Piaui em Pauta

Piñera estende toque de recolher em Santiago após sete mortos em protestos.

Publicada em 20 de Outubro de 2019 às 22h30


SANTIAGO — Ap?s mais um dia de protestos, que elevaram para ao menos sete o n?mero de mortos em saques e inc?ndios, autoridades chilenas estenderam neste domingo o toque de recolher na capital, Santiago, al?m das cidades de Valpara?so e Concepci?n. O an?ncio foi feito pelo general Javier Iturriaga, ap?s uma reuni?o entre o presidente Sebasti?n Pi?era; o l?der do Senado, Jaime Quintana; da C?mara, Iv?n Flores; e da Corte Suprema, Haroldo Brito.

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Nas ruas, mais de cem estabelecimentos comerciais foram saqueados e alguns incendiados e esta?es de metr? voltaram a ser depredadas, apesar do estado de emerg?ncia decretado na sexta-feira em cinco regi?es. Segundo o Minist?rio P?blico, 1.462 pessoas foram detidas — 614 em Santiago e 848 no restante do pa?s.

— A democracia n?o apenas tem o direito, mas tamb?m a obriga??o de se defender usando todos os instrumentos que a pr?pria democracia fornece e o Estado de Direito para combater aqueles que querem destru?-la — disse o presidente ao anunciar a medida.

No fim de semana, o centro de Santiago virou um cen?rio de destrui??o ap?s os protestos iniciados na semana passada contra o aumento do pre?o da passagem do metr?. Lojas foram saqueadas e incendiadas, sem?foros derrubados e milhares de destro?os foram deixados nas ruas. Para analistas, no entanto, o aumento das tarifas foi apenas o estopim de uma s?rie de reivindica?es sociais.

— O que vimos nessas ?ltimas horas vai muito al?m do aumento. J? vimos situa?es semelhantes em outros pa?ses, onde a partir de um evento espec?fico, s?o gerados atos de viol?ncia — afirma Bettina Horst, subdiretora do centro de estudos Liberdade e Desenvolvimento. — Ningu?m pode ignorar o progresso que o Chile registrou nos ?ltimos 30 anos. Mas os ?ltimos cinco foram piores em compara??o aos anteriores. O mal-estar tem a ver com o que ? vislumbrado para o futuro, mais do que com o passado.

Alto custo de vida
A economia cresce em torno de 2,5%, abaixo do prometido pelo governo, embora melhor do que muitos pa?ses da regi?o. Na ?ltima d?cada, no entanto, o custo de vida ficou mais caro, especialmente em Santiago, onde o pre?o da moradia aumentou em 150%, enquanto os sal?rios subiram 25%, segundo um estudo da Universidade Cat?lica. Al?m disso, 70% da popula??o ganham menos de US$ 770 (R$ 3.170) por m?s e 11 milh?es dos 18 milh?es de chilenos t?m d?vidas, de acordo com estimativas da Funda??o Sol.

Os protestos come?aram no in?cio da semana passada, quando cerca de cem estudantes universit?rios resolveram protestar contra o aumento do pre?o do metr?, pulando a catraca sem pagar. Ao longo da semana, mais estudantes seguiram o exemplo, at? que, na madrugada de s?bado, quando v?rias esta?es haviam sido depredadas, Pi?era decretou estado de emerg?ncia.

— H? um descontentamento, e foi essa a fa?sca que desencadeou tudo — diz o analista Roberto M?ndez. — Tamb?m n?o ousaria dizer que uma mudan?a radical est? chegando, mas devemos estar atentos. O que chama aten??o at? agora ? que seja um movimento sem l?deres ou rostos claros. Como foi espont?neo, emudeceu o mundo pol?tico.

Jornal queimado
Outros analistas culpam a “miopia do mundo pol?tico” para lidar com as demandas:

— Isso ajudou a aprofundar a crise at? atingir esse n?vel. A isso, devemos acrescentar a falta de empatia, o sentimento de impunidade e abuso de poder — diz Gloria de la Fuente, diretora de Chile XXI.

O advogado e cientista pol?tico Carlos Huneeus, professor da Universidade do Chile, diz que a falta de sensibilidade do governo Pi?era para tratar do assunto agravou ainda mais a viol?ncia dos protestos.

— O governo tem uma equipe dominada por empres?rios, com uma agenda que mant?m as desigualdades e favorece as grandes empresas. Est?o no gabinete de Pi?era personalidades que trabalham com os principais grupos econ?micos do pa?s, que n?o t?m sensibilidade para entender a desigualdade — afirma, lembrando que o pr?prio presidente faz parte da lista dos chilenos mais ricos, segundo a Forbes. — A fortuna de Pi?era representa 0,98% do PIB chileno.

Apesar do toque de recolher e da mobiliza??o de quase 10 mil militares, os dist?rbios prosseguiram em Santiago e em cidades como Valpara?so e Concepci?n. Os saques se repetiram em v?rios pontos da capital. ?s duas pessoas que morreram durante saque e inc?ndio em um supermercado da rede Walmart na zona sul de Santiago se somaram mais cinco v?timas em uma f?brica de roupas em Renca, zona metropolitana da capital, deixando um total de sete mortos.

Em Valpara?so, manifestantes quebraram a porta do pr?dio do jornal El Mercurio — o mais antigo do Chile, fundado em 1827 —, e queimaram parte das instala?es por dentro.

Segundo o Minist?rio P?blico, 1.462 pessoas foram detidas — 614 em Santiago e 848 no restante do pa?s.

— A educa??o falhou em incutir respeito irrestrito ?s regras b?sicas da civilidade entre todos os chilenos. A resposta fraca e acomodada de alguns pol?ticos, incluindo os mais jovens, demonstra o atraso. A cultura da viol?ncia n?o foi erradicada — afirma o acad?mico Sergio Urz?a. — Obviamente, a situa??o ? explorada por quem aposta no desmantelamento do modelo de progresso. Isto n?o ? novo.

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Tags: Piñera estende toque - SANTIAGO

Fonte: GLOBO  |  Publicado por: Da Redação
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