Publicada em 27 de Abril de 2014 às 12h00
Haitianos estão sem abrigo após o fechamento feito pelo governo
Representantes do Minist?rio P?blico do Trabalho realizaram uma inspe??o no Centro de Estudos Migrat?rios da Arquidiocese de S?o Paulo, no centro da capital paulista, e constaram: haitianos vindos do Acre nas duas ?ltimas semanas n?o apenas est?o em grave situa??o de vulnerabilidade, como sujeitos a um risco alto de aliciamento para o trabalho escravo.
Imagem: Alan Morici/TerraClique para ampliarHaitianos est?o sem abrigo ap?s o fechamento feito pelo governo “Viemos ver em que situa??o essas pessoas est?o a fim de monitorar a situa??o trabalhista delas, ver se empresas as est?o contratando, e quais. Est?o abrigados precariamente, dentro das possibilidades que o centro disponibiliza, mas est?o sujeitos a aliciamento, nas ruas, para o trabalho escravo – e isso que queremos evitar”, afirmou a procuradora-chefe do MPT da 15? Regi?o, em Campinas, Catarina Von Zuben. Al?m do MPT, Tribunais Regionais do Trabalho e Minist?rio do Trabalho e Emprego acompanham a situa??o dos imigrantes.
Entre os imigrantes, idiomas correntes s?o apenas os da terra natal, o crioulo haitiano ou o franc?s. Em uma tentativa de chegar mais pr?ximo do portugu?s, entretanto, arriscam palavras vez ou outra, em espanhol, o que dizem ser suas maiores preocupa?es: “empleo y hambre”. Emprego (a falta dele, na verdade) e fome.
A inspe??o aconteceu nessa sexta-feira e foi realizada por procuradoras do Trabalho da capital e de Campinas. Elas checaram as condi?es trabalhistas de parte dos 450 haitianos que chegaram ? cidade desde o ?ltimo dia 12, egressos das cheias do rio Madeira, na Brasil?ia, j? que a maioria foi para a casa de amigos ou familiares, tamb?m haitianos, estabelecidos no Brasil h? mais tempo. Outros seguiram esta semana para Santa Catarina: foram contratados temporariamente para a colheita nas lavouras de ma??.
“O problema maior que verificamos, al?m desse risco de aliciamento, foi a aus?ncia de quaisquer pol?ticas p?blicas que atendam a esses imigrantes”, observou a procuradora do Trabalho Chirstiane Nogueira, da 2? Regi?o, na capital.
O Centro de Estudos Migrat?rios fica na Par?quia Nossa Senhora da Paz, na Baixada do Glic?rio, uma das regi?es mais degradadas do centro de S?o Paulo. Horas depois da inspe??o, vans locadas pela Prefeitura levaram os haitianos ao Minist?rio do Trabalho e Emprego para emiss?o de carteiras de trabalho em sistema de mutir?o – ao todo, segundo o munic?pio, foram cerca de 90 emiss?es do documento.
Diretor do centro tamb?m cita aliciamento
O diretor do centro, padre Paolo Parise, refor?ou o receio apresentado pelas procuradoras. Em entrevista ao Terra, ele afirmou que a falta de espa?os adequados para suprir a demanda de imigrantes que t?m chegado ? cidade tem facilitado a a??o de aliciadores na regi?o.
“A resposta da sociedade civil – de outras etnias e mesmo cat?licos – tem sido muito bonita no sentido de se voluntariar e ajudar com comida e preparo de refei?es, por exemplo. Ontem (quinta-feira) a prefeitura mandou alguns colch?es. Sabemos que n?o ? uma opera??o f?cil, mas precisamos de uma casa de acolhida. O poder p?blico n?o tem isso em S?o Paulo”, disse o religioso de 47 anos, italiano, que j? atuou em pa?ses como It?lia, Portugal e Alemanha na causa migrat?ria.
“Em outros pa?ses, h? mais programas p?blicos voltados ao imigrante. Aqui, n?o – e olha que s?o poucos no Brasil: nem 1% da popula??o”, relatou. “E j? come?amos a observar pessoas aqui no Glic?rio oferecendo trabalho. E sabemos que isso n?o ? pago, por experi?ncias anteriores que tivemos com imigrantes. ? um risco grande”.
Entre os haitianos, sonhos e dramas
M?e de dois filhos pequenos que ficaram no Haiti, Charlane Charles Pierre, 26 anos, foi econ?mica nas palavras: “Preciso trabalhar. N?o quero mais passar fome.”
Os amigos pedreiros Junior Borgelas, 28 anos, e Ronado Thema, 38 anos, tamb?m haitianos, frisaram: emprego em solo brasileiro ? o que mais eles querem para, um dia, trazer suas fam?lias embora. “J? trabalhei na constru??o civil aqui por tr?s, quatro meses, e no dia de receber o respons?vel sumia. Se a gente entra em firma boa para tentar algo, a resposta sempre ?: ‘Aqui n?o precisamos de estrangeiro’. A falta de emprego ? pior que a saudade da fam?lia, em alguns dias”, lamentou Borgelas, h? dois anos no Brasil. “Quero trazer minha fam?lia para c?”, resumiu Thema, que deixou mulher e cinco filhos em Porto Pr?ncipe, capital haitiana.
Quase uma exce??o na regra de haitianos que vieram e sonham em fincar ra?zes no Brasil, o estudante Daniel Alfred, 27 anos, contou que quer mesmo ? voltar ao Haiti. L?, h? um ano e dois meses, ele deixou o curso de Agronomia, onde n?o tinha condi?es de bancar os estudos. Em S?o Paulo, faz curso t?cnico de eletr?nica com um objetivo de m?dio prazo tra?ado: “N?o quero ficar em subemprego aqui, isso ? muito dif?cil. Vou estudar no Brasil, quero fazer faculdade, e voltar para o Haiti para ganhar um sal?rio melhor.”
Sotaque gera desconfian?a, diz peruano
Um dos poucos n?o haitianos no centro de imigrantes, o artes?o peruano Ciro Monz?n Zeballo, 52 anos, h? quatro meses em S?o Paulo, n?o pretende voltar para Cuzco, onde vivia. “Gosto do Brasil, gosto da estrutura federativa que h? aqui, n?o nos expulsam, como se faz nos Estados Unidos com os imigrantes. S? que aqui, ?s vezes, a pessoa fica desconfiada quando ouve meu sotaque. No Peru, a confian?a ? maior justamente quando percebemos que o turista ? brasileiro. Gostaria que isso pudesse ser diferente”, sugeriu.
Prefeitura fala em “a?es emergenciais”
Em nota, a prefeitura de S?o Paulo informou, por meio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, que est?o sendo tomadas “medidas de urg?ncia para atender ? popula??o de imigrantes” que veio do Acre.
Entre as a?es, segundo a secretaria, est? “o fornecimento de colch?es e alimenta??o, al?m de disponibilizar vagas nos albergues da rede”, e uma for?a-tarefa para emiss?o imediata das carteiras de trabalho aos haitianos que n?o possu?am o documento.
“Na pr?xima semana a prefeitura de S?o Paulo dever? se reunir com o Minist?rio da Justi?a para buscar diretrizes conjuntas de inser??o social desta popula??o no Brasil, de forma planejada e estruturada”, finalizou a nota.