Publicada em 01 de Julho de 2014 às 13h10
R$ 1 em cédulas e moedas, em imagem de julho de 2007.
O real entrou em circula??o h? exatos 20 anos, deixando para tr?s uma infla??o de tr?s d?gitos e o consequente troca-troca de moedas. Com a estabiliza??o da economia, alcan?ada por meio de um conjunto de mudan?as que recebeu o nome de Plano Real, o brasileiro experimentou por um tempo a sensa??o de ver seu dinheiro valendo mais.
Imagem: L. C. Leite/FolhapressR$ 1 em c?dulas e moedas, em imagem de julho de 2007.
“Era muita infla??o, e eram muitos zeros. N?o haveria caixa registradora que conseguisse registrar tantas casas decimais se o real n?o tivesse sido criado”, disse Davi Sim?o Silber, professor de economia da Universidade de S?o Paulo (USP). Antes do real, os pre?os disparavam de um dia para o outro e a varia??o m?dia chegava a 100% em um m?s.
Apesar do trabalho que deu para o brasileiro se acostumar com a nova moeda – muitos usavam calculadoras para transformar a moeda anterior (cruzeiro real) em real e ter uma refer?ncia de quanto o produto valia –, o plano deixou como heran?a a possibilidade de se planejar gastos.
“O brasileiro aprendeu o verdadeiro valor do dinheiro. Soube quanto ganhava efetivamente e o real valor dos bens que poderia adquirir. Conseguimos entender os juros no Brasil e a necessidade de se ter metas claras de combate ? infla??o. A capacidade de compra aumentou, determinada pela estabilidade da economia. E o mais importante ? que durante os anos de estabilidade, todo brasileiro come?ou a planejar o futuro, elaborar um planejamento financeiro de longo prazo”, diz Fabiano Guasti Lima, pesquisador do Instituto Assaf.
O que d? para comprar com R$ 1?
A hiperinfla??o foi extinta na d?cada de 1990, mas os pre?os continuaram subindo ao longo dos anos, e o R$ 1, que antes comprava dez p?ezinhos ou at? mesmo um quilo de frango, hoje n?o paga muito mais que um punhado de balas e chicletes.
? dif?cil achar produtos por R$ 1. No hortifruti, ? poss?vel comprar pouca coisa: algumas laranjas, cebolas ou uma ma??. Na padaria, consegue-se comprar menos de tr?s p?es, com o quilo beirando os R$ 8. Entre os industrializados, nada muito saud?vel fica dentro desta faixa de pre?o, a n?o ser sucos em p?, gelatinas e refrigerantes. Procurando bem, encontra-se um chocolate ou biscoito em promo??o, garrafas de ?gua de 300 ml ou uma lata de ervilha.
Considerando a infla??o acumulada de julho de 1994 at? maio deste ano, de 359,89% pelo ?ndice de Pre?os ao Consumidor Amplo (IPCA), o poder de compra da moeda brasileira caiu perto de 80%. Assim, R$ 1 de 20 anos atr?s vale agora R$ 0,21, bem como R$ 10 daquela ?poca foram reduzidos a R$ 2,13. Quando comparada a quantia de R$ 100 em 1994 e neste ano, a diferen?a chega a R$ 78,70. Os c?lculos s?o do matem?tico Jos? Dutra de Oliveira Sobrinho.
Como est? a infla??o hoje
Segundo Silber, professor da USP, o pa?s hoje convive com uma infla??o que n?o pode ser considerada baixa, mesmo que fique longe da alta de pre?os do in?cio dos anos 90.
“A literatura considera alta [infla??o] quando passa de 10% ao ano. Baixa ? de at? 3%. O Brasil est? no meio do caminho [cerca de 6%]. Hoje, a infla??o neste pa?s ? de arrocho salarial [quando os reajustes de sal?rio n?o acompanham a infla??o]. Se tirar os pre?os que o governo controla, como de ?nibus, gasolina e energia, a infla??o seria desconfort?vel. E o pessoal de mais baixa renda ? o que mais sente, n?o consegue mais comprar carne todo dia”, afirma.
Pre?os acima da m?dia
Alguns gastos subiram ainda mais que a infla??o desde o in?cio do Plano Real e preocupam quem se acostumou com a estabilidade. “O brasileiro ? muito mais sens?vel a um aumento na taxa de infla??o. Sem a ado??o do Plano Real, certamente, ela continuaria bastante descontrolada, nos patamares observados anteriormente ao plano ou at? pior”, diz Alessandra Ribeiro, da Tend?ncias Consultoria.
A cesta b?sica vendida na cidade de S?o Paulo, por exemplo, ficou 443,82% mais cara, enquanto a infla??o acumulada foi de 359,89%. O pre?o da cesta era de R$ 67,40 em julho de 1994 e passou para R$ 366,54 em maio deste ano, de acordo com dados do Departamento Intersindical de Estat?stica e Estudos Socioecon?micos (Dieese).
“O medo atual da infla??o se deve ? perda de poder de compra que sentimos no nosso bolso. Compramos menos coisas que compr?vamos no in?cio do Plano Real. Sem ele [plano], que lan?ou as bases de estabilidade da economia, a situa??o seria bem cr?tica. Ter?amos infla??o bastante elevada, alto n?vel de desemprego e crescimento med?ocre do PIB [Produto Interno Bruto]. A Argentina hoje ? um reflexo desse cen?rio”, diz o pesquisador do Instituto Assaf.
Imagem: Ot?vio Magalh?es/Estad?o Conte?doDetalhe das m?os de funcion?rio da Casa da Moeda incinerando c?dulas de cruzeiros reais durante o primeiro ano do Plano Real, no Rio de Janeiro.
O reajuste do sal?rio m?nimo ao longo dos anos tamb?m fez o brasileiro sentir como a infla??o corroeu seu poder de compra, que havia sido retomado nos idos de 1994. De R$ 64,79, o piso passou para R$ 724. Sem tirar a infla??o, o aumento no valor ? animador, mas, quando a taxa ? considerada, o crescimento ? bem menor, de 146%, conforme aponta estudo do Instituto Assaf.
Aplica?es financeiras
A infla??o pesou sobre os ganhos de quem tinha aplica?es. A rentabilidade da poupan?a foi de 1.182,18% de julho de 1994 at? mar?o deste ano. Tirando a infla??o, cai para 182,01% de valoriza??o.
No caso do CDB (Certificado de Dep?sito Banc?rio), a rentabilidade acumulada foi ainda maior, de 2.059,19%. Por?m, desconsiderando a infla??o, cai para 374,9%.
Entre todas as aplica?es analisadas pelo estudo do Instituto Assaf, a que registrou a maior rentabilidade foi o CDI (Certificado de Dep?sito Interbanc?rio), de 3.175,14%, mas o crescimento real foi de apenas 620,35%. A Bolsa de Valores de S?o Paulo (Bovespa) aparece em terceiro lugar, com uma rentabilidade nominal de 1.284,25% e real de 204,46%.
“O CDI teve a maior rentabilidade por ter sido mais est?vel ao longo do tempo. Pagou taxas mais homog?neas no per?odo, que passou por v?rias instabilidades e crises. A bolsa sofreu, n?o por ela mesmo, mas pelas diversas crises que assolaram o mundo e que acabamos sentindo aqui os reflexos”, disse Guasti, pesquisador do instituto.