Piaui em Pauta

Vida extravagante de Biggs no Rio deixa saudades na vizinhança.

Publicada em 19 de Dezembro de 2013 às 01h18


? A not?cia come?ou a se espalhar cedo no cruzamento da rua Monte Alegre com a ?urea, um dos "baixos" bo?mios de Santa Teresa, onde Ronald Biggs ia regularmente para tomar uma cerveja no Bar do Gomez ou na mercearia ao lado.

? Siga-nos no Twitter

Durante mais de 15 anos, Biggs morou pertinho dali, subindo a ladeira de paralelep?pedos da Monte Alegre. Ricardo Esteves, s?cio da mercearia, diz que ele era "um grande amigo, um grande cliente, um grande fregu?s".



"Ele recebia muita visita de fora e sempre trazia o pessoal aqui para beber. E dava muita festa em casa, ent?o sempre comprava tudo aqui", diz.

Foi da mercearia, lembra Ricardo, que Biggs encomendou 30 engradados de cerveja para abastecer a festa que deu para comemorar os 30 anos do assalto ao trem pagador --que ocorreu em 8 de agosto de 1963, lan?ando-no para a hist?ria do crime mundial.

"Foi uma baita festa. Ele vai fazer muita falta. Ningu?m recriminava ele aqui n?o. Ele s? dava mais alegria ao bairro", diz.

A casa onde Biggs morava foi por um bom tempo uma esp?cie de ponto tur?stico alternativo em Santa Teresa, com visitas tanto de pessoas ilustres quanto de turistas comuns que chegavam ?vidos para conhecer o ladr?o que virou ?cone do crime mundial e celebridade carioca.

?gua tamb?m roubada
O casar?o antigo em estilo belle ?poque ? dividido em tr?s apartamentos. Biggs morou com o filho no n?vel mais baixo, com uma vista privilegiada para o centro do Rio e uma piscina que, de acordo com os vizinhos, era esvaziada e enchida duas vezes por semana com um gato para roubar ?gua da rua --porque Biggs n?o gostava de cloro.

Nesta quarta-feira (18), o endere?o virou ponto disputado pela imprensa, com rep?rteres de diversos ve?culos tocando as campainhas na vizinhan?a atr?s de hist?rias sobre a vida carioca do c?lebre fugitivo ingl?s. Um cinegrafista lembrou que j? estivera ali antes para entrevistar Biggs. "Mas ele s? dava entrevista se a imprensa pagasse", disse.

O fot?grafo Renan Cepeda mora no apartamento logo acima no mesmo pr?dio e conviveu com Biggs e seu filho Mike durante 11 anos, at? ele decidir voltar para a Inglaterra. Ele conta que pai e filho compraram o apartamento em 1984 --Mike era uma crian?a, mas o dinheiro que ganhou como integrante da banda Bal?o M?gico foi decisivo para a compra.

Cepeda testemunhou de perto a fama de festeiro de Biggs, com as festas e churrascos em volta da piscina. Mas o agito era tamb?m o seu ganha-p?o. Biggs escapou da extradi??o gra?as ao filho brasileiro, mas n?o podia trabalhar no Brasil. Ent?o o jeito foi se sustentar com a pr?pria fama.

"Ele cobrava para dar entrevistas, cobrava para as pessoas tirarem foto com ele, montou uma infraestrutura onde podia dar festas e receber turistas. Quase toda semana tinha gente visitando, parava uma van ou um ?nibus na porta. Ele virou uma atra??o tur?stica", lembra Cepeda.

'Esconderijo perfeito'
Mas o fot?grafo diz que na maior parte do tempo Biggs era simplesmente o seu "vizinho ingl?s", que al?m de festas gostava de plantas e de marcenaria, e que at? se esquecia que se tratava do famoso Ronnie Biggs --at? que alguma virada no caso trouxesse hordas de rep?rteres para a porta do pr?dio.

No geral, por?m, Santa Teresa era um ref?gio. "Acho que ele se sentia muito bem aqui. A rua ? pouco movimentada e ele gostava de ter a sua privacidade e sossego. Era o seu esconderijo perfeito", diz.

O esconderijo s? n?o era melhor porque os moradores do bairro sabiam muito bem onde ele morava. O taxista J?lio C?sar Perillo lembra de j? ter levado passageiros para at? l? s? para que pudessem ver sua casa.

Ele transportou Biggs diversas vezes, tanto no t?xi quanto na Kombi lotada que dirigia mais cedo.

"Tinha at? prazer de levar ele, p?, um cara famoso mundialmente", lembra. "Mas apesar de ser famoso ele era muito simples. O pessoal tratava ele normalmente, ele se misturava com as pessoas comuns."

Como a maioria das pessoas ouvidas pela BBC Brasil, Perillo n?o mostrou nenhuma reservas quanto ao passado criminoso de Biggs. O fasc?nio suplantou o julgamento.

"Acho que no Brasil n?o precisa vir ladr?o de fora. A gente aqui pode at? exportar ladr?o. D? para mandar para fora que ainda vai sobrar muita gente."

'Prisioneiro do Rio'
Ronald Biggs deixou o Brasil e Santa Teresa em 2001. Ele e o filho enfrentavam dificuldades financeiras. Biggs havia tido diversos derrames, n?o tinha mais condi?es de receber turistas em casa e estava gastando muito com medicamentos.

Foi quando, lembra Cepeda, ele recebeu uma oferta vultuosa do tabloide ingl?s "The Sun" para documentar com exclusividade o seu retorno ao pa?s. Aceitou, mas l? chegando foi preso imediatamente.

"Acredito que ele tenha se entregado porque queria deixar uma heran?a para o filho. Mas eles contavam que ele poderia receber um indulto da rainha devido ao seu estado de sa?de, e isso nunca aconteceu."

A vida extravagante levada no Brasil, posando para fotos com mulatas e com uma camiseta de "prisioneiro do Rio", certamente n?o ajudou a inspirar muita solidariedade nos ingleses.

"Ele tripudiou muito as institui?es inglesas, cultivava essa imagem de 'olha como eu me dei bem', o que para muita gente soou como uma afronta", diz Cepeda.

Mas mesmo no fim da vida, e mesmo no c?rcere, Biggs n?o perdeu o esp?rito irreverente e continuou aprontando.

Cepeda conta que quando Biggs estava na pris?o de Belmarsh, com a sa?de debilitada, os carcereiros decidiram manter as v?rias portas at? a sua cela abertas para que ele pudesse ir ao banheiro de tr?s em tr?s horas durante a noite, j? que s? conseguia andar se arrastando e n?o conseguia chegar longe.

At? que uma noite ele saiu da cela e n?o voltou. Deixou um bilhete: "Cheers! - I'm back to Rio" (Algo como "Sauda?es! - Voltei para o Rio").

"Foi um alerta geral, Belmarsh foi sitiada, vieram helic?pteros, batalh?o de choque, todos atr?s dele", conta Renan.

O velho Biggs estava escondido no arm?rio do banheiro, morrendo de rir enquanto todo mundo o procurava.
Tags: A notícia começou - Vida extravagante - Biggs no Rio

Fonte: uol  |  Publicado por: Da Redação
Comente através do Facebook
Matérias Relacionadas