Publicada em 17 de Julho de 2014 às 11h10
Reservatório do maior sistema de captação e tratamento de águas da Sabesp em fevereiro.
Imagem: Patricia StavisReservat?rio do maior sistema de capta??o e tratamento de ?guas da Sabesp em fevereiro.
Torneiras vazias, caminh?es-pipa nas ruas, banhos de caneca, estocamento de ?gua, infla??o de pre?os, po?os artesianos. Parece distante, mas esse cen?rio pode vir a fazer parte do cotidiano de muitos paulistanos caso as previs?es mais pessimistas acerca do desabastecimento dos sistemas Cantareira e Alto Tiet? sejam confirmadas.
Respons?veis pelo abastecimento de mais de 10 milh?es de pessoas somente na regi?o metropolitana de S?o Paulo, os dois sistemas v?m quebrando seguidos recordes de volume negativo nos ?ltimos meses. Principal reservat?rio com o recurso dispon?vel para os habitantes da capital, a Cantareira registrou, na quinta-feira (17), apenas 17,8% de volume armazenado - todo ele vindo de seu volume morto, aquele localizado sob o n?vel das comportas dos reservat?rios, cujo bombeamento foi iniciado h? menos de tr?s meses com vistas a durar at? mar?o. Com registro de mais de 40% de volume dispon?vel at? fevereiro, quando passou a abastecer parte da popula??o a fim de amainar a crise da Cantareira, o Alto Tiet? n?o se encontra em situa??o muito melhor: tem 23,7% dispon?veis.
Chefe do Departamento de Recursos H?dricos da Universidade de Campinas (Unicamp), o professor Ant?nio Carlos Zuffo calcula que, caso a estiagem nas regi?es onde est?o localizados os reservat?rios permane?a nos pr?ximos meses, ambos os sistemas podem secar por completo entre outubro e novembro. Assim, a popula??o paulistana e das cidades que deles s?o dependentes se ver? em uma realidade h? pouco impensada para os grandes centros urbanos do Estado, necessitando lidar com uma crise cotidiana que poderia ter sido evitada caso medidas de emerg?ncia, como racionamentos, fossem implementadas pelo governo estadual.
"O que pode ocorrer ? a popula??o em geral ficar sem abastecimento, com as torneiras secas, e talvez, em alguns dias da semana, parcialmente atendida por um servi?o p?blico de transporte de ?gua por meio de caminh?es", analisa Zuffo. "At? poderia se apelar para a constru??o de po?os, mas a ?gua destes seria apenas das perdas f?sicas originadas das falhas na distribui??o dos sistemas e, com eles secos, deixariam de existir. Ent?o, caso aconte?a de termos muitos dias sem ?gua, seria at? recomend?vel estocar o recurso para as necessidades mais b?sicas, como cozinhar, lavar pratos e roupas. Al?m da redu??o do volume de ?gua para o banho, talvez com uma caneca."
A situa??o ? realmente grave. Como tem sido desde que ficou escancarada a crise nos sistemas, a Companhia de Saneamento B?sico do Estado de S?o Paulo (Sabesp), gerida pelo governo estadual, mant?m o discurso de confian?a nas for?as da natureza. Historicamente, ? entre os meses de setembro e outubro que volta a chover nas regi?es dos reservat?rios, o que teoricamente levaria o volume atualmente dispon?vel no Cantareira, por exemplo, a durar tranquilamente at? mar?o, quando as precipita?es j? teriam cumprido o seu papel de normalizar os mananciais, segundo a empresa. Mas o clima n?o tem sido favor?vel: assim como ao longo de quase todo o ano, no m?s passado as precipita?es foram brutalmente inferiores ? m?dia do per?odo - mais de tr?s vezes menores.
Al?m disso, a previs?o de precipita??o para o futuro pr?ximo n?o ? nada positiva. Segundo a meteorologista Helena Balbino, do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), at? o final da pr?xima semana s? deve chover nas regi?es do sistema, e de forma pouco consider?vel, nesta sexta-feira (18). Al?m disso, an?lises mostram que as temperaturas das ?guas do Oceano Pac?fico v?m aumentando, o que sugere a presen?a do fen?meno El Ni?o, respons?vel por bloquear as frentes frias mais ao sul do Pa?s, o que impede suas chegadas ?s regi?es dos reservat?rios paulistas - podendo afetar toda a expectativa da Sabesp. "Se essa condi??o for mantida nos pr?ximos tr?s meses, a situa??o de estiagem no sudeste deve permanecer como est?, ou seja, sem chuvas", diz Balbino.
Imagem: Foto: Patricia StavisSistema Cantareira tem o menor n?vel em duas d?cadas.
De fato, afora o discurso garantindo uma situa??o sob controle, nem a Sabesp parece acreditar totalmente em suas previs?es. Apesar de negar qualquer possibilidade de racionamento para os dependentes dos sistemas - o que na pr?tica j? vem ocorrendo em diversas regi?es da Grande S?o Paulo -, em nota enviada ao portal iG, a empresa afirma que tem estudado medidas para lidar com o problema. A primeira delas, anunciada em fevereiro, foi a de passar a oferecer desconto a clientes que reduzissem o consumo de ?gua em 20%. "O balan?o dessa a??o atendeu ?s nossas expectativas: 87% da popula??o abastecida pelo Sistema Cantareira aderiram ao programa de b?nus, sendo que 55% alcan?aram as metas de diminui??o de consumo, recebendo desconto na fatura de ?gua", afirma.
No entanto, a diminui??o ? irris?ria tendo em vista o tamanho da crise. Assim, a empresa j? assume a aplica??o de outras medidas. Uma delas ?, a partir de setembro, remanejar a ?gua excedente do Sistema Rio Grande (Represa Billings) - onde o volume hoje ? de 89,5% - para a regi?o do Alto Tiet?, produzindo 500 litros por segundo a mais de ?gua para seus clientes. A partir de outubro, cerca de 1.000 litros por segundo de ?gua do Sistema Guarapiranga tamb?m devem ficar dispon?veis para compensar o d?ficit, diz a empresa. A Sabesp tamb?m tenta autoriza??o para ampliar o uso da reserva t?cnica do Cantareira - eram 400 bilh?es de litros, dos quais 182,5 bilh?es j? foram bombeados para o sistema -, at? dois meses atr?s exaltada como suficiente para evitar racionamentos.
"Mas a utiliza??o do volume morto restante significaria que, caso as chuvas previstas para o final do ano sejam menores do que a m?dia hist?rica, iniciaremos janeiro com volumes negativos, em uma situa??o muito pior aos 27% positivos com que come?amos 2014", analisa Zuffo. "Quanto ?s outras medidas, a informa??o ? de que a Sabesp aumentaria a capta??o de outros tr?s sistemas e que todos juntos forneceriam uma vaz?o de 2 m3/s, equivalente ? metade da consumida pela cidade de Campinas. Isso ?, atenderia a uma popula??o de apenas 500 mil pessoas, insuficiente para toda a demanda."
Outra possibilidade em estudo pela Sabesp ? a retirada de um suposto volume morto localizado no Sistema Alto Tiet?, cuja atual situa??o j? foi contestada at? pelo Minist?rio P?blico de S?o Paulo, que abriu inqu?rito civil no final do m?s passado para investigar uma poss?vel inger?ncia de seus cinco reservat?rios (Ponte Nova, Jundia?, Taia?upeba, Biritiba e Paraitinga). Mas, segundo o professor Jos? Roberto Kachel, que foi funcion?rio da empresa por mais de tr?s d?cadas, o tal volume morto parece nem existir.
"Eu conhe?o bem esse sistema. Trabalhei l? por mais de dez anos e ? muito voc? dizer que ali existam 20 milh?es de metros c?bicos, o que duraria no m?ximo 20 dias. Ou seja, uma obra para essa retirada seria t?o cara e complicada que nem compensaria ser feita", analisa. "O sistema Cantareira ainda tem suas reservas, deve escapar do colapso. Vai ser um inferno para recuperar, mas a possibilidade ? grande. Agora, o Alto Tiet?, se esvaziar, a situa??o complica de verdade. E as consequ?ncias para a popula??o v?m em uma quest?o de poucas horas. Quase imediatamente n?o haveria ?gua saindo das torneiras daqueles que dependem dele."
Enquanto Zuffo acredita em solu?es - improvisadas, ? verdade - para evitar um total desabastecimento para os clientes dos reservat?rios, Kachel ? ainda mais pessimista em rela??o ao tema. Para ele, o uso de caminh?es-pipa para uma grande popula??o ? totalmente invi?vel, n?o s? pela aus?ncia de um montante t?o grande de ve?culos em rela??o ? demanda como por simplesmente n?o haver de onde captar tanta ?gua para ser transportada. Guardar o recurso tampouco seria uma solu??o, apenas uma medida desesperada, j? que "n?o existe nenhuma possibilidade de se conseguir armazenar 30 ou 40 metros c?bicos (1m? = mil litros) de ?gua em uma resid?ncia".
"Nunca vi nada parecido em meus 34 anos de Sabesp. E, agora que estou aposentado, tem me apavorado muito a possibilidade de os reservat?rios secarem, enquanto o governo fica com papo furado, tratando a todos como se fossemos idiotas", diz. "Sinceramente, n?o tenho a m?nima ideia do que a popula??o poderia fazer caso essa seca realmente acontecesse. Entendo de captar ?gua, tratar, reservar, distribuir. Agora, se n?o tem ?gua, ? dif?cil at? de pensar. Rezo para que a Sabesp esteja certa."