do poder de Bras?lia.
?s v?speras de lan?ar o livro “Os dias mais intensos - Uma hist?ria pessoal de Sergio Moro” (R$ 44,90) pela Editora Planeta, que relata a sua vida ao lado de Moro, marcada pela maior investiga??o de combate ? corrup??o do pa?s e a ascens?o do marido ? Esplanada dos Minist?rios, Rosangela falou ao GLOBO. A advogada de Curitiba n?o esconde sua frustra??o com o governo de Jair Messias Bolsonaro. “Acredit?vamos que seriam novos tempos.”
Rosangela conta que, em 2002, foi uma eleitora de Lula, que chegou a torcer para o marido sair da Lava-Jato e que sofreu mais com a “fritura” de Moro em Bras?lia, do que com os ataques em seus tempos de juiz. “Entra nessa conta a decep??o com o governo. Acreditei que tinha um time de peso, trabalhando junto. Quando voc? v? a fritura, claro que isso desagrada.” Alinhada com o discurso pronto do marido, Rosangela diz que 2022 n?o est? no radar. Abaixo, a entrevista:
No livro, a senhora relata que apoiou Moro a abandonar a magistratura para se tornar ministro de Bolsonaro. O que a levou a incentivar seu marido a dar esse passo?
N?o considero que foi um incentivo. Sergio ? determinado, estudioso, workaholic. Naquele momento, quando ele aceitou o convite, Bolsonaro tinha um projeto para o Brasil, para a justi?a e para a seguran?a p?blica, que eram convergentes com projetos que Sergio poderia implementar, se ocupasse o Minist?rio da Justi?a. Mesmo sabendo que receberia cr?ticas, ele aceitou o convite, porque viu a possibilidade de sedimentar alguns avan?os da Lava-Jato. Ponderamos juntos, ele sabia que era um caminho sem volta, e me perguntou: “voc? me apoia?” Respondi: “? claro”.
A senhora relata que tinha esperan?a no fim da tal velha pol?tica. O que a fez acreditar que Bolsonaro, deputado por 27 anos, mais conhecido por pol?micas sobre ditadura e falas preconceituosas do que por projetos, seria diferente?
Ningu?m desconhecia essas falas mais acentuadas do candidato, mas, com ele sentado na cadeira de estadista, dividindo as responsabilidades com o corpo t?cnico de ministros e os pr?prios generais, acredit?vamos que seriam novos tempos. Temos que voltar para 2018. Era o que t?nhamos. Havia um candidato que o partido estava umbilicalmente ligado a um grande esquema de corrup??o e um ‘outsider’ que vendia a bandeira do ‘chega da velha pol?tica e do toma l?, d? c?’. Isso se perdeu.
Mas havia outros nomes, como Marina Silva, Geraldo Alckmin, Ciro Gomes.
No segundo turno, aquelas eram as op?es. Era n?o votar ou fazer a escolha por um dos candidatos.
E no primeiro turno, em quem a senhora votou?
Essa eu pulo.
Se sente enganada por Bolsonaro?
Como cidad?, eu vejo que ele se afastou da pauta da campanha eleitoral. Vejo que grande parte dos cidad?os percebe isso.
No livro, a senhora relata que j? votou em Lula, em 2002. O que a motivou a votar em um l?der petista?
Sabe aquela frase, ‘brasileiro tem mem?ria curta?’. Eu n?o saberia te dizer porque votei no Lula. Comecei a prestar mais aten??o em pol?tica, em direitos do cidad?o, em 2009, quando me envolvi com organiza?es da sociedade civil. Fiquei uma pessoa mais interessada e mais atenta aos projetos e ao cen?rio pol?tico.
Se arrepende de ter votado em Lula e em Bolsonaro?
A gente n?o tem que tratar o passado com arrependimento, tudo ? uma quest?o de aprendizado.
A senhora relata ter sofrido mais com a fritura do Moro no governo Bolsonaro, do que com os ataques na ?poca da Lava-Jato. Por qu??
Entra nessa conta a decep??o com o governo. Sei que Moro, como juiz da Lava-Jato, era amado por uns e odiado por outros. Quando ele vai para o governo, acreditei que tinha um time de peso, trabalhando junto, buscando o resultado. Quando voc? v? a fritura, a coloca??o de uma frase desrespeitosa, tem um sentimento menos de cidad? e mais de esposa. Claro que isso desagrada.
Tem um epis?dio em que a senhora faz um post, dizendo que, entre ci?ncia e achismos, ficava com a ci?ncia. O ministro pediu para apag?-lo.
Nesse governo, todo mundo j? percebeu que n?o se pode discordar, ainda que tecnicamente, o que ? saud?vel. Se voc? discorda, acaba sendo visto como inimigo n?mero um. A sa?de, para mim, ? uma coisa muito cara. Eu me assustei muito com a Covid-19, n?o acho normal 1.400 pessoas morrerem em um ?nico dia. N?o d? para achar isso normal.
Mas a senhora apagou a publica??o.
Eu e Moro tivemos uma discuss?o naquele momento. Eu tenho o direito de me se manifestar. Por outro lado, existia a possibilidade daquilo ser interpretado como uma fala do pr?prio ministro, que fazia parte de um governo que ningu?m podia discordar. Quando fiz aquele post, foi como uma cidad?. Eu me sentia segura e feliz em ver, no meio de uma pandemia, o Brasil ter um ministro da Sa?de (Luiz Henrique Mandetta) efetivamente da ?rea de sa?de. Sergio me pediu para apagar, porque a situa??o causou um desconforto no Planalto.
A senhora conta que, em agosto de 2019, desistiu de se mudar com a fam?lia para Bras?lia, porque sentiu que Moro era “fritado” pelo governo.
A fritura fez o plano ser abortado. Seriam dois trabalhos, ir e voltar. Senti que era uma quest?o de tempo. Duas pessoas do conv?vio pessoal dele (Bolsonaro) j? tinham ido para a guilhotina. N?o tinha a menor d?vida de que, quando chegasse a hora, Moro tamb?m iria. Eu falei, vou focar na minha fam?lia, no nosso bem-estar, porque ? muito transtorno.
Em fevereiro, a senhora falou que via Moro e Bolsonaro como “uma coisa s?”, mesmo com essa fritura em curso. Queria apaziguar os ?nimos?
Me expressei mal naquela ocasi?o. O que quis dizer ? que a gente via o Planalto como um time, com Moro e Bolsonaro e os outros ministros. No come?o do governo eu disse “agora vai”. Infelizmente, isso se perdeu.
V? Moro como candidato a presidente em 2022?
O nosso radar hoje n?o vai at? 2022, est? em um per?odo mais curto, focado em nossa fam?lia e Sergio se inserindo na iniciativa privada. N?o h? nenhuma vaidade, nenhuma pretens?o nesse sentido eleitoral. Vejo que ele tem vontade de participar do debate, como de fato ele faz. Isso ? uma coisa, ser candidato em 2022 ? outra.
Moro sonhava ou ainda sonha em ser ministro do Supremo Tribunal Federal?
Se eu disser que ele n?o ficaria feliz com o cargo de ministro do Supremo... ? claro que ficaria. Agora, ele entrou no governo pensando na vaga de ministro da corte? N?o. O STF, para quem ? da magistratura, Minist?rio P?blico, advogado, ? o sonho de muita gente. N?o tenho d?vida que seria um excelente ministro do Supremo. Mas ele n?o aceitou ser ministro da Justi?a pensando nisso. Ouvi ele dizer que teria quatro anos para desenvolver o projeto que gostaria. Depois, falava, “vamos ver”.
J? se imaginou como primeira-dama?
Para isso, preciso estar casada com algu?m que seja presidente da Rep?blica. O fato de Sergio estar preocupado com o pa?s, discutindo uma terceira via, n?o quer dizer que ele ? candidato. As pessoas falam, podem at? querer, mas ningu?m est? colocando isso agora.
Uma campanha eleitoral envolve muitos ataques. Est?o prontos para isso?
Esses ataques, em rela??o ao Sergio e nossa fam?lia, tiveram in?cio quando a sociedade se deu conta do que era a Lava-Jato. A opera??o desagradou muita gente. Pessoas que se sentiram desagradadas passaram a usar uma t?cnica para minar a reputa??o do Sergio. Foi uma chuva de ataques. Tivemos que aprender a viver com isso.
Pretende se engajar diretamente na pol?tica com Moro?
N?o tenho nenhuma pretens?o envolvendo pol?tica partid?ria, nem sou filiada a nenhum partido. Para participar do debate de estudos, reda?es t?cnicas, conte comigo, fa?o isso todo dia. Agora, entrar em pol?tica partid?ria, cargo eletivo, isso n?o.
A senhora recebeu dois convites para ocupar cargos no governo. Quem fez esses convites e qual era a inten??o?
Um veio do Minist?rio da Mulher. Eu conheci a ministra Damares Alves por causa da minha atua??o como advogada de associa?es voltadas para pessoas com defici?ncias e com doen?as raras. O convite era para um cargo na pasta que tinha como foco o combate ? viol?ncia contra a mulher, mas em sendo esposa de ministro, nem poderia, pois poderia configurarnepotismo. Al?m disso, nunca atuei nessa ?rea. Ent?o, a resposta foi n?o.
Tamb?m ofereceram um cargo na ?rea jur?dica da Funcef, onde ganharia R$ 20 mil. Por que esses convites foram feitos?
Eu n?o tenho essa resposta. Recebi esses convites com um grau de surpresa. N?o eram cargos que eu queria, por isso n?o aceitei.
Pessoas pr?ximas ao ministro afirmam que Moro tomou gosto pela pol?tica. Concorda?
O Sergio, como juiz, n?o precisava de interlocu??o com outras pessoas para desenvolver seu trabalho. Ele cumpria os atos processuais. No minist?rio foi diferente, precisava interagir com outras pessoas. N?o acho que ele pegou gosto pela pol?tica, ele foi aprendendo no dia a dia como interagir com as outras pessoas. Sozinho, trancado no pr?prio gabinete, n?o iria implementar nada.
A senhora fala de um projeto pessoal de viverem fora do Brasil. Pensam em se mudar de pa?s?
Ir embora do Brasil n?o ? uma op??o, jamais. Quero sim, fazer um curso, passar seis meses, um ano ou dois nos Estados Unidos, mas ir em definitivo, n?o. Sou brasileira, gosto daqui, quero ver esse pa?s melhor. O que vai ser daqui para frente, teremos que manter dentro da nossa vida privada.
J? tiveram alguma crise no casamento?
N?o, longe disso. O Sergio virou uma pessoa conhecida publicamente. O que acontece ? que, ? vezes, pensamos diferente. Nenhum tema muito pol?mico, nada que n?o d? para chegar num consenso.
No livro, a senhora narra que muitas mulheres assediavam seu ministro. Como se sentia?
? claro que isso chateia, mas n?o vinha dele. Para mim, o importante ? o comportamento da pessoa que me deve respeito, que ? o meu marido. Temos uma rela??o muito legal, muito saud?vel.
A senhora relata um epis?dio que viveu com uma autoridade de Bras?lia, que insistia em perguntar como era lidar com um marido assediado. Sentia muito machismo nesse meio do poder?
Sim, ? como se a mulher s? estivesse ali s? para agradar o marido. Acontece que relacionamentos de verdade s?o diferentes, tem cumplicidade, companheirismo. Meu marido me respeita muito. Lembro que falei para aquela pessoa: “O senhor n?o tem outra coisa pra me falar? ? s? isso que preocupa o senhor? Quantas mulheres est?o dando em cima do meu marido?” Falei com o f?gado mesmo. Achei aquela pessoa muito deselegante.
Havia um clima de celebridade em torno de Moro?
Isso foi uma coisa dif?cil e agora posso dizer. Juiz n?o ? celebridade. Cantor ?, artista ?. Um juiz fica trancado no gabinete, aplicando a lei, e pronto. Foi uma situa??o nova.
A senhora diz que rezou para que Moro deixasse a 13a vara, da Lava-Jato. Chegou a pedir para que abandonasse a opera??o?
Isso nunca aconteceu. N?o interfiro no trabalho dele, n?o pedi para Sergio ser ministro. Estou aqui, a gente conversa, avalia juntos, mas a decis?o tem que ser dele. Assim como eu n?o gostaria que ele tomasse decis?es sobre a minha profiss?o. Eu apoio e dou colo, mas as decis?es s?o dele. Cada um fala por si.
Ent?o este era apenas um desejo seu.
Eu j? via o Sergio com sinais de cansa?o e de esgotamento nos seus quatro anos na Lava-Jato, o volume de trabalho era muito grande, somado aos ataques. Diante disso, eu torcia para que abrisse a vaga de algum titular em Curitiba, quem sabe a gente pudesse dar um tempo, sair da berlinda e dos ataques. Talvez, quando ele chegasse no limite da exaust?o, pegasse uma licen?a e f?ssemos passar um tempo fora.
A senhora tem presen?a constante nas redes sociais, publica sua opini?o em v?rios momentos. Por que optou por se posicionar?
As pessoas confundem as coisas. O que eu digo n?o ? necessariamente o que o Sergio quer dizer e vice-versa. Al?m de ser casada com Moro, sou cidad? e tenho o direito de me expressar. As pessoas tamb?m tinham e t?m a curiosidade de saber quem ? e o que faz a esposa do Moro. Em alguns assuntos, me sinto confort?vel para falar, como o combate ? corrup??o.
No m?s passado, a senhora bateu boca com um apoiador de Bolsonaro, o chamou de ot?rio e depois saiu da rede social.
Eu exagerei e fa?o aqui a minha retrata??o, acho que o caminho n?o ? a briga. O que fiz foi deselegante e n?o educado, chamando uma pessoa de ot?ria. S? penso que ? preciso apoiar projetos e n?o idolatrar pol?ticos. O que eu quis dizer ? que o brasileiro se sente como se fosse um ot?rio, porque h? muita corrup??o, dinheiro desviado. ? nesse sentido. Me causa estranheza as pessoas idolatrarem gente que n?o est? resolvendo os problemas b?sicos do nosso pa?s.
As redes sociais viraram um campo minado para a senhora?
Dei um tempo, mas depois voltei. Sa? das redes para fazer um detox. Em certos momentos, elas podem ser t?xicas. Em mat?rias pol?ticas, debates mais acalorados, muitas vezes, viram ofensas. Dei um tempo, por isso.
A senhora relata que chegou a ter crises de ansiedade. Como lida com isso?
Tive s?ndrome do p?nico, ao ponto de chegar no hospital, achar que estava morrendo e ser motivo de piada com gente falando: "voc? t? aqui de novo?". Quando voc? est? vivendo tudo isso, ? dif?cil saber que sua sa?de mental est? comprometida. Demorei cinco anos para entender que precisava de ajuda m?dica. Usei rem?dio, n?o tenho vergonha de falar, porque h? um desequil?brio qu?mico. Fiz terapia, at? que descobri o que ? o meu centro. Ainda bem que passei por isso, pois foi antes da Lava-Jato. Quando a opera??o aconteceu, nadei de bra?ada nessa parte da sa?de mental.