Piaui em Pauta

Vinde a mim os eleitores: a força da bancada evangélica no Congresso.

Publicada em 23 de Março de 2013 às 18h40


?"O Senhor disse que aqueles que querem viver piedosamente ser?o perseguidos. Estamos vivendo um ensaio daquilo que ainda vir? com mais intensidade contra os crist?os". Com o colarinho desabotoado, terno e gravata escuros e camisa branca, o pastor Henrique Afonso (PV-AC) faz um alerta ?s pessoas que acompanham sua prega??o na manh? da ?ltima quarta-feira. O local: o plen?rio n?mero dois das comiss?es da C?mara dos Deputados. O p?blico: oito deputados federais e trinta servidores do Congresso.

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O culto ocorre semanalmente. Os parlamentares-pastores fazem um rod?zio. A cada semana, uma dupla divide a dire??o do servi?o e a prega??o do dia. Na ?ltima quarta-feira, o serm?o de Henrique Afonso estava relacionado ? tens?o gerada pela elei??o de Marco Feliciano (PSC-SP), pastor da Assembleia de Deus, para a presid?ncia da Comiss?o de Direitos Humanos. O deputado enfrenta resist?ncia por afirmar que a uni?o de pessoas do mesmo sexo ? conden?vel e dizer que os africanos s?o v?timas de uma maldi??o dos tempos b?blicos. O caso apontou os holofotes para a atua??o da bancada evang?lica no parlamento. Em parte pelos pr?prios defeitos, em parte pela incompreens?o dos advers?rios pol?ticos, esses parlamentares t?m ganhado espa?o cada vez maior no debate pol?tico nacional. E os sinais s?o de que eles vieram para ficar.

A presen?a de evang?licos na pol?tica – assim como a de cat?licos ou esp?ritas – n?o ? novidade. Partidos de inspira??o crist? existem em pa?ses como Su??a, Inglaterra e Holanda sem que isso signifique qualquer amea?a ? democracia. A mulher mais poderosa da Europa, a primeira-ministra alem?, Angela Merkel, pertence ? tradicional Uni?o Democrata-Crist? de seu pa?s. A mesma Alemanha tem como presidente o independente Joachim Gauck, um conhecido pastor luterano. O maior partido do Parlamento Europeu, o European People's Party, ? composto fundamentalmente por democratas-crist?os. Assim como os cultos na C?mara dos Deputados, a realiza??o de eventos religiosos no Congresso dos Estados Unidos ? comum desde a ?poca de Thomas Jefferson. O movimento abolicionista surgiu na Inglaterra, organizado por um grupo de doze protestantes. A campanha dos direitos civis nos Estados Unidos teve como l?der o pastor batista Martin Luther King.

Em Bras?lia, chama a aten??o a atua??o organizada desse grupo de parlamentares que, apesar de pertencerem a partidos diferentes, se articulam na defesa de suas bandeiras. E elas costumam ser mais contra do que a favor: contra a legaliza??o do aborto, o casamento gay, a eutan?sia e a libera??o das drogas. A favor, basicamente, da ampla liberdade religiosa. No total, os evang?licos representam 14,2% dos deputados e 5% dos senadores.

A bancada evang?lica tamb?m n?o foge ? regra do Congresso Nacional quando o assunto s?o den?ncias de corrup??o. Dos 73 integrantes na C?mara, 23 respondem a processo no Supremo Tribunal Federal (STF). H? acusados de corrup??o, peculato (desvio praticado por servidor p?blico), crime eleitoral, uso de documento falso, lavagem de dinheiro e estelionato. H? at? um condenado a pris?o que pode ir para a cadeia em breve: Natan Donadon, que tem pena de treze anos e quatro meses a cumprir.

Outro ponto delicado ? a legitimidade do uso de fi?is como plataforma pol?tica. S?o muitos os ind?cios de que alguns deputados evang?licos utilizam os seguidores como massa de manobra. Na ?ltima quarta-feira, em meio ? turbul?ncia envolvendo a Comiss?o de Direitos Humanos, Anthony Garotinho (PR-RJ) dava conselhos a Marco Feliciano no plen?rio da C?mara e sugeria que o colega renunciasse ? presid?ncia do colegiado. Ex-governador do Rio, Garotinho foi direto: "O que voc? tinha que capitalizar no meio evang?lico, j? capitalizou".

"Todos os partidos t?m buscado, de uma maneira geral, ter evang?licos nos seus quadros, porque ? um segmento substantivo do eleitorado brasileiro. Essas religi?es est?o crescendo, e ? claro que h? interesse como massa eleitoral", diz o cientista pol?tico e professor da Universidade de Bras?lia (UnB) Jo?o Paulo Peixoto. Ele tamb?m afirma que os parlamentares evang?licos, se n?o s?o melhores do que a m?dia, n?o fogem ? regra dos colegas de Congresso: "Os evang?licos n?o est?o acima do bem e do mal. Embora tenham uma prega??o r?gida dos valores morais, h? tamb?m um outro lado que diz respeito ? pr?pria condi??o humana", afirma.

O deputado Jo?o Campos (PSDB-GO), pastor da Assembleia de Deus e presidente da Frente Parlamentar Evang?lica, reconhece que os desvios ?ticos prejudicam a imagem dos parlamentares da frente: "Se tiver um processo de corrup??o, ? claro que incomoda. A exposi??o negativa pode prejudicar, mas acho que faz parte do processo".

Hist?rico – A Frente Parlamentar Evang?lica foi criada em 2003. Tr?s anos depois, o Congresso foi atingido por um esc?ndalo que colocou os evang?licos em evid?ncia da pior forma poss?vel: a M?fia das Sanguessugas, que desviava emendas parlamentares e abastecia os bolsos de deputados e empres?rios, envolveu 23 integrantes da bancada. Desses, dez eram da Igreja Universal do Reino de Deus e nove pertenciam ? Assembleia de Deus. Talvez por isso, os deputados ligados a essas igrejas perderam espa?o nas elei?es de 2006. A recupera??o nas urnas ocorreu em 2010 com a renova??o dos quadros pol?ticos. Hoje, representantes da Assembleia de Deus – que tem diversas ramifica?es e n?o possui comando ?nico, como ? o caso da Igreja Universal – s?o os mais numerosos.

Al?m dos deputados, quatro senadores comp?em o time evang?lico no Congresso. A maioria desses 77 parlamentares pertence ? base da presidente Dilma Rousseff. Mas, como algumas bandeiras relacionadas ao aborto e ao casamento de pessoas do mesmo sexo n?o s?o prioridade na pauta dos partidos de oposi??o, os evang?licos acabam ocupando uma fun??o d?bia: apoiam o governo em temas econ?micos e de assist?ncia social, mas divergem abertamente quando o Executivo quer, por exemplo, distribuir o "kit-gay" nas escolas prim?rias ou relaxar as penas para traficantes de drogas.

A parceria com um governo petista ? especialmente contradit?ria porque o partido tem como resolu??o oficial a legaliza??o do aborto e a defesa das bandeiras do movimento gay. O autor do serm?o da ?ltima quarta-feira no culto da C?mara sabe bem disso. Henrique Afonso, que ? presbiteriano, foi integrante do PT at? 2009, quando acabou punido por n?o abrir m?o da oposi??o ao aborto. Luiz Bassuma, esp?rita, tamb?m deixou a sigla e foi parar no mesmo PV.

"N?s t?nhamos uma cl?usula de consci?ncia quando eu entrei no PT, e isso me garantia a express?o da minha cosmovis?o", explica Afonso. "A partir do momento em que tiraram essa cl?usula de consci?ncia e passaram a defender explicitamente a descriminaliza??o do aborto e outras mat?rias associadas ? bio?tica, eu tive de ter um posicionamento contr?rio."

Afonso e Bassuma entraram no PV porque, na ?poca, a sigla tinha como expoente a ex-senadora Marina Silva, tamb?m evang?lica. Agora, ela pretende formalizar o seu novo partido, a Rede, para disputar as elei?es presidenciais de 2014. ? pouco prov?vel que o projeto seja bem-sucedido. Mas, se funcionar, Marina ser? a primeira representante das igrejas protestantes a chegar ao poder m?ximo.

Estado laico – Anthony Garotinho, um dos expoentes da bancada, afirma que a laicidade - separa??o do poder pol?tico e administrativo da religi?o - do estado ? uma bandeira dos protestantes. "O que n?o pode ? misturar a sua f? com a laicidade do estado", diz. O ex-governador do Rio de Janeiro ? um curioso caso de pol?tico que mudou de eleitores ao longo da carreira: at? 1994, quando se converteu e passou a integrar a Igreja Presbiteriana, ele se definia como marxista. Embora possa parecer contradit?ria, a defesa da laicidade ? uma bandeira antiga dos deputados evang?licos. Antes de temas como a uni?o de pessoas do mesmo sexo ganharem espa?o no Congresso, um dos principais alvos dos protestantes eram a Igreja Cat?lica, que eles viam como privilegiada pelo poder p?blico.

A presen?a dos evang?licos no Congresso ? apenas o resultado de uma realidade demogr?fica: o r?pido crescimento das religi?es evang?licas, especialmente as pentecostais, deve resultar em uma consolida??o da presen?a de pastores protestantes no poder. A bancada evang?lica, ali?s, permanecer? em evid?ncia nos pr?ximos dias. A press?o para que Marco Feliciano deixe a presid?ncia da Comiss?o de Direito Humanos continua crescendo. Ele diz que n?o abrir? m?o do cargo. Mas, se isso acontecer, os parlamentares de partidos de esquerda que protestam contra o pastor n?o devem ficar muito animados: os deputados evang?licos permanecer?o sendo maioria na comiss?o. Sinal de novos tempos no Congresso.

Tags: Vinde a mim os eleit - O Fluminense ainda

Fonte: veja  |  Publicado por: Da Redação
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