Piaui em Pauta

Quem são e como viviam os proprietários da boate Kiss

Publicada em 01 de Fevereiro de 2013 às 09h35


A boate Kiss foi inaugurada em julho de 2009. Bastaram dois anos para que se tornasse um sucesso entre os jovens de Santa Maria. A procura pelas festas na boate era t?o grande que os clientes come?aram a reclamar das filas que se formavam na frente. Do lado esquerdo da portaria, ficavam alinhados os que tinham comprado o ingresso com anteced?ncia. Quem ainda precisava passar na bilheteria se mantinha ? direita. As filas dos dois grupos invariavelmente dobravam as esquinas na Rua dos Andradas, onde fica a Kiss. Naquela ?poca, com 26 anos de idade, o empres?rio Elissandro Callegaro Spohr, conhecido pelo apelido de Kiko, deu entrevistas dizendo que recebia at? 1.400 pagantes, e isso tornava dif?cil a tarefa de organizar a entrada. Talvez ele inflacionasse o p?blico por uma estrat?gia de marketing. A julgar pela trag?dia do ?ltimo final de semana, o exagero pode n?o ter sido t?o grande. A pol?cia trabalha com a estimativa de que haveria entre 1.000 e 1.500 jovens na boate na noite da trag?dia. O local poderia abrigar no m?ximo 691 pessoas, segundo diz o Corpo de Bombeiros.

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CONGELADOS
Os empres?rios Elissandro Spohr, o Kiko (no topo), e Mauro Hoffmann (acima. A Defensoria P?blica pediu o congelamento dos bens dos s?cios da Kiss para garantir a indeniza??o ?s fam?lias das v?timas do inc?ndio (Fotos: Reprodu??o e Emerson Souza/Ag. RBS)

Piloto de motocross, vocalista de uma banda de m?sica e autointitulado modelo fotogr?fico e ator, Kiko sempre foi conhecido como um not?vel “baladeiro”. Bem-apessoado, com 1,80 metro de altura e tatuagem no bra?o esquerdo, era figura frequente em colunas sociais locais. Como empres?rio, ele tem um lado menos vis?vel, revelado por documentos obtidos por ?POCA. Oficialmente, ele ? propriet?rio n?o da boate, mas de um neg?cio com muito menos glamour. Ele tem uma revendedora de pneus, localizada nas cercanias de Santa Maria, a Vales Verdes. Ela deve em impostos cerca de R$ 3 milh?es ao governo federal e seus bens foram penhorados.

>>O futuro roubado dos jovens de Santa Maria

A Kiss, cuja raz?o social ? Santo Entretenimentos, est? em nome de uma irm? de Kiko, ?ngela Aur?lia, e da m?e dele, Marlene Terezinha. O s?cio real do empreendimento ? um tarimbado empres?rio da noite de Santa Maria. Mauro Londero Hoffmann, de 47 anos, conhecido como Maurinho, ? dono de bares, restaurantes e casas de shows. A principal delas, a luxuosa boate Absinto Hall, re?ne num espa?o de 800 metros quadrados, bem maior que a Kiss, cerca de 200 mil pessoas a cada ano, segundo informa o site da empresa na internet. Maurinho parece ter se associado a Kiko, comprando 50% das cotas da Kiss no meio do ano passado, para salvar o empreendimento da fal?ncia. A boate se tornou uma das tr?s principais casas noturnas da cidade, embora seus resultados financeiros n?o fossem bons. O grande n?mero de adolescentes sempre presentes na casa chegou a dar ao recinto o apelido de Kids. Essa reputa??o afastava o p?blico mais velho e endinheirado.

>> Depoimentos mostram como produtor e barman reagiram ao fogo

Nascido e criado em Santa Rosa, cidade a 270 quil?metros de Santa Maria, Kiko pertence a uma fam?lia com boas condi?es financeiras, que administra a GP Pneus, empresa com filiais em outras regi?es do pa?s. Conhecidos diziam que ele abriu a boate motivado por uma veleidade art?stica – queria investir em seu lado cantor e enxergou na Kiss uma poss?vel alavanca para o estrelato. Por isso, se interessava em atrair para a boate os jovens estudantes, a maioria das v?timas do inc?ndio. Divulgava cartazes estimulando turmas de universit?rios a organizar festas no local. A boate contratava a banda de m?sica, imprimia o ingresso e divulgava o evento. O lucro vinha da venda de ingressos. Os estudantes organizadores ainda ganhavam uma comiss?o em dinheiro, fazendo caixa para a formatura, se vendessem com anteced?ncia um grande n?mero de bilhetes de entrada. O pre?o costumava ficar entre R$ 15 e R$ 25. A casa promovia entre tr?s e quatro festas por semana.

No fim da tarde de segunda-feira (28), Kiko assistia ao notici?rio na Globo News na TV do quarto 301 do Hospital Santa L?cia, em Cruz Alta, a 130 quil?metros de Santa Maria, Rio Grande do Sul. Chorando muito, ele dizia: “Como ? que eu vou carregar isso? Como? N?o sei o que vou fazer da vida”. Quem narra a cena ? a inspetora da Pol?cia Civil da cidade, Maristela Gomes Figueiredo. Ela foi a primeira policial designada a observar Kiko depois de decretada sua pris?o. Kiko estava muito abatido, mas sem ferimentos aparentes. Vestia uma bermuda e uma camiseta. Mal conversava com a mulher, Nath?lia, gr?vida de 18 semanas, internada no mesmo quarto que ele. Sob o efeito de sedativos, dormia e acordava sucessivamente. Enquanto esteve acordado, fez nebuliza??o e reclamou de falta de ar e dores no corpo. “Eu estava l?, tentando salvar... Perdi amigos, funcion?rios”, dizia, sempre aos prantos. Jantou uma sopa no come?o da noite. Ao ver o notici?rio, baixou a cabe?a e acrescentou: “N?o sou esse monstro. N?o sou esse monstro”.

Na quarta-feira, o policial que faz a guarda de Kiko encontrou no banheiro a mangueira do chuveiro enrolada na grade do banheiro, numa posi??o que sugeria que Kiko pudesse tentar cometer suic?dio. Foi s? ent?o que a delegada Lylian Car?s, de Cruz Alta, determinou que ele fosse algemado ? cama, para evitar que se ferisse. O m?dico de Kiko, Paulo Ricardo Naz?rio Viecili, descarta a hip?tese de suic?dio e diz que Kiko tem tido crises nervosas e n?o tem previs?o de alta. Na ?ltima quinta-feira (31), a Justi?a negou o pedido de revoga??o de sua pris?o tempor?ria, feito por seu advogado, Jader Marques. No hospital, Kiko s? tem recebido a visita de Marques, que n?o respondeu ?s liga?es de ?POCA. A fam?lia de Kiko vive em Santa Maria. Ele disse ? delegada Lylian que se internou em Cruz Alta somente porque sabia que os hospitais de Santa Maria estavam lotados.

Kiko responde a uma acusa??o de les?o corporal grave contra um rapaz, espancado por seguran?as da boate, em janeiro de 2011. O soldado da Aeron?utica Luiz Fernando Crispan, de 22 anos, golpeado por cassetetes, sofreu uma fratura exposta no bra?o direito. Crispan afirma n?o duvidar de que a ordem para a a??o dos seguran?as partiu de Kiko. Em outro epis?dio, em abril de 2010, Patr?cia Jovasque Rocha, de 21 anos, ficou retida por horas dentro da Kiss porque perdera a “comanda”, onde se registra o consumo de bebidas e comida. Em agosto de 2012, a boate foi condenada a pagar indeniza??o de R$ 10 mil a Patr?cia.

Al?m do apre?o pela vida noturna, Kiko e Maurinho t?m em comum a atua??o ass?dua nas redes sociais. Kiko ? popular?ssimo. Tem quase 24 mil seguidores no Facebook e 4 mil amigos apenas em seu perfil. Nos ?ltimos dias, a internet serviu de espa?o para que cr?ticos e defensores dos dois se manifestassem, ?s centenas. Inocente do impacto que as declara?es em redes sociais podem causar, Maurinho escreveu no Facebook ?s 6h17 da manh? do domingo, enquanto se contavam corpos na porta da Kiss: “Pessoal, t? bem... apesar da trag?dia”. O coment?rio gerou uma avalanche de protestos dos que viram na mensagem uma prova de sua despreocupa??o diante da cat?strofe.

>> Mais not?cias da trag?dia na boate Kiss

Na Kiss, Maurinho era praticamente desconhecido dos funcion?rios e prestadores de servi?o. “Nem sabia que ele era s?cio. Achei que s? fosse dono da Absinto”, disse um dos seguran?as que trabalhavam na casa. Ao depor na pol?cia, Maurinho afirmou que n?o atuava na administra??o da boate e tinha apenas participa??o nos lucros. Ap?s seu depoimento, foi levado, em car?ter tempor?rio, para o pres?dio de Santo Ant?o, a 7 quil?metros do centro da cidade.

Depois da trag?dia, a pris?o de Kiko e Maurinho foi decretada pela Justi?a de Santa Maria, sob a suspeita de destruir provas que pudessem esclarecer o que ocorreu na noite do acidente. As imagens das c?meras de seguran?a da Kiss n?o foram localizadas. A pol?cia fez opera?es de buscas nas empresas de Maurinho, mas nada encontrou. N?o h? confirma??o at? agora de que os empres?rios tenham alguma responsabilidade pelo inc?ndio, mas suas atitudes levantaram suspeitas e revoltam os familiares das v?timas.

Marques, o advogado de Kiko, afirmou que a casa de shows tinha condi?es para funcionar e j? tinha recolhido, em outubro passado, uma taxa para renovar o plano contra inc?ndio, mas o Corpo de Bombeiros n?o fizera a vistoria necess?ria para isso. Marques disse ainda que a boate imprimiu apenas 850 convites para a festa que terminou em 235 mortos (at? o fechamento desta edi??o). O Corpo de Bombeiros diz que havia na casa entre 1.200 e 1.500 pessoas. Nos ?ltimos dias, ficou demonstrado que a Kiss tinha s?rias defici?ncias de seguran?a. Um dos funcion?rios da boate, um barman, que prefere n?o se identificar, defende Kiko. “H? tr?s meses, ele pediu que trocassem todos os extintores da casa”, disse o funcion?rio em depoimento ? pol?cia. Ele afirmou que todos os seguran?as da casa sabiam usar os extintores. A vers?o foi desmentida pelo depoimento de um seguran?a que j? trabalhara na boate e estava l? na noite do inc?ndio. Em seu testemunho, disse que “nunca recebeu instru??o na firma ou na boate” sobre como mexer com equipamentos contra o fogo. Outra pr?tica habitual na Kiss eram reformas que atendiam ao desejo de Kiko por mudan?as repentinas no ambiente.

>> Como reagir em casos de inc?ndio em locais fechados

Durante a semana, a pol?cia recolheu outros depoimentos contradit?rios sobre ele. Uma funcion?ria que perdeu a filha no inc?ndio e teria motivos para atac?-lo fez v?rios elogios. Natal?cia Moraes da Silva, lavadora de copos da boate, n?o foi trabalhar no dia por estar indisposta e enviou em seu lugar a filha, que morreu no inc?ndio. Ela acredita que a trag?dia n?o passou de uma fatalidade e isentou o patr?o de culpa. “Ele ? um homem maravilhoso. Se ele est? comendo um doce, e voc? est? sem, ele divide”, disse. Ao mesmo tempo, Vanessa Vasconcelos, que deixou o cargo de gerente no fim de 2012, afirmou que Kiko achava “os extintores feios” e mandava tir?-los. “S? colocava de volta quando ia ter inspe??o”, disse ela. Vanessa perdeu uma irm? na Kiss.

Enquanto a pol?cia investiga os empres?rios, a Defensoria P?blica do Rio Grande do Sul rastreia o patrim?nio deles. A medida visa garantir o pagamento de indeniza??o ?s fam?lias das v?timas. Na segunda-feira seguinte ? trag?dia, a pedido da Defensoria P?blica, a Justi?a de Santa Maria determinou o bloqueio de bens e contas banc?rias da boate, de Maurinho, de Kiko, de sua irm? e de sua m?e, que aparecem no papel como donas da boate. “Nenhum valor cobre a vida de um filho morto e h? fam?lias que perderam mais de um. Mas, at? a condena??o dos culpados, o patrim?nio dos r?us costuma evaporar”, afirmou o defensor p?blico-geral do Estado, Nilton Arnecke Maria. “A medida tamb?m serve de exemplo. Outros empres?rios evitar?o trag?dias com medo de que seus bens sejam bloqueados.” A Defensoria P?blica afirma que j? foram bloqueados cinco im?veis de Maurinho.

Garantir o ressarcimento n?o ser? uma tarefa f?cil. A distribuidora de pneus da qual Kiko aparece como dono foi inclu?da no cadastro dos contribuintes que devem ao governo federal. Para garantia de pagamento da d?vida de quase R$ 3 milh?es, a Justi?a penhorou os bens da empresa, que somaram R$ 1,1 milh?o, valor insuficiente para cobrir o rombo. No dia 19 de dezembro passado, o Tribunal Regional Federal manteve a Verdes Vales na lista suja dos devedores.
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Fonte: GLOBO  |  Publicado por: Da Redação
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