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Redução de IPI de carros gera pouco impacto na economia

Publicada em 28 de Julho de 2014 às 08h22


?Alardeada pelo governo como uma das principais estrat?gias para alavancar o crescimento da economia brasileira — estimulando o consumo — a redu??o do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para ve?culos teve impacto muito pequeno sobre o Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e servi?os produzidos no pa?s). A conclus?o ? de um estudo feito pelos economistas Alexandre Porsse e Felipe Madruga, professores da Universidade Federal do Paran? (UFPR). De acordo com os c?lculos feitos pelos economistas, a desonera??o para as montadoras gerou aumento de apenas 0,02% ao ano no PIB do pa?s. A ren?ncia fiscal come?ou a ser usada, em 2009, para combater os efeitos da crise internacional. Os dados mostram que o setor automotivo concentrou 53,4% das desonera?es concedidas pelo governo, entre cinco setores. De um total de desonera?es de R$ 15,5 bilh?es entre 2010 e 2014, R$ 8,3 bilh?es foram para este setor. O produtos de linha branca (geladeira e m?quina de lavar, por exemplo) ganharam R$ 958 milh?es; alimentos ficaram com R$ 1,2 bilh?o; m?veis, com R$ 1,6 bilh?o e outros setores receberam R$ 3,4 bilh?es. saiba mais Sinaliza??o ? de alta do IPI de carros em julho, diz Anfavea Setor espera nova defini??o sobre IPI menor para carros Leia mais sobre IPI de carros — O efeito colateral de priorizar a ind?stria automotiva ? uma redu??o do consumo de outros bens, porque o consumidor fica comprometido com essa d?vida por um prazo longo. Al?m disso, a redu??o de imposto para carros beneficia faixas da popula??o com renda mediana ou mais elevada. Para atingir pessoas que ganham at? um sal?rio, o ideal ? que o corte tribut?rio beneficie v?rios setores da ind?stria — analisa Porsse. Para Anfavea, ipi menor elevou vendas Arrecada??o soma R$ 91,387 bilh?es em junho e tem menor alta real no semestre desde 2009 Quando se avalia sob a ?tica do emprego, o resultado foi p?fio, conclui o estudo, que utilizou modelo econom?trico. A redu??o do IPI para o setor automotivo elevou em apenas 0,04% o ?ndice de emprego ao ano. — O efeito da redu??o do IPI para a ind?stria automotiva foi muito pequeno tanto para o PIB quanto para o emprego. Embora se espere que essas pol?ticas impulsionem a recupera??o econ?mica, raramente sua formula??o ? acompanhada de uma avalia??o mais criteriosa sobre os potenciais impactos — afirma Porsse. Procurado, o Minist?rio da Fazenda informou n?o ter feito estudo que mensure o impacto da desonera??o no crescimento e n?o comentou o levantamento da UFPR. O presidente da Anfavea, associa??o que re?ne as montadoras, Luiz Moan, considerou “estranhos” os n?meros apresentados pelos economistas paranaenses. Segundo ele, o desempenho negativo ou positivo da ind?stria automotiva tem efeito direto na economia, e cita como exemplo a venda de 1,5 milh?o de ve?culos a mais entre maio de 2012 e dezembro de 2013 como resultado do IPI zero para os carros de at? mil cilindradas. A Anfavea, por?m, n?o tem estudo que mostre o impacto direto da redu??o do IPI no crescimento do PIB e do emprego. — Quando a economia vai mal ? porque a atividade cai no setor automotivo. Mas, quando cresce, temos efeito positivo direto no PIB — afirma Moan. O presidente da Anfavea diz que, para cada posto de trabalho criado nas montadoras, outros cinco s?o gerados somente nas ind?strias de autope?as e nas concession?rias: — Se considerarmos toda a cadeia automotiva, o n?mero de empregos gerados (para cada vaga criada nas montadoras) ? muito superior a cinco. De acordo com os economistas da UFPR, a redu??o de impostos sobre o consumo ? uma ferramenta de curto prazo para estimular o crescimento econ?mico em per?odos de crise. Mas, em prazos mais longos, o mais desej?vel ? que o governo corte impostos sobre a renda, tanto de pessoas f?sicas quanto de empresas, pois isso teria mais impacto sobre o investimento e a produtividade. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat?stica (IBGE) mostram que o consumo das fam?lias, que vinha puxando o crescimento da economia, est? perdendo f?lego. A taxa passou de uma alta de 6,9% em 2010 para expans?o de 2,6% em 2013. E as vendas de ve?culos caem m?s a m?s. Segundo a Federa??o Nacional da Distribui??o de Ve?culos Automotores (Fenabrave), no primeiro semestre deste ano, a queda foi de 7,56%, quando 1,662 milh?o de unidades foram emplacadas no per?odo, mesmo n?vel de 2010. Para autom?veis e ve?culos comerciais leves (SUVs, picapes e furg?es), este foi o pior primeiro semestre dos ?ltimos quatro anos. Na semana passada, a General Motors anunciou aos empregados que pretende adotar suspens?o tempor?ria do contrato de trabalho de ao menos mil funcion?rios da unidade de S?o Jos? dos Campos, em S?o Paulo. No dia 1?, est? marcado novo encontro com o Sindicato dos Metal?rgicos de S?o Jos? dos Campos para discutir o assunto. — Os consumidores j? est?o com a renda comprometida e ningu?m troca de carro num prazo t?o curto. ? um valor muito alto e, em tempo de desconfian?a com a economia, ningu?m vai se comprometer com uma nova d?vida longa — diz Cl?udio Frischtak, presidente da consultoria Inter.B. Para Frischtak, a falta de um c?lculo para mensurar o impacto mostra que as desonera?es s?o “medidas irrespons?veis que mostram desespero do governo”. Na semana passada, o Banco Central (BC) anunciou uma nova tentativa para estimular o cr?dito, beneficiando os financiamentos de longo prazo, o que inclui o segmento de ve?culos. O BC liberou parte dos dep?sitos compuls?rios (dinheiro dos bancos que fica depositado no BC) para empr?stimos. O presidente da Anfavea, Luiz Moan, avalia que o consumidor ter? mais facilidade para obter cr?dito. Em 2013, segundo ele, 50% dos pedidos de financiamento para ve?culos eram negados. Este ano, esse ?ndice j? tinha ca?do para 35% e agora tende a se reduzir ainda mais. Mas especialistas acreditam que as medidas do BC ter?o efeito apenas marginal. Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e s?cio da consultoria Tend?ncias, n?o acredita que as vendas de ve?culos sejam alavancadas com a nova tentativa de est?mulo ao cr?dito do governo. — Os pre?os subiram com a inclus?o de novos equipamentos, e muita gente j? tinha antecipado a compra e n?o vai trocar o carro de novo — diz Loyola. Distor??o em rela??o a outros setores O estudo dos economistas da UFPR conclui ainda que, ao concentrar o benef?cio da redu??o de impostos em um ?nico setor, como no caso da ind?stria automotiva, o governo gerou uma distor??o em rela??o a outros segmentos da ind?stria. Na pr?tica, as pessoas deixaram de comprar outros bens para aproveitar o pre?o mais baixo dos carros com o imposto reduzido. Al?m disso, Porsse diz ainda que o governo fica ref?m e mais exposto ao lobby setorial, o que, no futuro, torna a retirada do benef?cio mais dif?cil. No m?s passado, Bras?lia decidiu manter a redu??o do IPI ap?s press?o das montadoras. O IPI que voltaria para a al?quota normal (de 4% a 13%, dependendo do modelo de ve?culo) foi prorrogado e se manteve entre 3% e 10% at? dezembro. Para S?rgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, a literatura econ?mica est? recheada de estudos que mostram “que pol?ticas parciais como a utilizada pelo governo n?o geram crescimento”. — Provavelmente sair?o outros estudos mostrando a mesma coisa no futuro n?o apenas sobre a redu??o de IPI dos autom?veis, mas tamb?m no caso das desonera?es e outras pol?ticas industriais que foram feitas parcialmente ao longo dos ?ltimos anos — disse Vale.

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Fonte: Vooz  |  Publicado por:
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